Mônica Salmaso homenageia o Brasil profundo com o disco 'Caipira'

Faixas reúnem várias gerações de compositores. Repertório traz surpresas, como o lado sertanejo de Cartola

por Irlam Rocha Lima Kiko Ferreira 25/08/2017 10:00

Paulo Rapoport/Divulgação
Monica Salmaso diz que seu disco sertanejo vem do respeito à gente brasileira. (foto: Paulo Rapoport/Divulgação)

Ao longo de quase três décadas, Mônica Salmaso construiu uma das trajetórias mais bem avaliadas da MPB. Compromissada com a cultura brasileira, essa sofisticada intérprete paulistana emprestou seu canto a gêneros diversos desde o disco de estreia, em que focalizou os afrossambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Depois, vieram elogiados projetos nos quais colocou em relevo as obras de Chico Buarque (Noites de gala, samba na rua), Guinga e Paulo César Pinheiro (Corpo de baile).


Em Caipira, 11º disco de sua carreira, Mônica incursiona pelo universo da música rural com faixas assinadas por autores de diferentes gerações. A ideia de gravar esse álbum é antiga, conta ela. ''Sou uma pessoa urbana, nascida e criada na megalópole chamada São Paulo, mas sempre me encantei com a diversidade. Em 2003, convidada pelo Sesc para tomar parte de um projeto temático que abria espaço para vários estilos, tive liberdade para escolher o tema. Desenhei um show voltado para a música caipira, chamado Casa de caboclo'', lembra. Ela convidou o escritor, contador de causos e violeiro Paulo Freire para participar do projeto. ''Ele morou na cidade mineira de Urucuia, conviveu com Manoelzão, personagem de Guimarães Rosa, e conhece com profundidade o universo sertanejo'', explica.

GARIMPO Algumas canções de Caipira vêm do repertório de Casa de caboclo. Outras estavam guardadas na memória, numa espécie de baú de afetividades. ''Há, ainda, pérolas que garimpei no nosso folclore e canções fruto de pesquisa'', explica, citando o tema religioso Alvoradinha, Primeira estrela de prata (Rafael e Rita Altério), Minha vida (Vieira e Carreirinho) e Leilão (Hekel Tavares e Joracy Camargo), além de Açude verde (Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro).

Surpreende o fato de algumas faixas de Caipira serem assinadas por consagrados autores da MPB que, a princípio, não teriam relação com o tema, como é o caso de Cartola, Gilberto Gil e Roque Ferreira. ''Em 2003, quando ia gravar Iaiá, disco em que o samba está em destaque, fui ao Rio de Janeiro. Na Lapa, assisti a um show de Teresa Cristina e nos tornamos amigas. Ela me mostrou Feriado na roça, a inimaginável música caipira de Cartola. Guardei-a e gravei agora.''


Para Mônica, Sonora garoa, de Passoca, é um clássico caipira moderno. Ela destaca também a moda de viola Saracura três potes (Cândido Canela e Téo Azevedo). ''Foi uma honra fazer dueto nessa música com o grande Rolando Boldrin'', frisa a cantora.

O verso inicial da faixa-título, assinada por Paulo César Pinheiro e Breno Ruiz, diz: ''Sou tabaréu, sou capiau, sou caipira/ É a prosa que eu trago na viola e na lira/ É do mato, é da rocha é do chão''. De acordo com Mônica Salmaso, seu novo trabalho vem do respeito que ela tem pelo Brasil mais profundo. ''Neste momento, é mais urgente do que nunca respeitarmos o que somos e cuidarmos da gente'', conclui Mônica.

 

CLÁSSICO E ATEMPORAL Caipira é disco que acorda cedo, feito amor passarinheiro. Tabaréu, caboclo e sertanejo, sem os arroubos dos ''universitários'' de plantão, apresenta uma visão do universo interiorano brasileiro sem falsa animação. Mônica Salmaso retrata o personagem-símbolo que movimenta programas de rádio e TV de mestres como Rolando Boldrin, Saulo Laranjeira e Múcio Bolivar. Esse homem, como ela observa, ri das dificuldades, faz troça com o amigo, é romântico sem vergonha de ser.


Com produção e sopros de Teco Cardoso e banda básica formada por Neymar Dias (viola caipira e baixo acústico), Nailor Proveta (clarinete e sax-tenor), Robertinho Silva (percussão) e André Mehmari (piano em três faixas), além das participações de Boldrin, Toninho Ferragutti e do mineiro Sérgio Santos, o disco soa, ao mesmo tempo, clássico e atemporal. Dona de uma voz afinada e aconchegante, Mônica consegue recuperar faixas conhecidas e apresentar novidades, sem perder a linha e o prumo.

Aqui cabem da clássica e bem-humorada A velha (Zezinho da Viola) à minimalista versão voz e viola da densa Leilão (Hekel Tavares/Joracy Camargo), com passagem pela porção caipira da vanguarda paulista em Sonora garoa (Passoca) e pela mineiridade de Sérgio Santos tanto em Açude verde (com Paulo César Pinheiro) quanto na inédita Saíra. Do universo do samba vem o raro Cartola caipira (Feriado na roça) e Dudu Nobre fora de seu hábitat, parceiro de Roque Ferreira em Água da minha sede.

Do repertório de duplas caipiras de raiz vieram Saracura três potes (Candido Canela e Téo Azevedo) e a moda Minha vida (Vieira/Carreirinho), já cantada por Vieira e Vieirinha e pelo trio Conversa Ribeira. Registrada anteriormente com outro nome, Primeira estrela de prata (Rafael e Rita Altério) representa bem o estilo da dupla. A religiosidade interiorana das Caixeiras do Divino do Maranhão marca presença na folclórica Alvoradinha, com destaque para acordeom e voz de Ferragutti, enquanto o djembê de Robertinho Silva dá solidez e solenidade ao arranjo.

Aberto com a faixa-título, um retrato do caipira típico feito por Breno Ruiz e Paulo César Pinheiro, o álbum tem como a maior surpresa a tradução para o universo sertanejo de Bom dia, única parceria de Gilberto Gil e Nana Caymmi, lançada em 1967.

 

CAIPIRA
•  De Mônica Salmaso
•  Biscoito Fino
•  14 faixas
•  Preço sugerido: R$ 29,90

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