Estreia em BH show do álbum 'Disco do tênis', de Lô Borges, lançado há 45 anos

Músicos mineiros falam sobre o projeto cult do integrante do clube da esquina

por Ana Clara Brant 31/03/2017 07:00
Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Primeiro trabalho solo de Lô Borges, o “Disco do Tênis” foi um marco tanto para o músico mineiro, que o gravou aos 20 anos, quanto para artistas de várias gerações. Para muita gente que nem era nascida em 1972, quando foi lançado o icônico Lô Borges (nome “oficial” do LP), ele virou uma espécie de disco de cabeceira. Hoje à noite, o repertório será apresentado na íntegra e com arranjos originais pela primeira vez em Belo Horizonte. Os ingressos para o show, no Sesc Palladium, estão esgotados.

Gabriel Guedes, de 39 anos, filho de Beto Guedes, sempre teve o disco solo de Lô como um de seus preferidos. “O fato de conviver com o pessoal do Clube da Esquina e de gostar da boa música acabou me fazendo descobrir essa preciosidade. Esse LP sempre esteve lá em casa. Adoro, ficava intrigado com aquela imagem do tênis sujo na capa. Outro dia, o Lô comentou comigo que, quando gravou esse trabalho, ele estava meio disperso, solto, era muito jovem e com a gravadora em cima. Ele contou que meu pai o pegou pela gola, meio que o obrigou a gravar, e ele é muito grato por isso”, revela.

Para Gabriel, é impressionante a solidez que Lô exibia já no início da carreira. As canções Fio da navalha (Lô Borges) e O caçador (parceria com Márcio Borges) são obras-primas, diz. “As melodias são bem construídas, as letras. É um disco maduro, mesmo para quem tinha pouca idade. Por isso ele se tornou clássico”, afirma o músico, que se mudou há três meses para Trancoso, na Bahia.

Da mesma geração de Gabriel, o cantor e compositor Rodrigo Borges, de 41, sobrinho de Lô, observa que o álbum, com a capa icônica, traz o DNA de sua família e o ambiente da casa dos avós, Maricota e Salomão. “Tem a cara de Santa Tereza, cheiro de asfalto, está impregnado de esquinas e histórias. É uma criação totalmente original”, pontua.

Rodrigo sempre cantou músicas do LP em seus shows. “É um marco não só na carreira do Lô, mas da música mineira e brasileira. Ele tem um frescor, traz a mistura de elementos, uma sonoridade meio crua. Sem contar que reuniu um time de primeira. Aquela geração estava começando, mas mostrou a que veio. O ‘Disco do Tênis’ experimenta várias coisas e acabei incorporando isso à minha essência de compositor”, revela.

PSICODELIA Quando o primeiro disco solo de Lô Borges chegou ao mercado, Samuel Rosa tinha apenas 6 anos. Só o descobriu quase adulto. “Quando ouvi, achei muito impactante. É um álbum denso, é o Lô na sua essência e completo. Ele estava em uma fase extremamente criativa. Como sou muito próximo dele, sei de alguns bastidores do processo de produção, de como a gravadora (EMI-Odeon) ficou satisfeita com o disco Clube da Esquina e encomendou um trabalho solo ao Lô. Pra mim, é um dos melhores discos da música popular brasileira, além do fato de conseguir flertar com a psicodelia, o rock e o folk. É um álbum obrigatório pra quem quer entender a música brasileira na virada dos anos 1960 e 1970”, frisa o vocalista do Skank.

Samuel considera o álbum essencial em sua própria formação artística. Chegou a cantar uma das faixas, Você fica melhor assim (Lô Borges /Tavinho Moura), no início da carreira. “Curiosamente, anos depois, o Skank a gravou com o Lô em uma coletânea da Sony. A métrica do Lô é muito correta, ele criou melodias lindas, muitas vezes até antes de as letras ficarem prontas. É um disco maravilhoso, muito autêntico, representa tudo o que Lô Borges vivia naquela época e o consolidou como um dos grandes expoentes da composição no país”, declara.

A cantora Marina Machado, que nasceu no ano de lançamento do disco, escutou música mineira desde criança. Ela se lembra de, ainda menina, ouvir A via láctea (1979) e Nuvem cigana (1981), lançados por Lô Borges. O “Disco do Tênis” só entrou na vida de Marina no final da adolescência, quando ela começou a cantar rock com o Tianatáscia. “Foi uma época em que ouvi muito esse LP. O Clube da Esquina, de maneira geral, sempre flertou com as linguagens pop e rock. O ‘Disco do Tênis’ foi assim também. Não só o Lô, como o Milton, sempre me abraçaram e influenciaram demais a minha formação, a minha trajetória”, afirma.

TSUNAMI
O álbum é significativo também para músicos mais jovens, como o baixista e compositor Frederico Heliodoro, de 29, e a poeta, compositora e produtora cultural Brisa Marques, de 31. Para Fred, o “Disco do Tênis” é uma das colunas que sustentam o que ficou conhecido como movimento Clube da Esquina.

“Essa estética mineira veio como um tsunami na música brasileira da época, injetando mais elementos ainda na MPB e criando uma identidade para a música de Minas, reconhecida em todo o mundo. Inevitavelmente, morando em Belo Horizonte desde os 5 anos, sempre tive contato com artistas daqui. Essa proximidade me influenciou como baixista e compositor”, acredita o baixista.

Brisa Marques destaca os artistas talentosos que tocaram no disco – Beto Guedes, Toninho Horta, Flavio Venturini e Vermelho, entre outros. Diz que a vitalidade dessa turma e de Lô está nítida nas faixas. Para ela, o LP dialogava de forma eficaz com o que ocorria em Minas e no Brasil naquela época.

“Foi um projeto surpreendente, que conquista fãs até hoje. A impressão que tenho é de que não foi muito bem planejado, mas feito muito mais no sentimento, no fluxo da emoção. Talvez isso explique o resultado tão extraordinário. Quero muito ir ao show. Acredito que essa oportunidade única será um momento mágico”, conclui.

TURNÊ 
 turnê de Lô Borges estreou em janeiro, em São Paulo, com duas sessões e ingressos esgotados, e passou por Juiz de Fora. Além das 15 faixas do “Disco do Tênis”, a apresentação de hoje traz algumas canções do disco Clube da Esquina. No palco, Lô estará acompanhado de Pablo Castro (guitarra, violões, piano e voz), Guilherme De Marco (violão, guitarra e vocal), Dan Oliveira (violão, guitarra, percussão e vocal), Alê Fonseca (teclados), Paulim Sartori (baixo, bandolim, percussão e vocal) e D’Artganan Oliveira (bateria, percussão e vocal).

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