Latente nas faixas do álbum, a dor brota da história de Elza. Casada à força pelo pai aos 12 e mãe pela primeira vez aos 13, ela viu cinco dos sete filhos morrerem. O adeus mais recente ocorreu em julho, quando Gerson, que ela deu à luz aos 19, não sobreviveu a uma infecção urinária. “Música é sedativo da alma”, pontua a artista. Por isso, A mulher do fim do mundo carrega a voz desafiada pela vida, porém vitoriosa na superação. “Quem canta é a Elza do agora, mas que vê as coisas deixadas para trás”, resume ela.
“Alguns problemas permanecem, como a homofobia, a mulher que sofre abuso em casa e não denuncia. Essas coisas acontecem a todo instante, não têm época”, alerta. Elza acompanha o noticiário com cada vez menos esperança: “Temos que continuar sabendo dos fatos, que são terríveis. Dói muito, mas não se pode negar a realidade cruel. Ela se faz presente”.
Materialização da reviravolta feminina, a canção de Douglas Germano traz Elza como a verdadeira Maria da Vila Matilde, mais brava que Maria da Penha. “Identifiquei-me muito com a letra na primeira vez que a ouvi. Fala muito perto de mim”, revela. A cantora diz ter sido vítima de agressões físicas e psicológicas, assim como “mulheres próximas”. O recado é contra a omissão. “Caladas, permitimos coisas horríveis. A mulher tem que gritar, denunciar para que isso não se repita várias vezes e com as outras”, alerta.
Benedita, outra joia no repertório de inéditas, descreve o desafio diário de uma travesti traficante que “leva o cartucho na teta” e “abre a navalha na boca”. “É um retrato”, define Elza, orgulhosa do dueto com o autor da canção, Celso Sim. “Uma letra que trata do crack e da mulher transexual é uma letra forte, violenta”, ressalta.
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Elza canta inéditas de Kiko Dinucci e Marcelo Cabral, ao gosto de seu vozeirão, com a mesma intimidade com que repaginava Lupicínio Rodrigues e Noel Rosa. O dueto com Rodrigo Campos em Firmeza?! ressuscita a leveza de seus diálogos cantados com Miltinho nos anos 1960. Desbocada, Pra fuder assume em estúdio o erotismo e a liberdade sensual – velhos conhecidos de quem já a viu no palco.
Mas é Solto, a favorita de Elza, que traz de volta a mulher que faz questão de seguir amando. “Sou apaixonada por essa música romântica, com arranjos de cordas tão lindos”, comenta, ao se referir à parceria de Clima e Marcelo Cabral.
RACISMO
A discussão sobre o racismo, tema da cantora desde os anos 1970, desta vez ficou reservada para a turnê. Até agora, foram duas apresentações na capital paulista, em que Elza se juntou a quarteto de cordas, à banda Bixiga 70 e aos músicos que trabalharam no CD: Kiko Dinucci, Romulo Fróes, Felipe Roseno, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos e Guilherme Kastrup.
“Atualmente, temos grandes negros no meio artístico. Mas ainda são tão poucos que a gente nem chega a ter contato direto com eles”, adverte. “O que será das crianças negras que nascem agora? Que identificação vão encontrar? Não há muitas referências na mídia sobre a realidade delas”, denuncia a cantora.
Apesar de tudo, Elza nunca entrega os pontos. “Tenho em mim a vontade de não parar, esse gás que é meu mesmo”, diz. Questionada sobre o equilíbrio entre suas quase oito décadas de vida e a constante busca por novidades, ela recorre a seu lema pessoal que batizou o documentário My name is now, de Elizabete Martins Campos, lançado em 2014. “Boto o passado todo num cantinho, guardadinho em mim, mas sabendo que o now está aqui. Ontem já foi, amanhã não sei. Então, tem que ser agora”, conclui.
Quando Elza Soares diz “só quero cantar até o fim”, não se trata de pedido, mas de exigência; que se cumpra, então.