Tendência ou protesto? Produtor cultural aposta na moda de homens de maiôs

Brasiliense diz que começou a usar a peça como uma brincadeira. Para especialista, quebra de padrões no vestuário é tendência

por Fernando Jordão 23/01/2019 10:23
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"É uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa." A fala da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, provocou polêmica por se referir a um estereótipo conservador. Agora imagine o que aconteceria se a ministra se deparasse, então, com um menino que usa não apenas rosa, mas um maiô rosa? Essa quebra de padrão já acontece e o mais curioso: pode ter sido lançada por um brasiliense.

Thum Thompson, 34 anos, aderiu ao uso dos maiôs em meados de 2012, inicialmente como uma brincadeira. "Comprei para usar em uma festa à fantasia. Fiz, com uma namorada da época, uma fantasia de nado sincronizado", lembra o brasiliense, que há três anos vive em São Paulo. "De certa forma, sempre brinquei com meu corpo, minhas roupas. Sempre usei roupas 'diferentes', ditas femininas, em outras situações. Vestidos, saias... Já tinha feito isso de outras formas quando mais novo", acrescenta.

Depois de um tempo — e muitos olhares de estranhamento —, o produtor cultural passou a perceber que o uso do maiô também poderia ser um ato político. "Comecei a entender que era uma provocação e passei a usar em outros tipos de situação para gerar um questionamento. Virou um misto dos dois. Continua sendo uma brincadeira, mas percebo que também serve para questionar", explica. "Óbvio que eu tenho privilégio por ser homem, branco, hétero, magro. Tudo isso diminui a chance de eu sofrer algum tipo de violência", reconhece.

Marca registrada 

Thum conta que os maiôs viraram sua "marca registrada". Seu guarda-roupa hoje tem 17 peças. Algumas feitas sob encomenda, mas a maioria comprada em lojas. Em relação à comodidade da vestimenta, ele diz que certos modelos causam, sim, um desconforto, mas que aprendeu a lidar com isso: "É difícil achar do meu tamanho, Tenho 1,90m. Às vezes, repuxa no ombro ou na virilha. Mas tenho alguns que têm mais tecido e, obviamente, escolho de acordo com a situação. Se for algum evento rápido, posso usar um que seja um pouco mais incômodo. Pras festas maiores, vou com os mais confortáveis".

O uso de maiôs por homem pode virar uma tendência? Especialista em Coolhunting pelo Instituto Europeu de Design, em Milão, e coordenadora do curso de Moda do Iesb, Clarice Garcia, acredita que não. "Por enquanto, é uma inovação. Mas, muitas vezes, morre nisso. Imagino que fique mais comum, mas não imagino que vire tendência este ano", pontua.

Apesar de o maiô em si não ser uma tendência, o uso dele está inserido em um comportamento que se mostra uma tendência: o de questionar os gêneros. "É um valor da contemporaneidade. Ele fala com essa geração que pretende se expressar politicamente através da moda. Não é só estético", contextualiza. "E não tem nada a ver com cultura gay. Tem a ver com questionamentos de por que eu não posso me vestir dessa forma, por que não posso me comportar dessa forma", completa a especialista. 
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(foto: Instagram/Reprodução)

Ainda segundo a professora, o momento que o Brasil vive — com uma guinada conservadora, refletida, por exemplo, na frase de Damares que abre este texto — faz com que esses movimentos vanguardistas ganhem ainda mais força: "Toda tendência sempre evoca uma contratendência. É sempre uma resposta. E quanto mais forte é a tendência, mas forte é a resposta".

Ciente de que sua brincadeira pode ter servido para quebrar barreiras, Thum concorda com a opinião da especialista de que o maiô em si não é a tendência. "Ele é uma forma que encontrei para fazer com que as pessoas pensem e entendam que é só uma peça de roupa. Quem disse que homem não pode usar maiô? Por que o estranhamento? Por que as pessoas sofrem algum tipo de homofobia, agressão, só por usar uma roupa tida como feminina e não existe essa regra. É só uma peça de roupa. Uma roupa é uma roupa. Não tem gênero, não tem nada determinado", arremata.

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