'Meu pai fez o que fez à nossa revelia', diz filho de Flávio Migliaccio

Flávio Migliaccio foi encontrado morto na manhã de segunda-feira (4), em seu sítio, em Rio Bonito, no Rio de Janeiro

Ana Mendonça* 05/05/2020 15:03
Reprodução/Tv Globo
(foto: Reprodução/Tv Globo)
Marcelo Migliaccio, filho do ator Flávio Migliaccio, encontrado morto nesta segunda-feira (4), divulgou uma carta aberta sobre o pai. Nas linhas escritas por ele, Marcelo conta que Flávio já não aguentava viver “em um mundo como esse e sentir seu corpo deteriorar” e que o pai “fez o que fez à nossa revelia”. O ator deixou a vida aos 85 anos e tinha apenas um filho. 

Na carta, Marcelo explica que o pai pegou um táxi e foi para o sítio enquanto ele cuidava da mãe, no último domingo (3). Flávio não avisou a família nem se despediu. “Meu pai fez o que fez à nossa revelia. Ele sempre me dizia que não aguentava mais viver num mundo como esse e sentir seu corpo deteriorar-se rápida e irreversivelmente pela idade avançada. Pouco escutava e enxergava. ‘Daqui para frente, só vai piorar’, ele me dizia enquanto eu buscava todos os argumentos possíveis para lhe mostrar que ainda havia muita coisa boa reservada para ele”, conta Marcelo.

O filho do ator também mostrou gratidão pelas palavras de consolo e otimismo. “Eu sabia que o meu pai era muito querido pelo Brasil inteiro. O que eu não fazia ideia era do quanto eu tinha amigos”, conta. 

Durante o texto, ele compartilhou momentos íntimos com o pai. “Meu pai tinha uma inteligência enorme e era difícil demovê-lo de alguma coisa em que acreditasse. Infelizmente, ele agora é para nós só uma imensa saudade e lembranças maravilhosas. Lembranças de alguém que me ensinou o que é amar um ofício. Alguém que me mostrou a magia da criatividade. Me fez ver que a maior prova de amor que se pode dar a uma pessoa é respeitar suas convicções, suas decisões, seu jeito de ser e de não ser.”

Marcelo também citou o fato de os polícias militares terem fotografado e divulgado imagens do corpo de Flávio. “Quanto aos policiais militares que fotografaram com celular a cena mórbida no quarto do sítio e colocaram a imagem em redes sociais, o Estado do Rio de Janeiro responderá judicialmente por ter pessoas assim a representá-lo”, diz. 

A assessoria de imprensa da Secretaria do Estado da Polícia Militar do Rio de Janeiro informou que o caso já está sendo investigado. "O comandante do 35º BPM (Itaboraí) instaurou um procedimento apuratório para analisar o caso", informou.

Flávio Migliaccio foi encontrado morto na manhã de segunda-feira (4) em seu sítio em Rio Bonito, no Rio de Janeiro. De acordo com o boletim de ocorrência, o ator foi encontrado pelo caseiro. Junto com o corpo foi deixada uma carta escrita por ele. 

Leia na íntegra a carta de Marcelo Migliaccio, filho do ator:

 “Ex-colegas de trabalho, das escolas, da faculdade, do meu bairro e muita gente que sequer conheço pessoalmente. Essa é a melhor parte desse capítulo.
Meu pai fez o que fez à nossa revelia. Pegou um táxi e foi para o sítio enquanto eu cuidava da minha mãe no último domingo. Sem nos avisar, sem se despedir. Ele sempre me dizia que não aguentava mais viver num mundo como esse e sentir seu corpo deteriorar-se rápida e irreversivelmente pela idade avançada. Pouco escutava e enxergava. "Daqui para frente só vai piorar", ele me dizia enquanto eu buscava todos os argumentos possíveis para lhe mostrar que ainda havia muita coisa boa reservada para ele. Como o prêmio de melhor ator de televisão de 2019, que incrivelmente ele ganhou aos 84 anos de idade. Ou como ver no cinema o documentário sobre sua vida e sua carreira que estamos preparando para breve.

Mas meu pai tinha uma inteligência enorme e era difícil demovê-lo de alguma coisa em que acreditasse. Infelizmente, ele agora é para nós só uma imensa saudade e lembranças maravilhosas. Lembranças de alguém que me ensinou o que é amar um ofício. Alguém que me mostrou a magia da criatividade. Me fez ver que a maior prova de amor que se pode dar a uma pessoa é respeitar suas convicções, suas decisões, seu jeito de ser e de não ser.

Por isso hoje respeito o ato de extrema coragem que meu pai teve na madrugada de ontem, fazendo o que acreditava ser a única coisa a fazer. Tentei impedir de todas as formas, sofro agora, e sofrerei para sempre, por não ter conseguido, mas entendo sua decisão.

Agradeço de coração a todos que me enviaram mensagens. Fizeram um bem enorme a mim e a ele, onde quer que ele esteja nos esperando.

PS: Quanto aos policiais militares que fotografaram com celular a cena mórbida no quarto do sítio e colocaram a imagem em redes sociais, o estado do Rio de Janeiro responderá judicialmente por ter pessoas assim a representá-lo”.


*Estagiária sob supervisão da editora Liliane Corrêa

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