'Quero continuar a viver no Brasil', diz Chico Buarque a jornal francês

Compositor, que pediu visto de permanência na França, falou ao Le Monde sobre as dificuldades criadas pela cultura do ódio no Brasil

por Nahima Maciel 21/06/2019 17:43
João Wainer/Divulgação
Chico em Paris, onde tem apartamento, durante filmagem do programa '7 Romance' (foto: João Wainer/Divulgação )

Em entrevista ao  jornal francês Le Monde, em edição publicada nesta sexta (21/06), Chico Buarque admite que se sente mais à vontade em Paris, onde está há alguns meses para trabalhar em um novo romance. Instalado em seu apartamento na Île Saint Louis, região nobre da capital francesa, o compositor confessa que tem, na cidade, mais tranquilidade para circular e para escrever.

Chico deu entrada, inclusive, em uma solicitação à administração francesa de um visto de longa duração. No entanto, ele afirma que não quer deixar o Brasil. “A cultura não tem o menor valor aos seus olhos (do novo governo). Mesmo assim, eu quero continuar a viver no Brasil, eu não quero viver longe de meu país”, avisa, ao ser questionado pelo repórter sobre o visto.

Na entrevista, Chico Buarque faz duras críticas ao Brasil e conta que, desde as agressões sofridas em um restaurante no Rio de Janeiro, em 2015, não se sente mais à vontade na cidade. Ele evita, por exemplo, os restaurantes e só vai a três ou quatro estabelecimentos. Também não caminha mais na praia, como costumava fazer, nem pelas ruas do Leblon, bairro no qual tem residência quando não está em Paris.

Chico fez duras críticas ao Brasil durante a entrevista, especialmente em relação à maneira como o governo de Jair Bolsonaro trata a cultura, a educação e a política externa. Ele diz que há uma diferença em relação ao seu exílio durante a ditadura militar. Quando deixou o Brasil em 1969, Chico fugia de um regime violento e empenhado na perseguição de artistas. Hoje, ele afirma, não há perseguição e sim um desprezo. “Hoje os artistas e os atores da cultura no Brasil não são nem bem-vindos nem bem-vistos pelo governo, mas não há perseguições policiais como em 1969.
 
No entanto, as ameaças existem, não necessariamente contra os artistas, mas contra a esquerda em geral, os gays, as minorias e as mulheres”, diz o compositor ao Le Monde. “Uma cultura do ódio se espalhou no Brasil de maneira impressionante. Esse ódio é alimentado pelo novo poder, o presidente, seu entorno, seus filhos, os ministros… Eles desacreditam os artistas, que eles consideram inúteis. A cultura não tem o menor valor para eles.”

O compositor falou ainda sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSoL) e a impunidade que se alastra na resolução do caso, além de comentar a decisão de figuras públicas como Jean Willys e Marcia Tiburi, e do escritor Anderson França, que decidiram deixar o Brasil. “São pessoas que foram diretamente ameaçadas, assim como suas famílias”, disse, antes de apontar a ligação entre a família Bolsonaro e as milícias do Rio de Janeiro.

O PT também foi tema de boa parte da entrevista. “Tenho muitas reservas em relação ao PT: o partido passou por episódios de corrupção, como governos precedentes. Mas, depois da derrota da direita na eleição, houve uma estigmatização inacreditável do PT e isso teve impacto enorme nas pessoas. Foi duro lutar contra isso” explica.

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