Leitura e intepretação do mundo: o que é leitura mesmo?

Semioticista Júlio Pinto identifica padrões e possibilidades de desenvolvimento crítico em meio à avalanche contemporânea de informação. A convite do Pensar, três intelectuais da linguagem debatem a formação da capacidade cognitiva nestes tempos em que o mundo tornou-se um oceano de conteúdos

por Júlio Pinto* 16/02/2018 10:34

Colocado entre duas perspectivas sobre o ler, uma que pensa o fenômeno do ponto de vista de desenvolvimento e de políticas como um todo e outra que generaliza o processo individual para tentar alcançar alguma universalidade, vejo-me convocado a pensar a leitura a partir desses dois polos simultaneamente ou a, pelo menos, tentar uma conexão, um link que seja um terceiro termo capaz de interpretar as duas visadas e fazê-las dialogar.

Vou pedir perdão para começar lembrando Aristóteles. Diz ele que há três camadas em qualquer discurso: uma camada sensório-emocional, o pathos; uma acional, o ethos; e uma lógica, o logos. Todos nós funcionamos numa articulação entre essas três vertentes da consciência do estar-no-mundo, por assim dizer. Impossível dizer que somos apenas lógicos, ou apenas agimos, ou apenas sentimos, mesmo que um slogan famoso nos diga Just do it.

Não há, por isso, racionalidade sem pelo menos uma tintura de sentimento, e vice-versa. Naturalmente, a linguagem articulada se situa no logos, mas todos nós sabemos que, em qualquer fala, há componentes embutidos (entonação, volume, pitch) que denunciam tonalidades emocionais (ironia, apreço, amor, raiva, indiferença, e vai por aí) e toda fala é um ato.

Não é desprezível, também, imaginar que, no princípio do nosso estar no mundo, sejamos criaturas de sensações que, gradualmente, vamos processando para criar padrões lógicos (o conceito de lógica aqui é o mais lato possível, sem referência àquela lógica do cálculo da verdade das proposições) à medida que nos expomos a nossos iguais e ao mundo.

Vamos lembrar a observação trivial de como as crianças aprendem a falar. Existe um evidente comportamento icônico (isto é, mimetismo de ordem afetiva) que a criança exerce bem na sua curiosidade-esponja sobre o mundo. A princípio ela balbucia uma torrente sonora (em óbvia imitação dos adultos) para a alegria de pais e avós. Essa imitatio é a mesma que a faz chamar de au-au um bicho fofinho ou assustador que faz au-au.

A transferência da função-som para a função-nome, subsequentemente usada de modo dêitico com um dedinho apontando para o au-au, serve como elemento de comunicação até que um adulto, a quem ensinaram que o au-au se chama cachorro, corrige a criança – impõe-lhe uma proibição, por assim dizer – e transmite a ela o vocábulo que a ele foi transmitido e a que ele se habituou. Começa aí o império do símbolo – aquele som que não tem nada a ver com o objeto que ele designa, mas que o hábito social destinou a ele. E logo a criança aprende a manipular esses símbolos e a gerar com eles infinitas combinações frasais.

Esse hábito/lei (na minha cabeça são quase sinônimos) é aquilo que, no convívio social, vai criando competências linguageiras. Segue-se, portanto, que o necessário é incentivar essa convivência cotidiana, de forma a expor a criança em desenvolvimento a cada vez mais sintaxes e léxicos, organizações frasais e palavras, experiências de mundo, pessoais ou vicárias.

Se o ambiente social é precário, local em que a linguagem se presta única e instrumentalmente às necessidades imediatas da sobrevivência, é de se esperar que o acervo simbólico seja mais diminuto do que o experimentado por pessoas que têm a boa fortuna de terem sido expostas a mais experiências. Aliás, essa talvez seja uma boa racional para a proposta de Paulo Freire de que o processo de alfabetização se inicie dentro da esfera de experiência imediata do aprendiz. É aí que o elemento pathos será mais eficiente para a aquisição do logos. O processo se lança daí e vai gradualmente sendo ampliado no sentido do mais imediato para o cada vez mais abstrato.

Segue-se que é inevitável a necessidade de se criarem políticas de ampliação das oportunidades de exposição a tipos vários de vivências para essas regiões desprivilegiadas em especial, de modo que a experiência assim acumulada seja incorporada pelos sujeitos. Na verdade, as chamadas regiões desenvolvidas também precisam disso, em virtude do império de Twitters, Facebooks e Instagrams. Somente dessa maneira será possível o estímulo ao pensamento crítico, tão crucial nos dias de hoje, em que as mensagens produzidas por bots, ou web robots, são aceitas e disseminadas pelas redes sociais sem o menor questionamento, criando comunidades em que as fake news se tornam verdades e começam a pautar perigosos comportamentos preconceituosos e radicais.

 

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Doutor em semiótica pela University of North Carolina at Chapel Hill, pós-doutor em teoria da imagem pela Universidade Católica Portuguesa

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