Leitura e interpretação do mundo: o capital simbólico na era da hiperinformação

Professor de Literatura Anelito de Oliveira reflete sobre o desenvolvimento cultural sob uma abordagem política em meio à avalanche contemporânea de informação. A convite do Pensar, três intelectuais da linguagem debatem a formação da capacidade cognitiva nestes tempos em que o mundo tornou-se um oceano de conteúdos

por Anelito de Oliveira 16/02/2018 10:05

O volume de informações disponível nas sociedades urbanas e globalizadas é algo inédito na história da humanidade, com a produção e o armazenamento de dados crescendo exponencialmente a cada dia. Nesta era de hiperinformação – na qual a humanidade ainda está apenas dando os primeiros passos – faz-se necessário refletir sobre como o ser humano lida com a informação. Qual a capacidade das pessoas de processar e interpretar a avalanche de dados que as estimulam incessantemente? O que essa capacidade representa social e economicamente? Quais os fatores que influem no desenvolvimento cognitivo e, portanto, na aptidão para apreender e analisar informações? Qual o papel da leitura nesse contexto? São questões que permitem as mais diversas abordagens e explicações. O Pensar propôs a três pensadores da linguagem uma reflexão a respeito da leitura e seu papel na interpretação do que nos cerca. O debate aqui, obviamente, não pretende esgotar um tema tão vasto, mas apresentar diferentes visões e estimular a discussão. Anelito de Oliveira, professor de literatura e escritor, relaciona desenvolvimento cultural à política. O professor e linguista Pedro Perini-Santos discute as formas de aquisição cognitiva da língua. E, finalmente, o semioticista Júlio Pinto estabelece um diálogo entre as duas abordagens, identificando padrões e possibilidades de desenvolvimento crítico.

O capital simbólico


Anelito de Oliveira*

Em 2017, o Instituto de Política Econômica Aplicada (Ipea) desenvolveu um projeto intitulado “Desafios da nação” com o objetivo  de fundamentar políticas públicas do governo federal capazes de dobrar a renda per capita do brasileiro em 20 anos. Tais desafios, que já não podem ser adiados, consistem em equacionar o desenvolvimento socioeconômico, superando a tradição de privilégio de uma parte do país em detrimento da outra no que diz respeito a investimentos, produzindo, em longo prazo, uma totalidade nacional equânime, tanto quanto possível equilibrada em termos de capitais, não apenas de capital dinheiro.

Em face desta premência, logo se impõe a questão intrigante, de natureza metodológica: como fazer isso? Falar em desenvolvimento hoje é, evidentemente, tocar num vespeiro, despertando aporias de várias ordens, a começar pela ambiental. Claro que não se pode desejar sequer desenvolver o interior, o grande sertão brasileiro (de que o sertão norte-mineiro é parte extraordinária), de modo a convertê-lo numa São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e mesmo Salvador ou Recife, com todas as mazelas das caóticas regiões metropolitanas.

Pode-se admitir dúvida, hesitação, em relação a quais estratégias de desenvolvimento adotar, mas não em relação à necessidade de um desenvolvimento sustentável ambiental em sentido expandido: social, humano, cultural. Sabemos hoje, depois de quase sete décadas de racionalização do tema, que desenvolvimento não é sinônimo de crescimento, bem como que desenvolvimento não se restringe à esfera econômica.

O indiano Armatya Sen, no seu Desenvolvimento como liberdade, trouxe contribuição significativa a este debate ao vincular desenvolvimento e liberdade, atribuindo ao humano o sentido mesmo da ação desenvolvimentista e aos pobres, sujeitos privados de bens materiais e simbólicos, o protagonismo no processo de produção de desenvolvimento. Assim pensado, o desenvolvimento passa pela educação escolar, pelo conhecimento metódico, passa, necessariamente, pela cultura em sentido restrito, “ilustrado”, implicando racionalização da relação entre sujeito e objeto, superação de todo um estado natural – e injusto – de coisas.

Cultura é referência de desenvolvimento, neste caso, à medida que implica consciência, capacidade crítica e racionalidade. Obviamente, os sujeitos sociais não logram construir sozinhos todo esse escopo cognitivo e, no caso dos pobres, dependem da participação do Estado, de organizações não governamentais e da iniciativa privada.

Tal construção pressupõe não apenas a ação de se relacionar com o outro, mas a qualidade das relações sociais, das trocas simbólicas em geral e das trocas linguísticas em especial, nos termos explorados por Pierre Bourdieu nos seus A economia das trocas simbólicas e A economia das trocas linguísticas.

HERANÇA No Brasil, “escola”, “conhecimento” e “cultura” são índices de questões problemáticas diretamente relacionadas à subalternização de grande parte da população, especialmente de negros, índios e pobres que, privados de acesso ao mundo letrado, impedidos de exercer o poder que a modernidade ocidental, sobretudo, confere à leitura e à escrita, realmente não “fala”, não decide o presente e o futuro da nação, assim como seus ascendentes escravizados também não decidiram o passado da nação.

Em relação à leitura, questão comumente operada nos âmbitos educacional e cultural, precisamos superar, por exemplo, uma explicação bastante previsível e rasteira. A ainda recente pesquisa “Retratos da leitura no Brasil” (www.prolivro.org.br), encomendada ao Ibope pelo Instituto Pró-Livro e divulgada em 2016, por exemplo, atribui os ainda baixíssimos índices de leitura de livros ao fato de os brasileiros terem herdado a cultura oral dos povos indígenas e africanos, o que evidenciaria, no âmbito do conhecimento, um uso abusivo do apego dos brasileiros à televisão e à música pop.

Nesse tipo de explicação está implícito um dado ideológico que mascara a realidade social, impedindo que se perceba o peso de fatores diversos – educacionais, econômicos, políticos, étnicos etc – na prática de leitura. Para que tal distorção seja revertida, é necessária uma pesquisa qualitativa sobre a leitura, baseada em entrevistas com sujeitos sociais subalternizados e consequente racionalização de dados objetivos e também subjetivos constitutivos da experiência histórica desses sujeitos.

No epicentro do grande sertão rosiano, conforme explorado por estudos como o Grandesertão.br, de Willi Bolle, e Lembranças do Brasil, de Heloísa Starling, a nação exibe seu paroxismo, desafiando-nos a compreendê-lo para operacionalizá-lo adequadamente. Podemos entender que “desenvolvimento é cultura” à medida que aquilo que constitui o habitus – conforme o conceito de Pierre Bourdieu em O poder simbólico –, o capital que se cultiva, tem valor de troca – portanto, valor de mercado – e contribui significativamente para melhorar as condições objetivas de vida dos sujeitos sociais e das sociedades, por conseguinte.

Recordando a gênese do conceito de habitus, Bourdieu escreve algo muito significativo para a compreensão da leitura como capital: “Sendo minhas posições próximas das de Chomsky, que elaborava, por então, e quase contra os mesmos adversários, a noção de generative grammar (gramática gerativa), eu desejava pôr em evidência as capacidades ‘criadoras’, ativas, inventivas, do habitus e do agente (que a palavra hábito não diz), embora chamando a atenção para a ideia de que este poder gerador não é o de um espírito universal, de uma natureza ou de uma razão humana, como em Chomsky – o habitus, como indica a palavra, é um conhecimento adquirido e também um haver, um capital”.

Habilidade O cultivo do que chamamos de “leitura literária”, neste sentido, é exemplo notável de configuração da cultura como desenvolvimento social que tem no reconhecimento do “direito à literatura”, postulado por Antonio Candido em texto hoje constante dos seus Vários escritos, seu impulso imprescindível. Trata-se de toda uma cadeia produtiva que começa com algumas pessoas e se dissemina por grupos sociais expressivos, estimulando a economia da cultura através de livrarias, editoras, escolas, cursos, feiras literárias e eventos diversos com suas feições cada vez mais interativas, mesclando cultura, turismo e gastronomia, por exemplo.

“Leitura literária” é conceito que expande a noção de leitura, vinculada à alfabetização, a partir da noção de letramento, que não se restringe apenas ao saber ler funcional, tampouco ao saber ler textos verbais. A leitura literária, que consiste em habilidade para se distinguir, ler e interpretar textos de criação literária apresentados em suportes diversos, a começar pelos livros, revistas e jornais impressos tradicionais, passando por ambientes virtuais – sites, blogs, Facebook, Twitter, WhatsApp , Instagram –, televisão, cinema, palco teatral, e chegando a placas de outdoors, displays eletrônicos, bolsa, vestuário, muro, enfim, os muitos lugares em que aparece o “estranhamento” da linguagem que particulariza a literatura entre os demais discursos.

Ainda de acordo com dados da pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”, a prática de leitura no país aumentou quantitativamente no período de 2011 a 2015, um quadro visivelmente mais positivo que o das décadas de 1980 e 1990, bem como da primeira década deste milênio. O aprofundamento desse tipo de pesquisa sobre leitura, de caráter quantitativo, em termos qualitativos exige recortes, obviamente, que possam ensejar o máximo de precisão em relação a questões de ordem geográfica, de classe, de escolaridade, de raça, de etnia e de gênero. Um conhecimento fundamental para a concepção e implementação de políticas públicas de empoderamento dos pobres através da leitura.

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Pós-doutor em teoria literária pela Unicamp, doutor em literatura brasileira pela USP e professor na Unimontes, autor, entre outros, de A aurora das dobras (ensaio)

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