Entrevista: candidatos à Câmara de Fomento à Cultura de BH expõem suas propostas

Aspirantes ao órgão recém-criado pela Secretaria de Cultura dizem quais critérios usarão para selecionar projetos que concorrem à Lei Municipal de Incentivo

por Ana Clara Brant 14/02/2018 07:00

O Estado de Minas publica a seguir entrevistas com mais quatro candidatos a integrar a Câmara de Fomento à Cultura Municipal. Recém-criado pela Secretaria Municipal de Cultural, o órgão será o responsável pela seleção dos projetos viabilizados pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura. A câmara terá 12 representantes da sociedade civil e 12 do poder público. A votação on-line para a escolha dos representantes do setor cultural está aberta e vai até o dia 21. Para votar, basta acessar o endereço http://mapaculturalbh.pbh.gov.br/projeto/134/. O eleitor deve fazer um cadastro. Todos os candidatos receberam as mesmas perguntas por e-mail. Ontem, foram publicadas as entrevistas de André da Silva Cunha (música e patrimônio), Magno Córdova (música), José Alencar Mayrink (literatura) e Gustavo Abreu Reis (música). A edição de hoje traz as ideias de Tuca Pinheiro e Mauro Fernandes (artes cênicas) e de Lídia Mello e Nanda Rossi (audiovisual).


Mauro Fernandes  
(arte cênicas)
Dietor artístico, coreógrafo,
dançarino E professor

Que critérios acredita que devam ser utilizados na avaliação dos projetos?
Já existem vários critérios delimitados pela própria Fundação (Municipal de Cultura) para que as análises sejam o mais transparentes possíveis. Para além disso, faço também uma análise qualitativa mais aprofundada e também de quantificação da abrangência do projeto para o público. Como se trata de dinheiro público, acredito que tenhamos que ter essa clareza de levar os projetos de qualidade para o maior número de pessoas possível.

Você já teve projetos realizados com recursos da lei municipal? Quais e quando?
Não. Esse tempo todo tentando sem sucesso foi mais um dos motivos pelos quais me candidatei a primeira vez. Há muita coisa nebulosa no que diz respeito às perspectivas da FMC frente à lei municipal.

Por que você se julga capacitado para exercer a função?
Minha capacitação para exercer a função se confirma em minhas lutas e militâncias político-culturais, que se refletem em minhas propostas como conselheiro, tanto do Conselho Municipal de Política Cultural quanto na Comissão Municipal de Incentivo à Cultura. O objetivo é sempre dar transparência e publicidade às ações da Fundação, uma vez que a mesma não realiza esta ação com um mínimo de eficiência. O outro aspecto importante é a valorização de projetos de qualidade comprovada e comprovável e o não apadrinhamento sujo de quem quer que seja. O dinheiro público é sagrado.

A câmara será paritária. Que diferenças um representante da sociedade civil pode ter na avaliação de um projeto em relação a um representante do poder público?
São diversas as diferenças, mas o fundamental é que o representante da sociedade civil não tem o “rabo preso” com quem quer que seja e, além disso, uma real atuação de campo artístico nas ruas da cidade e, portanto, uma vivência mais real, além de uma visão mais correta sobre as ações da cidade que devem ser agraciadas com a verba da lei. A politicagem não acompanha o representante civil como acompanha, infelizmente, o representante do poder público. Tenho também, como conselheiro da sociedade civil em artes cênicas, alguns pontos-problema sobre essa afamada câmara que substituiu a nossa querida Fundação: um secretário que não sabe nada da cultura da cidade, cancelamento da eleição desta câmara – que já havia sido realizada e foi cancelada –,  entre várias outras estranhezas praticadas por esta gestão.

Tuca Pinheiro (artes cênicas)
Bailarino com formação em dança
clássica e contemporânea

Que critérios acredita que devam ser utilizados na avaliação dos projetos?
Primeiramente, é fundamental a coerência de um projeto que esteja dialogando com o próprio edital e que contemple, através de seu escopo técnico e artístico, as políticas públicas para a cultura da cidade. Independentemente das linguagens artísticas, da qualidade e excelência dos projetos, é preciso estar atento à capacidade multiplicadora dos projetos como um produto que atenda às necessidades da sociedade civil dentro de eixos de formação, informação, diversidade e pluralidade. Belo Horizonte é uma cidade que abriga espaços e públicos diversos e múltiplos. A cidade é o alvo. É preciso repensar a produção artística como um dispositivo não corporativista que dialogue com a cidade e toda a sociedade que a compõe.

Você já teve projetos realizados com os recursos da lei municipal? Quais e quando?
Como proponente, nunca tive um projeto aprovado pela lei municipal. Mas já participei de projetos que foram beneficiados pela lei municipal como intérprete, diretor coreográfico ou colaborador dramatúrgico.
Por que você se julga capacitado para exercer a função?
Não é a primeira vez que me candidato a essa função. Eu já fiz parte da CMIC no período 2012/2013, que era a antiga Comissão Municipal de Incentivo à Cultura, instância que era responsável pela avaliação dos projetos da lei municipal. Desde 2016, faço parte do Fórum de Dança de Belo Horizonte, que é uma iniciativa da sociedade civil, do setor da dança. O fórum vem discutindo e propondo ações e diálogos com o poder público, pensando nas demandas da dança e culturais da cidade. Através dessa experiência com o fórum, conseguimos levantar diagnósticos, ainda em estágio de apreciação, mas que nos possibilitaram um mapeamento da dança e suas demandas dentro de um pensamento que envolva a cidade e a sociedade civil. Ao mesmo tempo, levando esses diagnósticos ao poder público através de reuniões com os órgãos competentes. Desde 2017, faço parte do grupo executivo, como agente público sem remuneração, que está elaborando o Plano Municipal da Dança. E sempre que possível estou presente nas reuniões mensais do Conselho Municipal de Cultura de Belo Horizonte. Toda essa minha participação, engajamento e atuação me fazem querer avançar e participar da Câmara de Fomento.

A câmara será paritária. Que diferenças um representante da sociedade civil pode ter na avaliação de um projeto em relação a um representante do poder público?

É preciso lembrar que os representantes do poder público são os nossos representantes oficiais dentro da instituição pública e estão ali para ouvir as demandas da sociedade civil, para ouvir as nossas demandas. Essa divisão de poder público e sociedade civil é antes de tudo uma necessidade jurídica para os encaminhamentos. Mas é preciso que essa divisão não potencialize diferenças, pois todos nós somos sociedade civil com competências específicas. A presença desse representante eleito pela sociedade civil é antes de tudo a continuidade do exercício da cidadania. É também a possibilidade de abrir espaços para a execução das micropolíticas. É inegável que, pensando nessas competências específicas, esse representante da sociedade civil, poderá contribuir como esse cidadão que está imerso dentro do pensamento da cidade. E mais ainda quando esse representante seja um legítimo representante do setor que está representando e que tenha voz não somente como um avaliador de projetos, mas também como um cidadão que sabe ouvir a cidade, sua pluralidade e sua diversidade, preservando e lutando pelos seus direitos constitucionais, sem qualquer tipo de discriminação.

Lídia Mello (audiovisual)
Doutora em Artes/Cinema pela Escola de Belas Artes da UFMG


Que critérios acredita que devam ser utilizados na avaliação dos projetos?
Primeiramente, os critérios definidos pelo edital da LMIC. E como já elaborei projetos culturais, entendo a necessidade de avaliar se os projetos estão coerentes, o conhecimento e experiência das equipes, as etapas e prazos de realização, se o orçamento é compatível, qual o alcance e o público a ser beneficiado, os impactos culturais, se os projetos promovem a democratização à cultura e avaliar a qualidade técnica e a viabilidade de execução dos projetos inscritos. Somado a isso, o parecerista deve ser ético e responsável, não favorecer grupos específicos e precisa levar em conta a diversidade cultural e temática dos diferentes projetos provenientes das regionais de Belo Horizonte.

Você já teve projetos realizados com  recursos da lei municipal?
Não.

Por que você se julga capacitada para exercer a função?
Tenho formação no campo audiovisual, doutorado em cinema, mestrado e especialização também nessa área (a graduação fiz em comunicação, época em que comecei a me interessar pelo cinema). Além disso, fiz e faço com frequência cursos complementares relacionados ao setor. Minha experiência profissional no audiovisual é de mais de 10 anos e em diferentes funções. E tive um enorme aprendizado enquanto conselheira titular do audiovisual no Comuc (órgão que é paritário), durante os anos de 2014 e 2015, colaborando na construção de políticas públicas para o setor, propondo soluções, recomendações e moções etc. Contribuí em debates, reuniões e outras ações, e em grupos de trabalho da LMIC, do Plano Municipal de Cultura de BH, em fóruns setoriais (do audiovisual) e nas Conferências de Cultura. Nessa época, visitei todos os equipamentos culturais da FMC e tive a oportunidade de conhecer as atividades das regionais e suas demandas. Enfim, de uma forma ou outra, tenho sempre trabalhado no setor audiovisual. Creio, portanto, que minha trajetória possa contribuir de modo positivo na função de parecerista.

A câmara será paritária. Que diferenças um representante da sociedade civil pode ter na avaliação de um projeto em relação a um representante do poder público?
É importante sim, ser paritária, ter as duas representações. E possibilitar a participação de um representante da sociedade civil na Câmara de Fomento é uma forma de estabelecer um diálogo com as diferentes categorias culturais e artísticas. Isso fortalece o órgão e é uma oportunidade de participação e controle social, pois as decisões são tomadas pelos dois lados e não apenas pelo poder público. No meu entender, os profissionais da sociedade civil e do poder público são singularidades múltiplas. Cada um tem formação, conhecimento, habilidades e experiências que se diferem e se somam. O representante da sociedade civil traz consigo especificidades, vivências e prática do seu setor de atuação e do mercado. Enquanto o representante do poder público talvez esteja mais próximo do fazer e gerir as políticas públicas e promover o acesso e a democratização do fomento à cultura. Há uma troca de saber entre eles, e o objetivo de ambos na função de parecerista é comum, ou seja, avaliar e aprovar os projetos com responsabilidade. Penso ainda que o trabalho dos representantes, dos membros da Câmara de Fomento, deve levar em conta as diretrizes da LMIC, muitas delas constituídas de modo participativo no Comuc, nas Conferências de Cultura, no processo de criação do Plano Municipal de Cultura para Belo Horizonte, e em todos eles participei quando era conselheira do audiovisual no Comuc. Tudo isso, a meu ver, é um processo cooperativo entre o setor público e a sociedade civil.

Nanda Rossi
(audiovisual)
Estudante de Cinema e Audiovisual
na PUC Minas e estagiária no Centro de Crítica da Mídia na própria PUC

Que critérios acredita que devam ser utilizados na avaliação dos projetos?
Para falar em critérios, posso começar pela boa construção em relação à estrutura de um projeto e do que é formalmente exigido, mas também pessoalmente acredito em projetos que valorizam o audiovisual, que busquem dar voz aos grupos e pessoas historicamente silenciados, que tratem com respeito seus personagens e objetos.

Você já teve projetos realizados com recursos da lei municipal? Quais e quando?

Não, nenhum.

Por que você se julga capacitada para exercer a função?
Como estudante, procuro compreender e viver o cinema/audiovisual nacional contemporâneo, entendendo os movimentos e possíveis caminhos que estamos trilhando. Sou militante LGBT e feminista, em constante contato com a cidade e seus movimentos. Acredito fortemente na junção desses elementos com a minha carreira futura no audiovisual. Acredito que essa função pode ser um excelente caminho para se escolher e que pode me trazer esse encontro de interesses e capacidades que possuo.

A câmara será paritária. Que diferenças um representante da sociedade civil pode ter na avaliação de um projeto em relação a um representante do poder público?
O aumento da participação popular na esfera pública é requisito fundamental. Uma representação vinda da sociedade civil pode contribuir com olhares específicos sobre a cultura. Falando de audiovisual, acredito que a representação que posso fazer esteja em construção e diálogo contínuos com as urgências do audiovisual contemporâneo, buscando ser uma interlocução que coloque sempre a arte em pauta, não deixando que ela perca protagonismo no ritmo institucional, que muitas vezes nos toma todas as atenções, e que não nos esqueçamos dela e de suas capacidades transformadoras.

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