Enquete do EM elege Machado de Assis, Dalton Trevisan e 'Grande sertão: veredas' como tríade da literatura brasileira

Relação feita a partir da escolha de especialistas identifica os maiores escritores brasileiros e consagra romance de Guimarães Rosa como o grande livro de nossa literatura

por Carlos Herculano Lopes 14/04/2013 06:30

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.

Quinho/EM/D.A Press
Resultado da enquete feita junto a especialistas relaciona nomes consagrados e obras indiscutíveis ao lado de autores menos incensados e suas publicações (foto: Quinho/EM/D.A Press)
Ao longo de três semanas, com o objetivo de fazer um levantamento sobre o que de melhor a literatura brasileira produziu e tem produzido ao longo da história, nos campos da poesia e da ficção, o Estado de Minas entrou em contato com 50 intelectuais de vários estados e instituições ligadas à literatura, como universidades, revistas especializadas, cadernos de cultura de grandes jornais, centros de pesquisa e projetos literários e de incentivo à leitura. A eles foi pedido que indicassem, de acordo com suas preferências: a) os cinco melhores escritores vivos da literatura brasileira; b) os cinco melhores escritores da literatura brasileira de todos os tempos; c) os cinco melhores livros da literatura brasileira, ficção e poesia, de todos os tempos.

Como critério, optou-se por evitar o convite a escritores, candidatos naturais, para participar da pesquisa. Em alguns casos, como no campo das letras muitas vezes os ofícios se sobrepõem, alguns ensaístas, professores e jornalistas que participaram da escolha são também autores de obras de ficção e poesia, mas sempre com nítida primazia da atividade crítica ou de pesquisa sobre a da literatura de invenção. 

 

• Enquete: quem é o maior escritor brasileiro de todos os tempos?

 

O resultado, como todas as listas da mesma natureza, por um lado consagra o cânone, por outro revela interessantes surpresas, que mostram a dinâmica que perpassa o setor cultural. Mesmo as mais consagradas escolhas carregam a marca do seu tempo. Além disso, o resultado, como se vai conferir nesta edição, acaba por constituir um repertório variado, que vale por um projeto de leitura para quem busca conhecer a literatura brasileira. 
 
 
Ao analisar os resultados da enquete, Letícia Malard, professora emérita de literatura da UFMG, aponta para três tendências. A primeira seria a de dar prioridade à prosa, uma vez que, dentre os cinco melhores escritores vivos, consta um poeta apenas, o maranhense Ferreira Gullar. A segunda tendência apontada pela especialista foi a de os jurados prestigiarem, nos primeiros cinco lugares, autores vivos muito idosos: o mais novo, o amazonense Milton Hatoum, tem 60 anos, os outros estão com mais de 80. E a terceira observação apontada por ela diz respeito ao fato de parte dos jurados não incluírem escritores vivos nem livros deles entre os melhores de todos os tempos, apesar da grande vitalidade e de nomes de primeira categoria na literatura brasileira atual. 
 
 
Para o professor de literatura, romancista e crítico literário Silviano Santiago, que não participou da pesquisa mas teve seu nome citado entre os melhores da literatura brasileira contemporânea, não há como questionar esse tipo de lista, como não se questiona, no regime democrático, a vitória de político por sufrágio universal. “Poderia dizer, no entanto, que talvez tenha faltado paixão amorosa para colocar entre os melhores da literatura brasileira de todos os tempos nomes com o Mário e Oswald de Andrade, ao lado de José de Alencar. Talvez tivesse sido melhor substituir um segundo Graciliano, de Vidas secas, pelo comovente poema dramático 'Morte e vida severina', de João Cabral de Melo Neto”, diz. 
 
Ainda de acordo com Santiago, talvez, se lembrado “o fervor à sustança clássica no pós-modernismo”, Autran Dourado tivesse sido eleito, e é provável que também tenha faltado “a grita da arraia-miúda nacional” para conduzir Lima Barreto ou Cruz e Sousa ao pódio. “Talvez tenha pesado preconceito de gênero, para não se levar em conta um João do Rio ou Hilda Hilst, entre outros. A unaminidade pensa a literatura de modo inconsciente, simpático e feliz”, avalia.

Bruxo e vampiro
Os escolhidos pela maioria de votos nas três categorias – melhor escritor brasileiro, melhor livro de todos os tempos e melhor escritor brasileiro vivo – consagram respectivamente Machado de Assis; 'Grande sertão: veredas', de Guimarães Rosa; e Dalton Trevisan. É um conjunto aparentemente heterogêneo, que vai de um escritor elegantemente clássico a um autor que se caracteriza pela secura extrema, passando pela obra mítica e barroca do escritor mineiro. De um século ao outro, não é exagero dizer que a centralidade da linguagem em Machado prenuncia o modernismo de Rosa.
 
Há um fio que foi puxado pelo próprio Dalton ao receber, no ano passado, o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras. O Vampiro de Curitiba escreveu em carta à direção da casa, referindo-se a Machado de Assis: “Ele nos incitou, o grande bruxo, no prazer secreto da leitura”. Rosa, de certa forma, foi um testemunho silencioso nessa conversa entre o vampiro e o bruxo. Conhecedor das manhas do diabo, ele sabia que o sentido não estava no passado nem se esgotaria no futuro. Na literatura, como na vida, o que há é travessia.

Melhores livros da literatura brasileira
l 'Grande sertão: veredas'
Guimarães Rosa, 1956
l 'Memórias póstumas de Brás Cubas'
Machado de Assis, 1880
l 'Dom Casmurro'
Machado de Assis, 1899
l 'Vidas secas'
Graciliano Ramos, 1938
l 'São Bernardo'
Graciliano Ramos, 1934

Melhores escritores brasileiros de todos os tempos

l Machado de Assis (1839-1908)
l Guimarães Rosa (1908-1967)
l Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
l Graciliano Ramos (1892-1953)
l Clarice Lispector (1920-1977)

Melhores escritores brasileiros vivos

l Dalton Trevisan (1925)
l Ferreira Gullar (1930)
l Lygia Fagundes Telles (1923)
l Milton Hatoum (1952)
l Rubem Fonseca (1925)

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE E-MAIS