Rodrigo Lombardi vive empregado de petroleira em 'O olho e a faca'

Longa de Paulo Sacramento explora a realidade da vida de um funcionário que sobe na carreira enquanto sua vida familiar entra em colapso

por Pedro Galvão 27/06/2019 08:00
Califórnia Filmes / Divulgação
(foto: Califórnia Filmes / Divulgação)

“Quando faço um filme, procuro fazê-lo sobre alguma coisa que eu conheça bem ou então algo que eu tenha muita vontade de conhecer.” Assim como em O prisioneiro da grade de ferro (2003), o diretor Paulo Sacramento optou pela segunda opção quando pensou em O olho e a faca, que estreia nesta quinta-feira (27), em Belo Horizonte. Se no primeiro longa ele usou o formato documental para imergir no universo carcerário do Carandiru, neste ele lançou mão de um drama ficcional para explorar a realidade de uma plataforma de petróleo em alto-mar, numa trama cujo enfoque principal é a profundidade da mente humana.

“Via vídeos institucionais da Petrobras na TV e pensava como não sabemos nada sobre aquilo. É vendida uma ideia de tecnologia, superação, riqueza, mas quem é que trabalha ali?”, diz o diretor, citando como surgiu sua ideia. Embora algo semelhante tenha sido visto na série Ilha de ferro (2018, Globo), Sacramento começou seu roteiro ainda em 2006. As dificuldades que encontrou, ele diz, foram ainda maiores que as que teve que superar para fazer o filme ambientado no então maior presídio da América Latina. A começar pela crise institucional que atingiu a petroleira, que era a principal patrocinadora do cinema nacional, ocasionando atraso nas filmagens e na escolha da locação, que, por fim, foi na Bacia de Campos, em uma estrutura da PetroRio.

Para as gravações, toda a equipe passou 14 dias (duração de um “turno” dos trabalhadores) na plataforma e foi submetida a um treinamento de segurança de uma semana. Porém, a complexidade do local não interessava apenas como cenário para a história do protagonista Roberto (Rodrigo Lombardi). Sacramento recorre ao ambiente como fonte dramatúrgica para contar a história de um funcionário que convive, ao mesmo tempo, com o êxito corporativo e a ruína de sua vida pessoal e familiar.

“É um lugar muito rico. Fotografia incrível, tudo muito vistoso, mas me traz também símbolos que têm a ver com esse personagem. Primeiro, a ideia de erguer no oceano um prédio de ferro e arrancar a riqueza submersa. Depois, o racionalismo, que é a base de tudo numa plataforma. Tudo lá é rigorosamente matemático, procedimentos muito metódicos, setas no chão, horários para tudo, normas rígidas de segurança e, mesmo assim, erros acontecem. O personagem é isso. Ele planeja tudo, é muito pragmático, mas apenas isso não é suficiente, e seu lado humano falha”, explica o diretor.

CRISE 

Seguindo a dicotomia que o título sugere, a vida de Roberto se divide entre o mar, onde ganha o cargo diretivo e perde a amizade de alguns colegas, e a terra, onde sua estrutura familiar estável e consolidada entra em colapso. Boa parte do longa se passa na plataforma, detalhando a rotina e as relações de trabalho. Porém, tudo isso se torna menos relevante diante do que ocorre fora dali. Seu pai adoece gravemente, seu filho mais velho se torna um adolescente-problema e a distância da esposa (Maria Luisa Mendonça) aumenta não só pelos dias na plataforma, mas ainda por um caso extraconjugal. A amante de Roberto é interpretada por Débora Nascimento, que pouco aparece – apenas em uma cena de sexo e outra ainda mais breve. Na verdade, todas as pessoas com quem ele tem algum relacionamento afetivo não aparecem mais que um par de vezes.

O diretor afirma que a escolha de dar pouca relevância aos personagens envolvidos nos conflitos do protagonista é parte de uma estrutura simbólica “mais preocupada com o fundo do que com o palco”. “O filme é tão recheado de símbolos que prefiro deixar para cada um entender como quiser. A plataforma está na superfície, mas mergulhando é que se encontram os problemas. Tem várias coisas sutis que propõem a montagem de um quebra-cabeças. Muita gente não entende e se preocupa mais com a superfície. As pessoas me perguntam por que eu não contei mais sobre a mãe, a amante, mas esses são apenas elementos com os quais um personagem solitário não consegue lidar afetivamente. É uma característica dele”, argumenta Sacramento, que define a trama como “a história de um cara que perde a capacidade de enxergar e compreender o que está acontecendo e, inclusive, de agir”.

Nessa perspectiva, construída ainda com momentos oníricos e delirantes do protagonista e um diálogo fantasioso na única participação do personagem de Caco Ciocler (interpreta o chefe da plataforma substituído por Roberto), o diretor vê uma ligação do filme com o contexto político atual do Brasil. “Demorou muito a ficar pronto. Estou até um pouco em crise em relação ao tempo que o cinema leva para ser feito. O mundo dá mil voltas. Por isso é um filme um pouco fora de moda, por não tratar de lutas identitárias urgentes hoje. Mas essas perdas do personagem, que ele não percebe, talvez estejamos vivendo isso. Uma sociedade anestesiada, inerte, que não enxerga as coisas e que, quando se dá conta, já é tarde mais. Vejo isso acontecer com todas essas perdas civilizatórias recentes”, afirma Sacramento, que incluiu na montagem uma homenagem ao cineasta Carlos Reichenbach (1945-2012), com a cena de Filme demência (1986) em que se diz “o homem progride porque é desgraçado”.



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