Distribuidoras enfrentam desafios para difundir cinema nacional

Empresas entram no mercado com o objetivo de fazer com que filmes independentes e documentários sejam lançados em mais salas do país e conquistem um público maior

por Ana Clara Brant 12/07/2018 08:00
Arábia, dos diretores mineiros Affonso Uchôa e João Dumans, é considerado um dos melhores filmes da recente safra do cinema brasileiro. O longa, que aborda as precárias condições de vida do trabalhador, fez uma carreira de destaque em festivais dentro e fora do Brasil, depois de vencer a 50ª edição do Festival de Brasília, em outubro de 2017. Em abril deste ano, ele finalmente chegou ao grande público, tendo estreado em 40 salas (em diversas cidades do país).

O mérito de o longa ter sido exibido não apenas em Belo Horizonte, mas também no Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Palmas, Rio Branco e Manaus, entre outras, é das distribuidoras Pique-Bandeira, do Espírito Santo, e da novata Embaúba Filmes, de Belo Horizonte, comandada por Daniel Queiroz. A cadeia cinematográfica  se assenta no tripé produção-distribuição-exibição. Cabe aos distribuidores tentar fazer os filmes chegarem ao público, ou seja, ao maior número de salas possível.

Formado em administração e desde 2005 atuando na área de programação de cinema, Daniel Queiroz decidiu enveredar por novos caminhos. “Além de (a distribuição) ser uma área que me interessa e próxima da programação, vi uma carência no mercado, sobretudo das empresas que distribuem filmes com conteúdo brasileiro, mais autoral e independente. Comecei prestando serviço como distribuidor freelancer para o Arábia no ano passado, quando ele participou de vários festivais. Neste ano, formalizei a empresa. É muito raro você encontrar um filme muito bom do ponto de vista cinematográfico e que ainda tenha essa comunicação grande com o público. É o sonho de qualquer distribuidor”, afirma.

O proprietário da Embaúba atribui o surgimento recente de diversas distribuidoras de pequeno porte à demanda de mercado desse perfil de filmes e observa que, em muitos casos, a própria produtora dos títulos realiza sua distribuição. “Nosso grande desafio é fazer com que as produções circulem e cheguem ao público. No caso dos filmes com que trabalho, tem ainda a limitação do circuito exibidor. As salas de cinema estão muito voltadas para os blockbusters, para o circuito comercial”, lamenta.

Essa é também a queixa de Francesca Azzi, da Zeta Filmes, com sede na capital mineira. Francesca atua há 20 anos como produtora cultural e há cinco como distribuidora. Para ela, o grande nó da cadeia cinematográfica no Brasil não está na distribuição, mas na exibição. “O número de salas aumenta, mas são aquelas de shopping, voltadas para os filmes comerciais, pasteurizados, não para os chamados filmes de arte, de conteúdo. Cinema de rua praticamente acabou. Em BH, só temos o Belas Artes com esse perfil e uma vez ou outra o Ponteio exibe esse tipo de produção. As grandes redes de cinema querem manter o público delas”, analisa.

Especializada na distribuição de títulos estrangeiros, a Zeta quer investir na produção nacional, agenciando longas brasileiros no exterior. “Apesar de todas as dificuldades, é um trabalho muito interessante, diverso e que venho batalhando para que valha a pena. O distribuidor também tem um papel de curador, porque a gente assiste a dezenas de longas e curtas e aí seleciona qual distribuir. Temos uma visão ampla do mercado, do que está acontecendo, das tendências. É bacana.”

Foi por constatar um aumento da produção audiovisual nacional e uma demanda por distribuição no Brasil e no exterior que Ruben Feffer, Flavia Prats e Sabrina Nudeliman criaram em 2005 a Elo Company Distribuição Nacional, em São Paulo. Em 2007, decidiram investir em um filão promissor para boa parte das distribuidoras, as plataformas de vídeo sob demanda (VOD, segundo a sigla em inglês). “Começamos com outras mídias (TV, VOD, empresas aéreas) tanto no Brasil quanto no mundo. Somos responsáveis por todas as vendas de O menino e o mundo (Alê Abreu) e Espaço além: Marina Abramovic e o Brasil (Marco Del Fiol). Só neste ano tivemos quatro vendas para vídeo sob demanda na China, por exemplo”, diz Sabrina Nudeliman, CEO e sócia da Elo Company.     

Ela defende que o grande desafio do setor é a formação de público e os novos modelos de negócio e diz que, apesar dos pesares, esse é um mercado em crescimento. “Espero que com as novas políticas haja oportunidade para novos players. Se a gente for analisar, o cenário atual de distribuição de filmes no cinema é extremamente concentrado. Um único player tem mais de 95% de market share (grau de participação de uma empresa no mercado). É uma situação de monopólio. Mas é uma área que atrai por sua diversidade de assuntos e narrativas”, diz.

Daniel Queiroz também enxergou nas plataformas sob demanda uma grande oportunidade. “Temos que pensar em todas as possibilidades de circulação, ainda mais que o público de cinema está diminuindo. Desde o momento inicial, que são as mostras e festivais que não dão  grande retorno financeiro, mas uma visibilidade boa, depois passando pelas salas de exibição e pelo vídeo sob demanda. No nosso site (embaubafilmes.com.br), aliás, já é possível alugar Arábia e pretendo disponibilizar não só os filmes que distribuo. A oferta será maior”, comenta.

MOBILIZAÇÃO SOCIAL Com o objetivo de fazer com que as produções audiovisuais brasileiras extrapolem a tela e catalisem diálogos, debates e ações socioculturais, Carol Misorelli e Lívia Almendary criaram, em 2013, a Taturana. A empresa teve origem no desenvolvimento de uma campanha de mobilização para o documentário Elena, de Petra Costa. “A partir desse trabalho e de outros subsequentes, também de mobilização de público e impacto, percebemos uma lacuna no mercado audiovisual: muitas produções brasileiras com temas sociais relevantes, principalmente documentários, enfrentavam grandes desafios de circulação”, explica Lívia.

Até 2017, a empresa atuou exclusivamente com mobilização e impacto em circuitos não comerciais, além de ter consolidado uma rede de exibidores na plataforma on-line (www.taturanamobi.com.br) – uma interface de organização de exibições coletivas por todo o país. Carol Miroselli acredita que os números do cinema brasileiro são positivos de forma geral, com mais produções, mais salas de cinema e mais público nos últimos anos. Mas,  por outro lado, a taxa média de ocupação das salas comerciais se mantém muito baixa, na ordem de 20% (e 12% no caso apenas de filmes brasileiros). “E ainda são poucas as cidades que têm cinema no Brasil – menos de 11%, de acordo com o IBGE. Soma-se ao cenário o fato de grande parte dos filmes nacionais lançados nos cinemas terem um público restrito, ou seja, menos de 10 mil espectadores”, cita.

Segundo ela, o panorama evidencia a sobreposição de dois problemas culturais no Brasil: o gargalo da distribuição de filmes e o público ainda pequeno para documentários, filmes independentes e com temas sociais. “Nesse cenário, o debate sobre novas formas de distribuição de materiais audiovisuais no Brasil tem se ampliado e, cada vez mais, buscam-se soluções criativas e diferenciadas de distribuição. A formação de público também cresce como uma preocupação do setor, assim como o debate sobre o volume de recursos investidos em um processo de distribuição e o retorno de público – não apenas em termos financeiros, mas também social – que gera”, observa.

Carol acrescenta que é possível, dentro de uma das linhas de distribuição do Fundo Setorial do Audiovisual, receber R$ 100 mil de investimento para lançar um determinado filme em 10 salas de cinema. Contudo, o público correspondente é baixo na maioria dos casos. “Essa conta resultará num valor alto investido por espectador. Acreditamos que um grande desafio na distribuição hoje é equacionar essa conta: o valor comercial com o valor social de um filme. Mesmo assim, vale a pena continuar. Acreditamos que filmes têm grande potencial de gerar impacto e contribuir para mudanças sociais. Para nós, o mais atrativo dessa função é ver um filme ser amplamente debatido, gerar diálogos e criar redes socialmente engajadas em torno deles”, afirma.

AS GRANDES DO MERCADO


No ranking das empresas que mais distribuíram filmes de 1º de janeiro a 31 de maio deste ano, divulgado pela Ancine (Agência Nacional do Cinema), as cinco primeiras são grandes distribuidoras: Disney, Downtown/Paris, Fox, Sony e Universal. Juntas – entre produções nacionais e estrangeiras – elas levaram um público de cerca de 67 milhões de pessoas às salas, sendo que o público total desse período foi de 79,9 milhões.

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