Rodado em MG, o premiado 'Arábia' estreia em apenas uma sala de BH

Espécie de ode ao trabalhador, longa acompanha as andanças de Cristiano pelo interior de Minas em busca de emprego

por Cecília Emiliana 05/04/2018 09:13

Sinny Assessoria/Divulgação
Longa aborda o universo do trabalhador. (foto: Sinny Assessoria/Divulgação)

Vencedor do Festival de Brasília em 2017, Arábia, dos diretores mineiros Affonso Uchôa e João Dumans, estreia em Belo Horizonte encarando duas questões emblemáticas do cinema nacional. Ambas dizem respeito às velhas engrenagens do setor, que penalizam filmes independentes, de baixo orçamento e pouco apelo popular como o de Uchôa e Dumans.

Rodado em Contagem e Ouro Preto, o longa é uma espécie de ode ao trabalhador. A partir de um diário-caderno, acompanha as andanças de Cristiano (Aristides de Souza, que ganhou o prêmio de melhor ator em Brasília) pelo interior de Minas em busca de emprego. Com muitos elogios, o filme foi exibido também no Film Festival Rotterdam e na 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro.

“A gente chega a BH enfrentando, logo de cara, o velho problema de estrear numa sala de cinema e cumprir um circuito. A gente sabe o gargalo que é a distribuição no Brasil. Então, nossa estreia aqui, no Cine Belas Artes, é uma vitória. Um momento muito especial tanto pra mim quanto para o João”, afirma Affonso Uchôa.

A outra questão é atingir o público retratado no longa, que não tem acesso à cultura. Uchôa, que afirma ter construído um épico de pequenos acontecimentos centrado no trabalhador brasileiro e morador de periferia, diz-se “angustiado” pelo fato de seu trabalho não chegar à plateia-alvo.

“Isso é um pouco frustrante para o cinema que a gente faz, no qual a gente acredita. Vamos estrear no Bairro de Lourdes, num reduto frequentado por quem tem certos privilégios de classe, além de muitos outros. Gostaríamos muito que Arábia pudesse chegar aos moradores da periferia, trabalhadores e trabalhadoras. Não porque o filme vai agradá-los, mas porque é um outro olhar sobre eles e seria interessante apresentar-lhes isso. De qualquer forma, olhando para o lado positivo, podemos dizer que já furamos algumas bolhas. Até então, estávamos restritos ao grupo seleto de iniciados dos festivais. Tenho a esperança de que o público seja mais amplo”, pondera Affonso Uchôa.

Sinny Assessoria/Divulgação
Cenas de 'Arábia', rodadas em Contagem, retratam o cotidiano das periferias brasileiras. (foto: Sinny Assessoria/Divulgação)

 

OUTRO OLHAR SOBRE MINAS Arábia surgiu da vontade dos cineastas Affonso Uchôa e João Dumans de contar uma história mineira sob ângulos que a dupla considera pouco abordados. Contagem, ponto de partida da saga de Cristiano, é a cidade onde Affonso mora desde a infância. Por sua vez, Dumans nasceu em Ouro Preto, onde o protagonista busca oportunidades de trabalho.

 

Um passeio dos dois pela vila operária da cidade histórica selou o projeto, inspirando as primeiras ideias sobre o roteiro. João Dumans e Affonso Uchôa também assinaram o elogiado A vizinhança do tigre, lançado em 2014 e rodado na periferia de Contagem.

 

Arábia é, sem dúvida, uma história mineira, com forte relação com Minas Gerais. O personagem é aquele trabalhador comum que a gente vê em vários contextos. Mas, aqui, existe um nome para ele: o ‘trecho’. Cristiano ‘virou’ a própria estrada enquanto lugar. O nosso protagonista é isso: um trabalhador de trecho”, observa Dumans.

 

De acordo com ele, a narrativa traz elementos do imaginário mineiro. “A própria história de Minas não é uma história muito marcada pelo prazer. O prazer é sempre visto sob o ângulo da culpa. Então, pra nós, o que substitui o trabalho, muitas vezes, é o trabalho. Isso está dito no enredo e na construção do personagem”, observa Dumans.

 

BAIRRO NACIONAL O ator Aristides de Sousa é elemento central no roteiro. Ele e Affonso Uchôa cresceram juntos no Bairro Nacional, embora tenham trilhado caminhos muito diferentes. Com história marcada pela pobreza e violência, Sousa é ex-presidiário, condenado por furto e roubo.

 

Chegou a ser preso na véspera das filmagens de Arábia, mas conseguiu participar delas graças à intervenção dos diretores com o auxílio da Defensoria Pública de Minas Gerais.

 

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Trajetória do ator Aristides de Sousa, o Juninho, foi fundamental para a construção do roteiro. (foto: Sinny Assessoria/Divulgação)
 

 

Uchôa e Dumans redigiram um dossiê com informações sobre a trajetória de Aristides de Sousa, chamado por eles de Juninho, e os prêmios que conquistou no filme anterior da dupla, A vizinhança do tigre. Argumentaram que o trabalho é uma forma eficaz de reinseri-lo socialmente.

 

“A potência do Juninho como artista e como pessoa é muito maior do que todos os estigmas em torno dele. A maior lição que nos deu é de que é dono do próprio destino. É um cara com a força de tomar as rédeas da própria vida. Pra nós, isso é absolutamente inspirador. Esse cara passou por coisas terríveis e nem por isso chora pitangas pelo caminho. Ele se joga, se reinventa”, elogia Uchôa.

 

Os laços – tanto de afeto quanto profissionais – permanecem sólidos no trio João, Aristides e Affonso. “Juninho é um amigo muito próximo. A gente se fala todas as semanas, sai, toma cerveja. Gostamos de trabalhar com ele. Acabei de fazer um média-metragem e ele está incluído nesse trabalho”, revela Affonso Uchôa.

 

Arábia está em cartaz no Belas 1, em três horários: às 16h40, 19h10 e 21h10. Abaixo, confira o trailer: 

 

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