Diretora espanhola Isabel Coixet conta por que decidiu levar ao cinema 'A livraria'

No filme, que chega aos cinemas nesta quinta (22), a viúva britânica Florence Green enfrenta uma comunidade inteira para montar seu negócio no pós-guerra

por Silvana Arantes 22/03/2018 07:53

CINEART/DIVULGAÇÃO
Bill Nighy e Emily Mortimer em cena de 'A livraria'. "Sempre que eu a via atuando como coadjuvante, pensava: por que ela não é a atriz principal?", diz a cineasta sobre a intérprete da protagonista, Florence Green. (foto: CINEART/DIVULGAÇÃO)

“Um bom livro é a preciosa destilação do espírito de seu mestre, embalsamado e preservado pelo propósito de atingir a vida além da vida. E é por isso que é, sem dúvida, um bem necessário.” Assim Florence Green argumenta, em A livraria, em favor de Lolita, respondendo aos que queriam suspender a venda “desse livro banal e sensacionalista de Nabokov que deu luz a tantas reclamações”.

Essa não foi a única – nem a última – batalha da protagonista do longa-metragem de Isabel Coixet, que estreia nesta quinta (22) no Brasil, cuja ousadia foi querer montar o seu próprio negócio de venda de livros na modorrenta cidadezinha inglesa de Hardborough, depois da Segunda Guerra, que a transformou numa viúva.

“Acho que Nabokov era um enorme escritor e acho que, como autores, temos que falar de tudo que diz respeito à natureza humana. Temos a obrigação de tocar em todos os temas e oferecer um reflexo da natureza humana, na qual há coisas horríveis e também ambíguas. Muitas vezes, no meio desse debate, nos vemos sem saber o que de fato pensamos. Mas a incerteza também é boa, como diz uma frase do filme: ‘entender deixa a mente preguiçosa’”, afirma a diretora, que assina também o roteiro adaptado da obra homônima de Penelope Fitzgerald (1916-2000).

Para interpretar Florence Green, a cineasta escolheu Emily Mortimer. “Sempre que eu a via atuando como coadjuvante, pensava: por que ela não é a atriz principal? Eu intuía que Emily ia ser uma grande Florence Green. E assim foi. Ela consegue dar a essa personagem a vida, o carinho e a ternura que ela necessita”, comenta Isabel Coixet, de 57 anos, que tem entre seus longas anteriores A vida secreta das palavras (2005) e Meu outro eu (2013). A seguir, a entrevista que a diretora concedeu ao Estado de Minas, por telefone, na terça-feira (20).

Que aspecto do livro de Penelope Fitzgerald fez com que você tivesse vontade de filmá-lo?
Eu gostava especialmente do fato de ser uma livraria (o ponto central da trama), porque sempre sonhei em ter uma livraria. Outra coisa que gostei no romance foi a simplicidade, esse sentido de coragem que tem a personagem de Florence Green. Tudo isso me atraiu muito.

Embora a coragem seja um tema de destaque em seu filme e está claro que ele se baseia no romance A livraria, o tratamento que você dá à questão da perda nos deixa com a impressão de assistir também a uma versão filmada do poema A arte de perder, de Elizabeth Bishop. Esse era um segundo ponto que lhe interessava tratar?

“A arte de perder não é nenhum mistério/Tantas coisas contêm em si o acidente/De perdê-las, que perder não é nada sério.” Conheço muito esse poema e pensei muito nele antes das filmagens. Para mim, esse poema tem muito significado. Vivemos nessa cultura do sucesso, mas, na realidade, o sucesso não é nada. O sucesso, no final, é ter um sonho no qual você acredite. O fato de ter um sonho que possa ser realizado, para mim, já é um sucesso, independentemente do que ocorra. Questiono muito a maneira como se define o sucesso e o fracasso.

Você afirmou que “atingir a simplicidade é algo muito complexo, assim como retratar boas pessoas”. Como fez para conseguir isso?

No cinema, estamos acostumados aos papéis dos vilões. De alguma forma, o retrato dos maus se tornou muito mais vistoso e mais fácil. Para mim, esse personagem (a dona da livraria, Florence Green) é também uma forma de reivindicar o valor das autênticas boas pessoas. Porque as autênticas boas pessoas não são as que se dizem boas, mas sim as que, com suas atitudes, nos mostram o que é a bondade e o que é a maldade. É preciso julgar as pessoas pelo que elas fazem, não pelo que dizem. Isso é algo que sempre tive muito claro.

O roteiro do filme adapta o livro de uma forma que insere na história uma ideia de linhagem e herança do sentido de coragem. Por que fez essa escolha?
Para mim era muito importante que houvesse uma continuidade, que, de alguma forma, a semente que Florence Green planta tenha uma continuidade e um sentido. Ainda que ela não saiba, aquela menina vai realizar o sonho dela, firmar-se de um outro modo no mundo e triunfar.

Você também promoveu uma mudança importante no desfecho da história. Nesse caso, o que orientou sua decisão?
O romance termina de uma maneira que, como espectadora, me parecia muito difícil de aguentar. De certa forma, terminei o filme como eu gostaria que o romance terminasse. Tive contato com os guardiães do legado de Penelope Fitzgerald e creio que eles aceitaram isso muito bem e viram um sentido nisso, porque, afinal,  trata-se de um filme, não de um livro.

O mundo do cinema está assistindo a um grande fluxo de diretores indo para a Netflix. No Brasil, isso inclui alguns dos maiores nomes, como José Padilha e Fernando Meirelles. O que pensa sobre essa tendência?
O que um narrador quer é contar histórias. Entendo que, quando você precisa passar tantos anos para contar uma história (no cinema), se um outro veículo, como é a televisão, lhe oferece condições de fazer isso mais fácil e mais rapidamente, você aceite. Agora vou fazer um filme para a Netflix. Não uma série, porque não sou o tipo de pessoa que tenha atração por séries. Mas tive essa oportunidade de fazer um filme de forma mais rápida.

Considerando a polêmica em torno de Okja, no Festival de Cannes, pergunto: esse seu filme para a Netflix poderá ser visto no cinema?
Creio que também chegará aos cinemas. Espero. Ainda não sei. Essa é outra coisa que temos que perguntar para eles.

E qual será o tema do filme?
É uma história real sobre duas mulheres – Elisa e Marcela – que se casaram em 1901, na Galícia. Uma delas se disfarça de homem para se casar com a mulher que queria. As duas fizeram um acordo e se casaram na igreja. Mas foram descobertas e mandadas para a prisão. É uma história muito bonita e muito real.

Por falar em histórias a respeito de mulheres, na entrevista após a exibição de A livraria no Festival de Berlim (disponível no site do festival, 
www.berlinale.de), quando um repórter se refere aos movimentos #MeToo e #Time’sUp, você dá a impressão de certa irritação com a ideia de que essas iniciativas sejam uma expressão de coragem feminina. Está correta essa impressão?
Sabe o que acontece? Como dizer... Não sei... Talvez porque eu já esteja há muitos anos na luta. É um pouco de cansaço. O bom disso tudo, no fim das contas, é que os homens realmente estão questionando sua maneira de agir no mundo, seus papéis e atitudes. Isso, sim, é importante. Mas as pessoas da minha geração já estão um pouco cansadas de falar sobre isso e de protestar. São tantos anos de luta, que chega um momento em que já deu. Passei por diversas situações pesadas na minha vida e gostaria que outras pessoas não tivessem que enfrentar isso. Seria esplêndido se não tivessem. Minha vida foi uma luta constante com isso. Mas talvez agora a luta tenha que ser feita por outras pessoas. Essa luta feminista, que é absolutamente legítima, às vezes distrai do trabalho que a pessoa realizou. Isso é algo que me incomoda. Mas me incomoda só por cinco minutos. Depois passa.

 

Abaixo, confira o trailer de A livraria

 

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