Cao Guimarães e Marcelo Gomes se unem para realizar o longa de ficção O homem das multidões

Filme baseado em conto de Edgar Allan Poe está sendo rodado em BH

por Gracie Santos 12/11/2012 08:48

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O ator Paulo André, orientado pelo diretor Cao Guimarães, em cena rodada na Praça Sete
Juarez Rodrigues/EM/D.A Press (foto: O ator Paulo André, orientado pelo diretor Cao Guimarães, em cena rodada na Praça Sete)
 

Um homem tímido e solitário que, ironicamente, gosta de caminhar em meio à multidão. Uma mulher que tem facilidade enorme para se relacionar com as pessoas, desde que no Facebook. Opostos que se encontram e, de certa forma, percebem a possibilidade de uma relação. Um diretor de ficções que filma, acostumado a lidar com a dramaturgia e os mínimos detalhes da cena. É tão minucioso para construir suas tramas que uma vez tirou os postes da cidadezinha para rodar seu longa (Cinema, aspirinas e urubus). Outro cineasta que documenta a realidade com rara espontaneidade e poesia, fotógrafo de estética privilegiada. Diferentes que se complementam. Desse encontro nasce O homem das multidões, longa de ficção inteiramente rodado em Belo Horizonte e que traz a parceria inédita entre os diretores Cao Guimarães e Marcelo Gomes. As filmagens, que levarão um mês, começaram na quinta-feira, no Centro de BH. Mineiro e recifense dividem o set e as ruas da cidade (as primeiras cenas foram gravadas esta semana, na Praça Sete e num apartamento na Av. Paraná, no Centro. Muitas serão feitas no metrô de BH, tanto nos trens como nas dependências do Pátio São Gabriel – espaços “gentilmente cedidos” pela CBTU-BH). Nos bastidores, a mistura de sotaques é grande: tem paulistas como a atriz Silvia Lourenço, que faz Margô, e o preparador de atores Pedro Freire, atualmente radicado no Rio; paranaenses como o diretor de arte Marcos Pedroso; e mineiros como Paulo André, ator do Galpão, que será Juvenal (o personagem título). Todo mundo trocando figurinhas e experiências. No grupo, não há quem não comente (e não se deixe contagiar) a grande admiração que os diretores têm um pelo outro. E também quem não esteja curioso para ver o resultado da mistura de linguagens, estéticas e estilos que a parceria promete. O homem das multidões é projeto que encerra a trilogia de Cao Guimarães sobre a solidão, que começou com Alma do osso (2004) e teve também O andarilho (2006). Na Praça Sete, no primeiro ensaio para as filmagens, na manhã de quinta-feira, Juvenal circulou de um quarteirão ao outro, caminhando timidamente em meio às pessoas. Olhares curiosos de uns, que questionavam se aquele homem era famoso, indiferença de outros, que nem sequer perceberam a imensa câmera seguindo o ator. “Às vezes, a câmera dificulta a aproximação do personagem, um homem que quer se mimetizar com a multidão, cria certo vácuo em torno de mim”, avalia Paulo André. “E o que vai ocorrer se durante as filmagens se alguém puxar papo com ele?”, questiona mais tarde – e ainda sem resposta – o diretor Marcelo Gomes. O preparador de elenco Pedro Freire acompanhou o ensaio, mas, assim que as filmagens começarem de fato, deixa o set. “Aí é com eles, vão fazer o que trabalhamos durante um mês, mas do jeito que sentirem, da forma que quiserem eles e os diretores”, explica Pedro Freire. O preparador de elenco conta que o perfil do homem das multidões (o nome Juvenal consta apenas do roteiro e não será usado em cena) foi sendo construído aos poucos. “Ele não vai ser um coitado, solitário. É um cara que gosta de estar na multidão, não para interagir, apenas para estar ali, sente-se confortável tanto ali quanto sozinho.” Filmar no meio das ruas, sem atores coajuvantes (“eles são as pessoas que passam pelas ruas”, avisa Cao Guimarães), “é o melhor de tudo, traz a realidade que falta para o ator criar seu personagem. Ele é obrigado a estar na real, não tem mentira aqui”, analisa Pedro Freire. Juvenal é maquinista do metrô. “Ele tem dificuldade de interação social, é muito tímido e paradoxalmente gosta de estar em lugares com muita gente. Então, encontra Margô e, a partir desse momento, há a possibilidade de interação”, conta Paulo André, que está curioso para ver o resultado da mistura do trabalho dos diretores, “tão diferentes e, ao mesmo tempo, complementares. A linguagem do Cao é mais documental e desta vez é ficção, com roteiro preestabelecido, vai ser diferente. Mas o mais interessante é ver a admiração que eles têm pelo trabalho um do outro.” Não quer dizer, necessariamente, que haverá romance entre Juvenal e Margô. Eles serão amigos. Margô trabalha no Centro de Controle Operacional da CBTU-Metrô BH (CCO). “Ela também é solitária, mas tem um estilo diferente do dele, mora com os pais. Nunca foi a uma festa de Natal, a nenhum churrasco do metrô, não dá conta de ir. Prefere ficar em casa, curtindo tudo no Facebook. Acho que Margô é controladora, trabalha no lugar certo (risos). Não que ela saiba disso,” conta Silvia Lourenço (de Contra todos, O cheiro do ralo e Quanto dura o amor?). A atriz teve duas surpresas: a primeira quando ficou sabendo que os diretores iriam trabalhar juntos (e gosta muito das obras dos dois); a outra quando soube que ela seria personagem do filme. “Marcelo tem sempre um roteiro (estético) em mente, vai montando uma espécie de quebra-cabeça; já o trabalho do Cao extrai o máximo da beleza no caos, ele mergulha no improviso e o resultado é verdadeiro e de muito lirismo”, avalia a atriz. Diferenças que se somam Além da trama que envolve os metroviários Juvenal e Margô, o filme baseado no conto “O homem da multidão”, de Edgar Allan Poe, terá depoimentos sobre a solidão, que também já estão sendo gravados em BH. É projeto dos diretores e roteiristas mesclar história dentro de história. O filme terá em cena, além dos depoimentos, alguma coisa de seu processo de feitura. “Vamos sair da Londres do século 19 (o conto se passa em 1840 e tem personagem anônimo, um narrador que gosta de observar refletidamente os moradores da cidade) para a Belo Horizonte do século 21. Seremos também personagens do filme, é o que está na nossa cabeça, mas é na edição e na montagem que se dá a escritura do filme”, afirma Cao Guimarães. “Existem duas identidades diferentes que convertem em algum lugar. Temos identificações de gosto, gostamos de inovações, de fazer algo mais independente de qualquer cânone estabelecido. Marcelo tem traquejo com a direção de ator, roteirização, dramaturgia. Tenho minha linguagem estética, fotográfica, sonora. Teremos um filme com mistura de ficção e real, atores e não atores”, explica o diretor mineiro. Para Marcelo Gomes, o encontro dos dois somará “o olhar peculiar de Cao, a plasticidade da fotografia dele e também a temporalidade diferenciada”, ao seu trabalho de direção de atores, construção de personagens. “Há também nossa mútua admiração por trabalhos de diretores como Eduardo Coutinho, Júlio Bressane; gente do cinema asiático como Wong Kar Wai; o russo Sukurovi e o iraniano Abbas Kiarostami”, completa o recifense. Cao Guimarães confessa que fazer o roteiro foi difícil, “pelos problemas de sempre, de o texto ficar muito literário. Mas quando começamos a mergulhar com a equipe toda, atores, diretor de arte, preparador de elenco, o filme foi encorpando”. E agora começa a ganhar vida. A estreia está prevista para o fim de 2013.



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