Cinema mineiro fica de fora dos principais festivais brasileiros do ano

Para especialistas, mecanismo de incentivo estadual, aplicado de dois em dois anos, prejudica a produção local

por Carolina Braga 09/09/2012 09:36

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Luiz Pretti/Divulgação
Pablo Lobato, Leonardo Barcelos, Sérgio Borges e Marília Rocha, Luana Melgaco e Clarissa Campolina, da Teia: ainda falta incentivo para o cinema feito em Minas Gerais (foto: Luiz Pretti/Divulgação)

À medida que o ano avança e os principais festivais de cinema do país divulgam suas programações, um dado chama a atenção: onde está o cinema feito em Minas Gerais? Com exceção de Otto, novo longa de Cao Guimarães, presente na mostra competitiva do Festival de Brasília, a produção de longas-metragens do estado praticamente não deu as caras no Cine Ceará, Cine PE, Festival de Gramado e Festival do Rio, alguns dos principais eventos do setor.

“Este ano não teve edital do Filme em Minas. É muito claro que isso faz toda a diferença”, observa Sérgio Borges, integrante do coletivo Teia. “Parece que entramos mesmo nesse processo de entressafra por uma questão de incentivo”, completa o jovem realizador Matheus Antunes, da produtora Laben 108. “Isso ocorreu principalmente depois do último biênio, quando tivemos uma produção que repercutiu muito”, completa o cineasta Rafael Conde.

Os residentes, de Tiago Mata Machado, O céu sobre os ombros, de Sérgio Borges, e Girimunho, de Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina, são os últimos longas que alcançaram destaque nacional e internacional. Eles são de 2010 e 2011. “Estes filmes tiveram apoio fundamental do Filme em Minas, que é bienal”, explica Rafael Conde. O diagnóstico dos envolvidos com o setor é objetivo: como indústria do cinema é algo que não existe por aqui, nossa produção é refém do único mecanismo de fomento voltado para a área. E, é bom deixar claro, mesmo sendo mecan

“O Filme em Minas é o principal instrumento para fomentar a produção cinematográficas já que Belo Horizonte é mesquinha com o cinema. Mesmo assim, em termos comparativos, Minas Gerais fica muito abaixo do que estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Rio Grande do Sul fazem pela sua produção”, analisa o diretor Helvécio Ratton. “Não dá, em tese, para o cinema mineiro viver só do programa”, acrescenta Sérgio Borges.

Para Guilherme Fiúza, da produtora Camisa Listrada, a lei estadual de incentivo à Cultura tem um teto baixo para a realidade do cinema. “O apoio a projetos no nível de produção é em torno de R$ 250 mil e você ainda tem que sair para captação. O que não é uma tarefa fácil em Minas. Não existe esta filosofia entre os empresários daqui”, cobra o produtor.

Integrante da comissão responsável pela seleção dos longas candidatos à competição em Brasília, Sérgio Borges, vencedor do Candango em 2010 com O céu sobre os ombros, surpreendeu-se ao se deparar com apenas dois representantes do estado entre os mais de 100 filmes analisados. “Está cada vez mais difícil captar recursos e os prêmios nacionais são muito concorridos. Fico um pouco triste e com inveja do edital de Pernambuco. Lá eles têm R$ 11 milhões por ano para o audiovisual. Não é à toa que este ano, em Brasília, três dos seis filmes finalistas são de lá. O investimento estadual dentro da dinâmica do cinema é fundamental para a cinematografia.”

Plataforma A Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais planeja para o dia 19 a divulgação de uma plataforma de apoio ao audiovisual no estado. Pensada como um conjunto de ações, a plataforma foi desenvolvida a partir das demandas e sugestões levantadas junto a vários representantes do setor. “Entendemos que não se trata de simplesmente redimensionar valores pontuais, transformar o Filme em Minas em anual, mudar o perfil da captação. É um programa que faz a articulação entre várias unidades da secretaria, pensando na participação da Rede Minas, do Cine Humberto Mauro e outras instituições. Tudo isso resulta em programa que é muito maior do que a ação de um edital”, informa Janaína Cunha Melo, superintendente de ação cultural da Secretaria de Cultura de Minas.

As novidades que vêm sendo preparadas serão divulgadas no debate promovido durante o Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte. De acordo com Janaína Cunha Melo, no mesmo dia será apresentado outro instrumento para o audiovisual mineiro. O mecanismo encontra-se em fase final de elaboração. “Queremos apresentar essa plataforma e escutar o que a classe tem a dizer. Não é apenas uma questão numérica, existem outras ferramentas. Mas não estamos recusando o diálogo a respeito de recurso”, afirma a superintendente.

O que vem por aí

“Acho que não há entressafra. O pessoal está produzindo. Daqui a pouco tem muito filme sendo lançado”, afirma a diretora Tania Anaya. Contemplada com o programa Filme em Minas no ano passado, a equipe dela está a pleno vapor na produção do que será o primeiro longa-metragem de animação feito em Minas. Nimuendajú é sobre a vivência do pesquisador alemão Kurt Unckel junto a povos indígenas brasileiros. Inspirado na técnica usada pelo filme israelense Valsa com Baschir, o longa usará imagens reais como referências para o desenho e a animação. “É um filme de animação construído quadro a quadro, segundo por segundo”, detalha a criadora. A previsão de lançamento é para 2014.

O segredo dos diamantes, longa de aventura focado no público jovem e adulto dirigido por Helvécio Ratton, tem previsão de lançamento para o primeiro trimestre de 2013. O diretor ainda não avaliou se a estreia será ou não em algum grande festival. “O circuito dos festivais é importante para dar visibilidade aos filmes, mas não é essencial. Esse nosso filme se dirige principalmente ao público infantojuvenil. Não sinto que os festivais estejam abertos para isso. Pretendo mostrá-lo em alguns, mas depende do momento em que ficar pronto”, explica.

O menino no espelho, longa dirigido por Guilherme Fiúza baseado na obra de Fernando Sabino, também não deve estrear em festivais. A previsão é de que chegue ao circuito comercial em julho do ano que vem. Para 2013, ainda da safra do Filme em Minas, também está prevista a estreia de Ventos de Valls, dirigido por Pablo Lobato, do coletivo Teia.

SAIBA MAIS
Filme em Minas


Criado em 2004, o Filme em Minas é um edital bienal lançado pelo governo de Minas Gerais que garante aos selecionados o patrocínio da Cemig, via Lei Federal de Incentivo à Cultura. Na prática, funciona assim: os projetos escolhidos não precisam passar pelo penoso processo de captação de recursos no estado. Desde que consigam a aprovação na Lei Rouanet, a verba está assegurada. Nas cinco edições realizadas foram investidos R$ 16 milhões, num total de 133 projetos contemplados. O programa é dividido em sete categorias: produção de longas-metragens; distribuição de longas-metragens; finalização; curtas e médias-metragens; formato livre; publicação, preservação e memória; e o incentivo Minas Film Comission ao cinema nacional.

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