Festival É tudo verdade chega a BH com sessões de documentários proeminentes no cenário mundial

Dezessete anos depois da primeira edição, itinerância do maior festival de documentários do país traz 14 títulos inéditos e retrospectiva dedicada ao argentino Andrés Di Tella

por Mariana Peixoto 27/08/2012 09:14

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Eduardo Martino/Divulgação
Destaque do festival É tudo verdade é o longa-metragem Tropicália, de Marcelo Machado, que aborda o movimento cultural (foto: Eduardo Martino/Divulgação)
 
O ano é 1995. Decidido a criar um festival internacional de documentários, o primeiro da América do Sul, o crítico Amir Labaki analisou o cenário em que pretendia ingressar. Na época, somente dois documentários brasileiros e um estrangeiro tinham passado pelo circuito de São Paulo, onde o evento seria fundado. Mesmo com essa carência de exibição, Labaki tinha consciência de que o ambiente era promissor. “Pois o Brasil sempre teve tradição forte de documentários, de Alberto Cavalcanti e Humberto Mauro a Fernando Meirelles e Walter Salles, todos os grandes realizadores trabalharam nos dois gêneros (ficção e doc.). Além disso, sabia que a produção internacional estava ascendendo e a revolução digital começando.”
Foi dessa maneira que o É tudo verdade nasceu, em 1996. Naquele ano, o festival exibiu pouco menos de 30 títulos (entre curtas, médias e longas-metragens), a metade nacionais. Dezessete anos mais tarde, consolidado como o maior evento do gênero no país, que ocorre simultaneamente, no primeiro semestre, em São Paulo e no Rio de Janeiro, teve 1,2 mil filmes inscritos (40% deles brasileiros). Ao longo desse período, o festival foi ganhando, aos poucos, outras praças. Sempre em formato reduzido, chegou a Brasília, Recife, Porto Alegre e Campinas. Agora, depois de negociação iniciada há cinco anos, chega a Belo Horizonte. Entre 28 de agosto e 2 de setembro, no Oi Futuro, será exibida versão do festival com 14 títulos, todos inéditos.
“Não existe festival no mundo que consiga fazer uma itinerância do jeito que o original foi realizado, pois você teria que renegociar todos os filmes. O que buscamos é fazer recorte da mostra principal e, como estamos numa nova cidade, havia algumas preocupações: apresentar uma diversidade da produção documental no Brasil e internacional por meio de filmes muito distintos, a cara que o É tudo verdade apresenta nesses 17 anos”, comenta Labaki.
Vitalidade
Na abertura, na noite de amanhã, será exibido Jorge Mautner – O filho do holocausto, de Pedro Bial e Heitor D’Alincourt, que deixou na semana passado o Festival de Gramado com três Kikitos (roteiro, fotografia e montagem). “Durante muito tempo não celebramos nossas figuras centrais em vida. E o Mautner está aí, fazendo parte da cena cultural com muita vitalidade. A partir do filme do Bial e do D’Alincourt, o lugar de Mautner está melhor definido, pois ele explica sua participação na Tropicália, na poesia e na literatura, uma equação de maneira que só um documentário consegue resolver”, afirma Labaki.
E esse filme dialoga com outro destaque do É tudo verdade, Tropicália, de Marcelo Machado. “Estilisticamente, os dois são muito distintos. O de Mautner é de estúdio, aproxima todo mundo dele, é meio centrípeto. É fechado numa biografia, enquanto o Tropicália fala de um movimento cultural. Ele procura material mundo afora, é centrífugo. Marcelo Machado recupera de maneira esplêndida o tropicalismo, pois sua fase mais pública é a da área musical, mas o movimento vai também para as artes plásticas, o cinema. Curiosamente, há trechos de arquivo que estão nos dois filmes, mas editados de maneira distinta.” 
Na seara internacional, o curador destaca a retrospectiva do documentarista argentino Andrés Di Tella. “Como o festival tem um número limitado de sessões, queria mostrar também não só filmes novos. Havia duas opções: do Eduardo Coutinho (nova cópia de Cabra marcado para morrer, de 1985, foi um dos destaques dessa edição do É tudo verdade) e de Di Tella. Resolvemos fazer dele, que é menos conhecido e mais distante, e um dos cineastas mais originais da cena documentarista dos últimos 20 anos. Tem sempre trabalhado com a memória pessoal e a memória social. Na sua fase mais madura, os filmes são marcadamente reflexivos, discutem também a prática documental. Ele cruza influência com o João Moreira Salles.”
 
Serão exibidos quatro documentários de Di Tella, incluindo o mais recente, Golpes de machado (2011). A programação ainda destaca os vencedores da 17ª edição do É tudo verdade, Mr. Sganzerla – Os signos da luz, de Joel Pizzini, e Planeta caracol, do sul-coreano Seung-Jun Yi. 
Para Labaki, a produção brasileira recente não só cresceu como se sofisticou. “Uma nova geração de realizadores está fazendo documentário de maneira prioritária, não como uma segunda opção.” O curador diz que a vontade é de que a itinerância mineira venha para ficar. “No Brasil, é sempre um otimismo dizer que teremos um festival no ano seguinte, já que os eventos que vingaram no país são exceção. O É tudo verdade está chegando a duas décadas, então entramos para esse rol. Sobre Belo Horizonte, o que posso dizer é que estamos chegando para ficar. Vamos sentir essa primeira edição para ver se, no ano que vem, ele poderia ocorrer mais próximo das edições de Rio e São Paulo”, conclui. 
 
O que ver 
 
» Terça-feira, 28 de agosto
20h – Jorge Mautner – O filho do holocausto (Pedro Bial e Heitor D’Alincourt, Brasil): sessão seguida de debate com os diretores e Amir Labaki
» Quarta-feira, 29
16h – É na Terra não é na Lua (Gonçalo Tocha, Portugal)
20h – Tropicália (Marcelo Machado, Brasil)
» Quinta-feira, 30
16h – Retrospectiva Andrés Di Tella (Montoneros, uma história, Argentina)
18h – Ricky sobre Leacock (Jane Weiner, França)
20h – Jorge Mautner – O filho do holocausto
» Sexta-feira, 31
16h – Retrospectiva Andrés Di Tella (A televisão e eu, Argentina)
18h – 1/2 Revolução (Omar Shargawi e Karim El Hakim, Dinamarca)
20h – Com amor, Carolyn (Maria Ramström e Malin Korkeasalo, Suécia)
» Sábado, 1º de setembro
16h – Retrospectiva Andrés Di Tella (Fotografias, Argentina)
18h – Planeta caracol (Seung-Jun Yi, Coreia do Sul)
20h – Cinco câmeras quebradas (Emad Bornat e Guy Davidi, França)
» Domingo, 2 de setembro
16h – Retrospectiva Andrés Di Tella (Golpes de machado, Argentina)
18h – Mr. Sganzerla – Os signos da luz (Joel Pizzini, Brasil)
20h – Carrière 250 metros (Juan Carlos Rulfo, México) 
 
Assista ao trailer de Tropicália, destaque do É tudo verdade na quarta-feira, 29:
É TUDO VERDADE – FESTIVAL INTERNACIONAL DE DOCUMENTÁRIOS
De terça-feira, 28 de agosto, a domingo, 2 de setembro, no Oi Futuro, Avenida Afonso Pena, 4.001, Mangabeiras, (31) 3229-3131. Entrada franca. 


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