Nem drama nem comédia

Em visita ao Brasil, a diretora franco-libanesa Nadine Labaki fala de seu novo filme, E agora, aonde vamos?, em que demonstra todo o absurdo do conflito entre vizinhos

por Carolina Braga 18/08/2012 10:28

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Festival Varilux/Divulgação
Como fez no cultuado Caramelo, de 2007, Nadine Labaki dirige e atua em E agora, aonde vamos? (foto: Festival Varilux/Divulgação)
 
Olhos claros, bem delineados de preto. Cabelos lisos, escuros. É inevitável se aproximar da atriz e diretora Nadine Labaki sem observar nela os traços das mulheres libanesas. Mas em poucos minutos de conversa ela demonstra que beleza física é mais um atributo da artista comprometida, consciente, inteligente, forte e que sabe muito bem o que quer. “Pra mim, fazer filmes não é somente contar uma história. É a expressão de mim mesma”, diz.

A convite do Festival Varilux, ela vem pela primeira vez ao Brasil para apresentar e debater com o público seu novo trabalho, E agora, aonde vamos?. Até então, a diretora franco-libanesa era conhecida por aqui pela despretensiosa comédia Caramelo (2007). O humor continua presente na criação dela, porém com uma dose mais caprichada de observação política e drama.

“A política lhe escapa mesmo se você quiser fugir dela”, observa, ao explicar a trama de E agora, aonde vamos?, que se passa em um país castigado pela guerra. No centro de tudo está um grupo de mulheres que faz de tudo para proteger as respectivas famílias. A diretora tem se surpreendido com a maneira com que o longa-metragem tem tocado as pessoas. Para Nadine, a explicação para isso é a universalidade do tema.

“Mesmo que seja ambientado somente no Líbano, é um conflito que poderia se passar no universo do futebol, nas famílias, entre irmãos. Todo mundo entende disso”, acredita. Independentemente da natureza do argumento, afirma, todo filme nasce primeiro de uma inquietação que ela mesma carrega. No caso de E agora, aonde vamos?, o absurdo que pode haver no conflito entre vizinhos foi o que motivou o longa.

Apesar de tratar sobre a guerra, E agora, aonde vamos? tem um humor muito refinado, o que, aliás, é característica da diretora. “Não consigo me imaginar fazendo somente um drama”, diz. “É impossível, porque acredito que na vida nem tudo é preto e branco. Há uma escala de cinzas. Então, não é drama ou comédia. Acho que o povo libanês tem a habilidade de transformar tudo em ironia. É um mecanismo de sobrevivência. Acredito que o humor é uma boa maneira de começar a lidar com as coisas. Quando você ri dos próprios erros, é uma forma de começar a lidar com eles.”
 
Em busca da verdade 
 
Hoje com 38 anos, Nadine Labaki começou dirigindo comerciais para a TV. Também dirigiu videoclipes antes de assumir o cinema como atividade principal. “Foi importante porque era a única maneira de aprender. Não acho que tenha influenciado diretamente meu trabalho, mas foi onde aprendi a dirigir atores. Foi como um laboratório para mim”, conta.

Assim como em Caramelo, Nadine Labaki é também atriz em E agora, aonde vamos?, cujo elenco é formado principalmente por pessoas sem experiência de atuação. Estar em cena é, para a diretora, essencial para que consiga o resultado de interpretação que persegue. “Não é trabalho de atuação. É estar em dada situação. Aquelas pessoas não estão sendo personagens para o filme. É de fato a maneira como elas reagem na vida real. Gosto de trabalhar na procura deste momento de verdade. E para isso preciso estar muito perto”, justifica.

Integrar o elenco é, portanto, um método particular de direção para Nadine. “Como escolho atores não profissionais, isso me permite improvisar muito dentro da cena. Normalmente, faço alguma coisa para que eles reajam de alguma maneira. Como é completamente inesperado, eles vão reagir de forma verdadeira”, explica.

O primeiro trabalho de Nadine Labaki no cinema foi o curta-metragem 11 Rue Pasteur, vencedor do grande prêmio na Bienal do Cinema Árabe. Exibido na semana dos realizadores do Festival de Cannes, Caramelo trouxe o reconhecimento internacional e abriu caminho para ela. Além de integrar a programação do Festival Varilux de Cinema Francês, E agora, aonde vamos? tem distribuição no Brasil garantida pela Vinny Filmes. A previsão de estreia no circuito comercial é outubro.


*A repórter viajou a convite do Festival Varilux de Cinema Francês. 


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