“A palavra para ela é: arrebatadora”, diz o escritor e roteirista Marçal Aquino. “É estrondosa”, respalda o diretor Beto Brant. Eles se referem à Camila Pitanga. Ou melhor, a criação dela para Lavínia, protagonista de Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, filme que estreia nesta sexta-feira nos cinemas brasileiros. “É aquele velho problema, às vezes o elenco está muito bom, mas tem a Camila. Quando ela está na tela, você não consegue olhar para quem está contracenando. Tem um magnetismo”, completa Marçal.
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O autor do romance que deu origem ao longa-metragem, publicado em 2005, não exagera. Com a atuação já premiada no Festival do Rio e no Amazonas Film Festival, a atriz circula o país para a divulgação da produção, certa de que ganhou, na verdade, um presente. “Todo ator está em busca de desafios para alargar seus limites. A Lavínia é a essência disso: me dava oportunidade de mostrar trabalho. Correr riscos, mas acima de tudo me aprofundar em regiões existenciais muito radicais”, comenta Camila Pitanga. “Fiquei muito comovida com a poética do Marçal”, completa.
Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é trama que se passa no interior do Pará e conta a história da mulher que vive dividida entre dois amores, o fotógrafo Cauby (Gustavo Machado) e o pastor – e marido – Ernani (Zecarlos Machado). Gero Camilo faz participação especial como o jornalista Vitor Laurence.
“Foi uma humilde tentativa minha de tentar entender uma mulher. Mas é algo muito complexo. As mulheres têm muitas nuances, com variações marcadas. Lavínia é uma mulher se defendendo do mundo. Acho que a Camila captou tudo isso e foi para dentro ”, comenta Marçal Aquino. Quando pensou na atriz para o papel, o diretor Beto Brant sugeriu que Camila se dedicasse à leitura da obra. Foi aí que ela se encantou por Lavínia.
“Li o livro em um dia e fiquei extremamente comovida com aquela história de amor”, confessa a atriz. Fechado o contrato, enquanto o diretor tocava a produção na região de Santarém, no Pará, a atriz procurava entender aquela misteriosa criatura. Além de investir na preparação corporal para conseguir chegar aos estados emocionais da personagem, também criou um banco de imagens com expressões de mulheres e mergulhou no cinema em busca de referências. “Tentei criar um repertório que me ajudasse a chegar às temperaturas e aos estados dela. Fiquei quase como uma antena parabólica”, compara. Desde o início, Camila Pitanga sempre soube o tamanho do desafio e a exposição à qual se submeteria. Mas garante não ter sentido qualquer apreensão em se entregar à empreitada. “Sem dúvida, é o trabalho que mais me exigiu e que mais me expôs também. Tenho o maior orgulho disso”, garante. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é a sétima parceria do diretor Beto Brant com o escritor Marçal Aquino. Apesar de descolados no trabalho em dupla, a adaptação não foi das mais fáceis. “Foi a mais difícil porque é nosso filme mais ambicioso. Havia um deslocamento maior, todas as dificuldades de se filmar na Amazônia e no Rio de Janeiro. Os desafios também foram maiores por se tratar de temas que tocam em regiões mais abstratas do ser humano”, analisa Beto Brant. O romance é o livro adulto mais vendido de Marçal Aquino. O filme – dirigido em parceria com Renato Ciasca – também é o mais caro da carreira de Beto Brant: R$ 3,5 milhões. Para o diretor, diferentemente de outras adaptações levadas por ele à tela, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios tece uma trama muito mais ambiciosa. “O filme não tem uma narrativa convencional. Estamos falando de amor e de espiritualidade, que são grandes mistérios”, diz. Embora o livro seja narrado pelo fotógrafo, no filme o enredo gira em torno da figura feminina. “Desde o começo a gente sabia que o que interessava contar no filme era a história do fotógrafo que conhece uma mulher no interior do Pará. As outras questões descobriríamos à medida que o processo avançasse”, conta Marçal. Assim, tanto as questões pessoais como a degradação ambiental, assim como episódios policiais nos quais circulam os personagens, embora bem marcados, não chamam tanto a atenção na versão cinematográfica. Sensualidade e política Como o romance é o fio condutor, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios tem entre seus pontos altos os intensos encontros carnais entre Lavínia e seus homens. Vale acrescentar: os momentos eróticos esbanjam intimidade. “A natureza do romance é essa. Ele tem esse caráter muito físico. Para se ter uma ideia, a primeira parte do livro se chama ‘O amor é sexualmente transmissível’. A Camila deixou a Lavínia baixar nela”, ressalta Marçal Aquino. “A gente vive um pouco aquela intensidade, mas tudo é construído. O bacana é quando imprime uma realidade que chega a tocar as pessoas”, comenta Pitanga. Quando falam sobre o filme, tanto Camila Pitanga quanto Beto Brant ressaltam a relevância que a obra de Marçal Aquino tem ao tratar da sociedade contemporânea. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios coloca o amor em primeiro plano, mas nem por isso deixa passar batido um olhar crítico sobre a situação do país e dos homens. “Espero que a sociedade brasileira tenha sensibilidade de notá-lo”, propõe o diretor. “Para além do meu trabalho, o filme tem uma visão crítica e política do nosso país que acho importante ecoar pelo Brasilzão”, conclui Camila Pitanga.
DOSE DUPLA Parcerias de Beto Brant e Marçal Aquino Livros adaptados •2011 – Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios •2001 – O invasor Roteiros •2010 – O amor segundo B. Shianberg •2007 – Cão sem dono •2005 – Crime delicado •1998 – Ação entre amigos •1997 – Os matadores
NOVA EDIÇÃO
Com o lançamento do filme, o romance Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino, ganhará nova edição pela Companhia das Letras. “Lancei-o há sete anos e até hoje é o meu livro adulto mais vendido. Caiu nas graças dos vendedores, mas sobretudo das vendedoras. Reconheço: é um romance feminino”, diz Marçal Aquino. A nova capa sai com imagem do filme.
Enquanto isso...
..NO TEATRO
O clima entre os atores foi tão amistoso que o encontro não ficará somente no cinema. Camila Pitanga, Gustavo Machado e Gero Camilo já preparam estreia nos palcos. Eles planejam encenar Lá fora vai estar chovendo sempre, com dramaturgia de Gero Camilo. A direção será feita por ele, em parceria com Gustavo Machado.
Assista ao trailer do filme: