Projeto leva cinema a cidades às margens do Rio São Francisco

Tela inflável, cadeiras na rua e pipoca fazem a festa de cidadãos que nunca viram um filme fora do aparelho de TV

por Walter Sebastião 04/04/2012 09:49

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Cristina Horta/EM/D.A Press - 25/8/05
(foto: Cristina Horta/EM/D.A Press - 25/8/05)
O projeto Cinema no rio leva filmes a localidades do Alto, Médio e Baixo São Francisco. Chegou a 50 cidades, cruzando Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe desde 2004. Viaja com tela inflável, aparelhagem de som e 150 cadeiras. Em sua sala de exibição ao ar livre, o público pode ver longas (documentário e ficção) e pequenas fitas de animação. As sessões são abertas com um curta-metragem sobre a comunidade, viabilizado pelo projeto, e show de grupo artístico local.

Dia 20, começa a edição deste ano da mostra ribeirinha, que prossegue até 5 de maio e tem 13 cidades do Norte de Minas em seu roteiro. “Muita gente nunca foi ao cinema. Como já ouviram falar do assunto, a expectativa é enorme quando chegamos às localidades”, conta Inácio Ribeiro Neves, da produtora Cinear, criador e coordenador da atividade.

A proposta é democratizar o acesso à cultura e valorizar manifestações artísticas regionais, explica Inácio, para quem o projeto é mais ação social que propriamente artística. Motivo: grupos menosprezados em suas cidades, depois de participar do evento ganharam novo status junto à própria comunidade. Um momento especial para Inácio foi ver o ator João Miguel se emocionar quando dois meninos, depois de o observarem intensamente durante uma sessão, perguntarem se ele era aquele rapaz do filme.

O Cinema no rio já enfrentou de tudo, sobretudo mau tempo. Enquanto a tela tomava chuva, as cadeiras foram deslocadas para para debaixo da marquise.

“Ainda temos populações completamente excluídas do acesso à cultura, cuja formação se dá pela televisão. Isso leva os mais jovens a desprezarem a arte de raiz e os valores regionais”, lamenta Inácio Ribeiro Neves. “O cinema traz informações novas, ajuda a resgatar história, memória e manifestações importantes”, garante. O projeto exibe fitas nacionais, com direito a pipoca. Evitam-se temas como sexo, violência e consumo de drogas, o que restringe a audiência, de acordo com o coordenador. Também não são priorizadas fitas voltadas para a vida nas metrópoles. “Gostaria de exibir clássicos, como Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos, mas não consegui a liberação do filme”, revela Inácio. Tela O projeto surgiu da paixão de Inácio pelo Rio São Francisco. Tornou-se viável em 2002, quando, em parceria com uma empresa, ele desenvolveu a tela inflável. “Vi, então, que era possível levar cinema para qualquer lugar do território nacional. Tentamos criar um cineclube em cada cidade, mas não deu o resultado esperado”, conta. Motivo: faltou quem tomasse a frente da empreitada e o fato de as cidades serem paupérrimas. Inácio planeja lançar livro com DVD sobre o Velho Chico, a partir da documentação relativa ao projeto. A edição deste ano exibirá fita que surgiu a partir das atividades do Cinema no rio: Girimunho, dos diretores Clarissa Campolina e Helvécio Marins.

(André Fossati/divulgação)
Buritizeiro ganhou cinema ao ar livre em 2010 (foto: (André Fossati/divulgação))
Festivais em Minas

Atualmente, festivais de cinema desempenham o mesmo papel que festivais de música cumpriram nos anos 1960 e 1970, lançando grandes artistas. A opinião é do produtor Cleber Camargo Rodrigues, do Quarto Plano de Cultura e Excelência. Rodrigues é responsável por três festivais mineiros: o de Ipoema, distrito de Itabira, marcado para 15 a 20 de maio; o de São Gonçalo do Rio Abaixo, de 21 a 26 de agosto; e o de Itabira, de 15 a 21 de outubro. Todos contam com cinetendas com capacidade para 300 espectadores. A programação reúne 12 longas, 30 curtas, oficinas, debates e shows.

“Muita gente está fazendo filme sem ter onde mostrá-lo. Essa produção não pode ficar só na internet”, defende Cleber. “Levamos cinema a lugares que nem televisão têm. Então, o evento marca muito as pessoas”, conta o produtor. Por sua importância social, turística e cultural, esses eventos mereciam política especial de estímulo, defende.

De acordo com o produtor, mostras cinematográficas trazem informações novas, valorizam a cultura de cada local e divulgam atrativos turísticos das cidades. “Cinema agrega artes, movimenta o comércio, estimula as pousadas”, conclui, informando que o patrimônio imaterial será tema da segunda edição do Festival de Ipoema.

 

Cinetenda Um dos mais importantes e sofisticados festivais de Belo Horizonte, o Cine-BH é realizado em cinetenda montada na Praça Duque de Caxias, em Santa Tereza. Promovido geralmente em outubro, dura cerca de cinco dias, exibindo longas e curtas para adultos e crianças. Este ano, chegará à sexta edição. O mesmo sistema é usado no festival realizado em Tiradentes (MG), organizado pela Universo Produções.

 



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