Documentário retrata vida e obra de Tom Jobim

Documentário de Nelson Pereira dos Santos, A música segundo Tom Jobim, apresenta a obra do maestro a partir de gravações nacionais e estrangeiras, sem depoimentos ou entrevistas

por Thaís Pacheco 21/01/2012 10:51

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Arquivo Manchete
Frank Sinatra e Tom Jobim ao violão, em cena que faz parte do documentário sobre o compositor (foto: Arquivo Manchete)
Certas histórias não precisam ser contadas. Já foram escritas e estão registradas na memória popular. É o caso do maestro Antonio Carlos Jobim. E a prova é o novo documentário de Nelson Pereira dos Santos, dirigido em parceria com a neta do músico, Dora Jobim. A música segundo Tom Jobim é um documentário de 90 minutos que revisita a obra do artista por meio de gravações nacionais e internacionais de suas músicas. 
Gal Costa, Elizeth Cardoso (acompanhada de João Gilberto ao violão, em sua única aparição), Sarah Vaughan e Nara Leão estão entre os intérpretes. Tem ainda passagens do célebre encontro de Tom com o cantor Frank Sinatra, que gerou álbum antológico. Até Judy Garland cantando Insensatez (How insensitive) aparece na seleção. As escolhas, entre tantos nomes que já gravaram Tom, não foram difíceis. “Ela foi definida pelo material disponível”, resume Nelson. “Havia outros americanos, por exemplo, mas na hora da autorização de uso o herdeiro não respondeu ou então o material não estava bom”, explica o diretor.
Depois de selecionar todo material possível e disponível, chegou a vez de organizar. E a equipe tomou a pouco usual decisão de não recolher depoimentos ou organizar uma narrativa. O filme não tem entrevistados ou legendas. “Na primeira fase do projeto, que fiz com Miúcha, pensamos em um filme de música, com pouca intervenção, para poder viajar o mundo sem produção de legenda”, lembra Nelson. Assista o trecho da entrevista com Nelson Pereira dos Santos
A ideia era dividir em três atos, com os temas preferidos de Tom: Rio de Janeiro, mulheres e natureza. Chico Buarque seria o encarregado da narração. “Mas o problema seria contratar intérpretes, fazer com que cantassem a música, seria uma produção enorme. Isso seria bom para o teatro. Nós já tínhamos um material enorme à disposição, anos de gravações, imagens, sons do Tom Jobim no Brasil, Japão, Estados Unidos, França, Itália, Dinamarca, farto material”, conta o diretor.
Foi assim que Nelson assinou seu primeiro documentário só de música. E, de fato, não há necessidade de mais nada. O próprio Tom já disse, e a frase é lembrada ao fim do filme: “A linguagem musical basta”.
Ainda assim, A música segundo Tom Jobim tem ordem cronológica. “A música está dentro da cronologia, mas a imagem não”, explica Nelson, ao contar que a primeira gravação em vídeo de Garota de Ipanema, feita pelos autores, Tom e Vinicius de Moraes, foi realizada quando ambos já eram mais velhos, “alguns muitos anos depois da época em que eles a criaram”, brinca o diretor.
O filme começa com Orfeu do carnaval, no cinema, a primeira exposição internacional da música do maestro. Segue com Chega de saudade, “que eu sei lá quem levou para os Estados Unidos. Talvez um passarinho ou um urubu, que o Tom gostava de urubu”, sugere Nelson, com bom humor. Desafinado e Samba de uma nota só aparecem três vezes cada, interpretadas por Sílvia Telles, Gerry Mulligan, Ella Fitzgerald, Sammy Davis Jr. e o próprio Tom.
Segue por tocantes interpretações de Maysa (Por causa de você) e Nana Caymmi (Sem você), Garota de Ipanema em italiano, francês, inglês, novas e antigas gravações e arranjos incríveis e grandiosos, com a Orquestra ORF - Sinfonietta (Bebel) em Viena. Mostra ainda como a música de Tom resiste ao tempo, interpretada por Fernanda Takai, Adriana Calcanhoto e Carlinhos Brown.
A cronologia musical e as imagens também se encarregam de apresentar o crescente sucesso do maestro, culminando nas cenas escolhidas para celebrar a consagração. “O final dá essa dimensão do Tom. Aqueles aplausos sem fim e só se vê cara de gringo e o show do Carnegie Hall. Depois aquela multidão no carnaval, com a escola de samba o homenageando. Tom é isso. Tem essa dimensão de música para o mundo, é universal e ao mesmo tempo com uma profunda raiz brasileira”, conclui.
PRODUÇÃO AFETIVA O dinheiro do patrocinador de A música segundo Tom Jobim acabou na metade do filme. Mas Nelson Pereira dos Santos tirou o restante do próprio bolso. “Por sorte, ganhei um prêmio da Fundação Conrado Wessel (2010) e isso salvou o filme, junto com um empréstimo”, conta rindo.
Além de usar recurso próprio, a equipe do documentário também foi criada entre amigos. Entre eles Paulo Jobim, filho de Tom, que já fez trilha de dois filmes de Nelson, e Miúcha, corroteirista da produção. “Ela, o Chico e toda família sempre foram amigos da família de Tom”, justifica Nelson. Toda a parte gráfica e visual foi realizada por Elianne, mãe de Dora Jobim (neta de Tom e codiretora do documentário). “Com certeza ela herdou o gene musical, é cineasta em formação, pois estudou cinema e trabalha nele, tem toda a memória e conhece o material que está no Instituto Tom Jobim”, explica Nelson sobre a neta do maestro.
Quem realizou as pesquisas e trâmites de direitos autorais, de letra, música e imagem, foi Antonio Venâncio, que já esteve em outro documentário de Nelson Pereira dos Santos, Raízes do Brasil. A edição é de Luelane Correa, também da equipe do cineasta.
 
Marcos Vieira/EM/D.A Press
Nelson Pereira dos Santos participou de exibição do documentário em BH, na noite de quinta-feira (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
 
SEGUNDA PARTE
Ainda este ano deve ser lançado outro documentário sobre Tom, realizado pela mesma equipe, mas dessa vez com depoimentos intercalados às músicas. Mas apenas três: de Tereza Jobim, a primeira esposa; de Ana Jobim, segunda esposa; e de Helena Jobim, irmã de Tom. “Helena está numa praia de Florianópolis lembrando Ipanema dos anos 1930; Tereza na serra, rodeada por um jardim enorme cercado de mata atlântica, lembrando Tom e a natureza; e Ana no Jardim Botânicio, que Tom dizia ser a extensão do quintal de sua casa”, antecipa Nelson Pereira dos Santos. A nova produção foi codirigida por Marco Altberg, também amigo da família Jobim. Ainda sem data marcada, o filme A luz de Tom já está pronto, aguardando lançamento. 
A música segundo Tom Jobim
Em cartaz no Cinemark Diamond Mall, 12h10; 14h10; 16h20; 18h30 e 20h40 


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