Folia transpõe calendário e colore a quarta-feira de Cinzas em BH

Blocos Manjericão e Tá Redondo alegram os foliões no último dia de carnaval na capital mineira

por Flávia Ayer 14/02/2018 13:56
Jair Amaral/EM/D.A Press
As fantasias, com folhas de maconha desenhadas, abrem alas para um debate que vai muito além do carnaval (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press )
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Bloco Manjericão alegra último dia de carnaval na capital mineira (foto: Jair Amaral/EM/DA Press )

O samba prega que é “pra tudo se acabar na quarta-feira”. A outra canção diz que "todo carnaval tem seu fim". Mas, no festa momesca de BH, não é bem assim, não. A folia transpõe o calendário e colore a quarta-feira de cinzas de glitter, confete e serpentina. Blocos se multiplicam pela cidade para celebrar o carnaval.

Cumprindo a tradição, às 4h20, o Bloco do Manjericão se concentrou para ver o sol raiar e se despedir da folia. Um dos precursores do carnaval de BH, o Manjericão nasceu em 2011 e esbanja irreverência. Cada ano em um endereço, desta vez, eles partiram de frente de um motel, na Avenida José Cândido da Silveira. "De onde veio esse pessoal?", perguntava curiosa Silvia Moreira, funcionária do estabelecimento.

Os foliões estão sempre de verde, em referência ao manjericão, que, na verdade, é outra planta. O bloco defende a legalização da maconha.

Um dos primeiros integrantes, o poeta Rafael Fares, de 36, reforça que o Manjericão surgiu de forma espontânea e se mantém assim. "Manjericão é uma erva natural. Amamos pesto e macarrão. Gostaríamos que todo mundo plantasse mas não precisasse comprar", comenta Fares, em referência ao propósito do bloco.

As fantasias, com folhas da erva desenhadas, abrem alas para um debate que vai muito além do carnaval.

"Queremos trazer a comunidade para mais perto do bloco. A legalização permite que o menino da periferia tenha outra escolha na vida que não ser traficante. Ele pode escolher a profissão que quiser", afirma o gestor do projeto Lá na Favelinha, Kdu dos Anjos, que bate ponto no Manjericão há quatro anos. O projeto social trabalha arte e cultura no Aglomerado da Serra, na Região Centro-Sul de BH.

A produtora Luiza Freitas, de 24 anos, caprichou na fantasia para o Manjericão e produziu adereço de cabeça, cheio de desenhos da folha da maconha. "Não é uma causa própria, mas tem meu apoio. Acredito que a criminalização da maconha só traz coisas ruins. Já passou da hora do Brasil legalizar", diz.

No Manjericão, cada um chega com um instrumento e a bateria se forma espontaneamente, sem ensaios. Como se fosse primeiro dia de folia, todos cantam  o hino. "Manjericão é muito bom. Manjericão é natural. Manjericão para abrir o apetite. Não vou comprar Manjericão, eu vou plantar no meu jardim."

A BHTrans estimou pouco mais de 1 mil pessoas no Manjericão. Sempre com o bom humor típico, foliões aproveitaram para se exercitar nos aparelhos de ginástica da via – e no ritmo da bateria, é claro. "Tomei um café com açúcar e agora tenho que queimar", brinca a designer de moda Bianca Poppi, de 26 anos.

 No ano passado, o bloco do Manjericão protagonizou um dos momentos épicos do carnaval, ao dedicar uma serenata para um cachorro na janela de uma casa. “Au au au au...”, cantaram os foliões.

Trio elétrico
Bloco Tá redondo, tá junto estreou no carnaval de BH. Ele se concentrou na Avenida dos Andradas, próximo da Praça da Estação. Ele é  fruto de parceria entre o Quando come se lambuza e a Skol. A ideia é aproveitar ao máximo o carnaval, esticando para a "morta" quarta-feira de Cinzas.

"Tocamos música pra pular brasileira", afirma o produtor do Quando come se lambuza, Cristiano Ottoni. O desfile, que acabou de começar, contará com participação especial de integrantes dos blocos Funk You Alô, Abacaxi e de vocalista do Então, Brilha, Rubens Aredes.

"A ideia é celebrar o sucesso do carnaval", comenta Ottoni. Como é o primeiro ano, não havia expectativa de público. O estudante Júlio Praxedes, de 27, veio do Espírito Santo para o carnaval de BH e quer voltar com a sensação de que não perdeu nada da festa.

"Quero aproveitar ao máximo. O carnaval de BH me surpreendeu muito pela diversidade. Foi um dos melhores da minha vida", afirma.

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