Três dramaturgos se unem para produzir uma história de Carnaval

Ronaldo Ciambroni, Sérgio Abritta e Júnior Souza assinam 'A mulher do carro alegórico', publicada nesta segunda-feira (12)

por Helvécio Carlos 12/02/2018 11:13

Reprodução/Facebook
(foto: Reprodução/Facebook)

Três dramaturgos – Ronaldo Ciambroni, autor do grande sucesso Acredite, um espírito baixou em mim, Sérgio Abritta, de 10 maneiras incríveis de destruir seu casamento, e Júnior Souza (Certos rapazes) – formam o trio de autores que assina a segunda história da série de carnaval publicada pela coluna HIT neste 2018. A brincadeira começou no domingo (11), com texto de Sabrina Abreu, Cris Guerra e Fernanda Mello. Todos seguiram à risca a única exigência, que era cumprir o prazo de 24 horas para compor cada trecho do texto. 


A mulher do carro alegórico
Cheguei na cidade tonto e deslumbrado com tudo o que eu estava vendo. O movimento enlouquecedor dos automóveis, gente para todos os lados, e eu precisava achar a entrada que dava acesso à concentração onde se encontrava a escola de samba em que eu ia desfilar. Era a minha primeira vez na avenida. A minha fantasia, até hoje não sei o que representava. Era uma túnica com um buraco atrás, que me deixava mais tímido do que já sou, porque as minhas nádegas ficavam expostas.

Depois de muito vaiivém, cheguei ao meu bloco – estava mais perto do que nunca de realizar o sonho de viver intensamente o carnaval. Depois de um interminável empurra-empurra, lá estava eu, repleto de emoção, me sentindo numa avalanche de gente feliz. Foi quando tudo começou...


Lá da avenida, observei o carro alegórico que ia na frente da minha ala. Era um carro muito alto, com vários andares de enfeite e pessoas com muitos badulaques na cabeça. Quando a minha vista chegou ao topo do carro, tive uma visão que me deixou extasiado – era uma mulher totalmente nua, talvez fosse Eva ou qualquer outra visão do paraíso. Eu não podia ficar parado no meio da avenida, pois a escola tinha que evoluir... Mas como chegar lá em cima? Como conhecer aquela mulher deslumbrante, alta, carregando apenas uma folha para impedir a nudez total? Eu tinha apenas 30 minutos para alcançar o final do desfile... (Ronaldo Ciambroni)


Então, corri. Corri desesperadamente, como jamais havia corrido em qualquer outro dia da minha vida. Corri sambando, pulando, desfilando, numa performance maluca, que arrancou aplausos da plateia e a indignação dos fiscais de ala, que tentaram inutilmente me alcançar para pôr fim àquele samba inconsequente. Chegando ao pé do carro, verifiquei, com um breve passar de olhos, que não só a mulher no alto, mas todos os seus integrantes estavam nus, cobertos por uma tinta vermelha e verde e pela pequena folha, que escondia as genitálias. Sem muito pensar, arranquei feliz a túnica com um buraco atrás e me expus inteiro, sem uma única folha para tapar qualquer parte do meu corpo. E me senti liberto. Foi como se eu tivesse nascido ali, naquele momento e, de repente, crescesse 30 e poucos anos em 20 e poucos segundos. Um big bang, uma explosão intergaláctica, uma relação orgiástica com centenas de pessoas ao mesmo tempo,
 olhos e bocas abertos vendo meu completo desnudar. Comecei a subida bem devagar, como um bailarino acrobata, enlaçando e rodeando cada corpo, em movimentos sinuosos, que, estranhamente, me pareceram cuidadosamente ensaiados para a ocasião. Meus partners começaram a colaborar com a dança, a princípio timidamente e, com o passar do tempo, escancaradamente, como se tudo tivesse sido objeto de uma cuidadosa preparação. A plateia urrava – ou pelo menos eu achava que ela urrava – enquanto eu subia indecentemente um a um dos vários níveis do carro, agora abraçando, beijando, insinuando, acariciando, às vezes candidamente, às vezes despudoradamente, seus componentes, que acabaram também se entregando a uma intensa e poderosa interação lasciva com o maior dos libertinos: eu, um ser pacato e introvertido, agora totalmente exposto ao vento, festejado e adorado pela multidão embevecida, que assistia à minha vertiginosa ascensão até o céu, onde estava ela – que ainda não me notara. Minha Eva, Pandora enlouquecida abrindo a caixa de todas as delícias. “Eu te adoro” – gritei, enquanto ela, virando-se, me fulminava de paixão, devorando-me com um olhar de mundo que acabasse naquele instante, exatamente como o refrão que a escola não parava de cantar: “Se o mundo acabar agora, morro bem feliz, porque só choro de alegria!” (Sérgio Abrita)


Como chegou a mim aquele arrebatamento, jamais saberia dizer. Sei que agora estava do lado dela, sambando, cantando o enredo com um sorriso abre-alas, todo caprichado nas evoluções, que me davam a certeza de que levaria nota 10 em todos os quesitos. Estava praticamente nu, mas, de repente, me via fantasiado de Hércules, defronte o leão da Nemeia, pronto para vencer uma epopeia carnavalesca quase mitológica. E cantar a letra do samba contribuía para aumentar essa força, o enredo falava sobre as divindades do Olimpo, e já nem me lembrava das transgressões que tinha cometido para chegar até ali. Quando o puxador rompeu mais uma vez com o refrão, meu olhar se fixou no dela e tudo se fez num só timbre, cara a cara, olho no olho. E foi na evolução seguinte que avistei na lateral de sua costela direita uma tatuagem de sereia que teimava em resistir ao grude da tinta vermelha, mas já sucumbindo ao brotar incessante do seu suor. Agora, não restavam mais dúvidas. Eu a conhecia. Só podia ser ela. Quando o destino se afeiçoa à gente não se faz de rogado e tinha colocado diante de mim aquela mulher com quem tinha vivido um romance de carnaval em anos passados. Minha pequena grande Eva também me reconhecera e bastou uma piscadela para pôr o meu coração em festa! Quando este Adão se aproximou para sambar com as mãos em sua cintura, acabou experimentando o peso de um colosso de mãos lhe tomando pelo braço. Sim, eu estava detido. Aos prantos, vi a minha nudez sendo coberta e me sentindo derrotado pelo leão da Nemeia, sendo arrastado dali sob os gritos de uma plateia solidária. Por favor, se alguém souber de minha musa do carnaval me avise em minha rede social: @betodohospicio. (Júnior de Sousa)

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