Construir o maior tĂșnel imerso do mundo nĂŁo exige escavar o fundo do oceano, mas sim fabricar peças maiores que dois campos de futebol em terra e afundĂĄ-las propositalmente com precisĂŁo milimĂ©trica.
Por que peças de concreto de 73.500 toneladas flutuam antes de ir para o fundo do mar?
VocĂȘ jĂĄ deve ter visto como uma caixa de plĂĄstico vazia e fechada flutua na ĂĄgua mesmo sendo pesada. Ao selar as extremidades do bloco de concreto com comportas de aço temporĂĄrias, o ar preso no interior gera um empuxo maior que o peso da estrutura.
Esse princĂpio da hidrostĂĄtica transforma o monĂłlito de concreto de alta resistĂȘncia em uma embarcação temporĂĄria. Rebocadores guiam o bloco atĂ© o local exato, onde pontĂ”es de imersĂŁo injetam ĂĄgua nos tanques internos para quebrar a flutuabilidade e iniciar o afundamento controlado por guinchos de alta precisĂŁo. Assim, a estrutura desce sem colidir com as paredes do leito.

Qual Ă© o tamanho e a capacidade dos elementos do tĂșnel submerso?
A engenharia do projeto exige a fabricação e instalação de 89 elementos pré-moldados de concreto, divididos entre 79 seçÔes padrão e 10 seçÔes especiais equipadas com galerias técnicas subterrùneas.
Comprimento e largura de cada elemento padrĂŁo: mede 217 metros de extensĂŁo por 42 metros de largura e 10 metros de altura, superando a ĂĄrea de dois campos de futebol profissionais alinhados.
- Peso total em terra: alcança 73.500 toneladas métricas de concreto armado e aço estrutural, equivalente ao peso de quase 200 aviÔes comerciais de grande porte.
- Profundidade de assentamento: o terceiro elemento instalado no projeto atingiu o ponto mais profundo da calha até agora, posicionado em uma vala escavada de até 40 metros de profundidade.
- Galerias internas separadas: cada bloco abriga quatro tĂșneis paralelos, sendo dois para rodovia de pista dupla e dois para ferrovias de alta velocidade.
- Proteção de leito e cobertura: coberto por uma camada espessa de rocha de proteção contra colisĂŁo de Ăąncoras e desgaste de correntes marĂtimas, garantindo vida Ăștil superior a 120 anos.
Como a estrutura Ă© encaixada e vedada embaixo da ĂĄgua?
Quando o novo bloco se aproxima da seção jĂĄ instalada no fundo do oceano, macacos hidrĂĄulicos internos puxam as duas peças. Uma junta externa de borracha flexĂvel, chamada junta Gina, se comprime contra a parede de concreto e faz o primeiro vedamento temporĂĄrio.
Em seguida, bombas retiram toda a ĂĄgua presa no pequeno espaço entre as duas comportas temporĂĄrias de aço. A ausĂȘncia de ĂĄgua cria um vĂĄcuo interno, fazendo com que a imensa pressĂŁo do mar empurre o novo elemento contra o anterior com uma força de milhares de toneladas, comprimindo a borracha e travando a conexĂŁo de forma estanque e definitiva.
Como a engenharia executa a imersĂŁo de precisĂŁo no fundo do mar?
A descida de uma estrutura desse porte exige janelas meteorolĂłgicas favorĂĄveis no Mar BĂĄltico, impedindo que correntes marĂtimas desalinhem os guinchos dos pontĂ”es. A embarcação especializada IVY utiliza sensores acĂșsticos e sistemas a laser para posicionar a peça na vala escavada.
ApĂłs o assentamento e alinhamento, o consĂłrcio executor DEME Group e a estatal Femern A/S iniciam o preenchimento das laterais do elemento com cascalho e pedras pesadas, travando o bloco contra qualquer deslocamento futuro.
Abaixo, um vĂdeo do canal Femern A/S demonstra a operação de imersĂŁo e conexĂŁo no fundo do oceano:
Quais normas internacionais garantem a segurança de tĂșneis imersos?
Grandes obras de infraestrutura submarina na Europa atendem Ă s diretrizes rĂgidas do Eurocode 2 (EN 1992) para cĂĄlculo e durabilidade de estruturas de concreto, alĂ©m dos padrĂ”es estabelecidos pela ITA-AITES (Associação Internacional de TĂșneis e do Espaço SubterrĂąneo).
Essas normas exigem anålises preventivas contra o ataque de cloretos presentes na ågua salgada, prevenindo a corrosão precoce das armaduras metålicas do concreto e assegurando a integridade mecùnica por mais de um século.

Quando a engenharia precisa de um especialista geotĂ©cnico e de estruturas marĂtimas?
A concepção e execução de fundaçÔes em solo submarino exigem acompanhamento contĂnuo de um engenheiro geotĂ©cnico e de um engenheiro estrutural marĂtimo. Mapeamentos do leito oceĂąnico atravĂ©s de sondagens e testes CPT sĂŁo cruciais para evitar recalques no solo encharcado que poderiam comprometer a vedação.
Não é um processo executado sem simulaçÔes computacionais complexas de dinùmica de fluidos e mecùnica dos solos, pois pequenas variaçÔes na cama de apoio causativo poderiam criar tensÔes capazes de trancar a estrutura sob alta pressão hidråulica.
Contexto importante: Este artigo Ă© informativo. Para projetos de fundação e contenção submersa locais, recomenda-se avaliação de engenheiro geotĂ©cnico e consultor de estruturas marĂtimas, especialmente em cenĂĄrios com risco de infiltração, assentamento de solo molhado ou fadiga de concreto.

