Sinais de sofrimento nem sempre são os que você espera, diz psicólogo
Psicólogo Rodrigo Toledo explica como o sofrimento emocional aparece de formas diferentes em homens, mulheres e pessoas LGBTQIA+, muitas vezes sem ser percebido
Nem sempre quem está sofrendo demonstra isso da forma que a gente imagina. Segundo o psicólogo Rodrigo Toledo, psicólogo clínico com atuação em São Paulo, pós-graduado em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, reconhecer o sofrimento emocional exige prestar atenção a sinais que variam bastante de pessoa para pessoa, e que nem sempre batem com o que se espera de alguém em crise. Isso vale para amigos, familiares e colegas de trabalho que muitas vezes só percebem o sofrimento quando ele já está bem avançado.
Como o sofrimento aparece em homens
Entre os homens, por exemplo, o sofrimento muitas vezes não vem por meio da fala direta. Aparece mais em irritabilidade, isolamento, abuso de álcool e outras drogas ou dificuldade de pedir ajuda, sinais que costumam ser lidos como “estresse” ou “mau humor” antes de serem entendidos como pedido de socorro.
No Brasil, as taxas de mortalidade por suicídio são consideravelmente maiores entre homens, o que também está ligado a modelos de masculinidade que tratam vulnerabilidade como fraqueza e fazem muitos carregarem o sofrimento sozinhos, sem buscar apoio até que a situação se agrave.
E em mulheres e pessoas LGBTQIA+
Já entre as mulheres, segundo Rodrigo Toledo, é preciso estar atento a sobrecarga emocional e de cuidado, relações afetivas difíceis, maternidade (ou a escolha de não maternar), violência, abuso, desigualdade, ansiedade, depressão e esgotamento. Não como uma lista automática de causas, mas como experiências que podem atravessar profundamente a saúde mental e que costumam se acumular silenciosamente antes de aparecer como sofrimento visível.
Para pessoas LGBTQIA+, população que também faz parte da atuação clínica do psicólogo, entram em cena fatores específicos: rejeição familiar, violência, discriminação, solidão, hipervigilância, medo da exposição, pressão estética, dificuldade de pertencimento e conflitos ligados ao corpo, à sexualidade e ao envelhecimento. Muitos desses sinais também passam despercebidos por quem está de fora.
“Não adianta dizer que precisamos falar sobre suicídio se a campanha não suporta ouvir as diferentes formas pelas quais o sofrimento aparece. Nem todo mundo sofre do mesmo jeito, nem pelas mesmas razões”, resume Rodrigo Toledo.
Por que isso importa nos números
A dimensão do problema reforça por que reconhecer esses sinais faz diferença. Segundo dados da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e do CFM (Conselho Federal de Medicina), o Brasil registra cerca de 14 mil suicídios por ano, mais de 38 casos por dia. Boletins do Ministério da Saúde, com base no SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade) do DATASUS, apontam entre 14.000 e 15.500 óbitos anuais, com média de 38 a 42 mortes por dia, números que tornam ainda mais importante aprender a notar sinais que nem sempre são óbvios.
Prestar atenção a esses sinais, mesmo quando eles não se parecem com o que se espera de alguém sofrendo, é um passo tão importante quanto falar sobre o tema, e pode ser o que diferencia um pedido de ajuda percebido a tempo de um que passa despercebido.
Vale lembrar que perceber esses sinais não significa fazer um diagnóstico por conta própria. O papel de quem está por perto é notar mudanças de comportamento e incentivar a busca por acompanhamento profissional, não tentar resolver o sofrimento sozinho.
A recomendação de Rodrigo Toledo é observar mudanças de padrão ao longo do tempo, como alguém que passou a evitar contato, perdeu interesse em atividades que gostava ou passou a falar sobre desistir das coisas, mesmo que de forma indireta, e não esperar uma fala explícita para se aproximar e oferecer apoio.
Se você ou alguém que você conhece precisa de apoio, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende gratuitamente pelo telefone 188, todos os dias, 24 horas.