- O que é: Medicamentos anticolinérgicos, usados para bexiga hiperativa e alergias, foram associados a um risco aumentado de demência em estudo com 58.769 pacientes.
- Principal benefício: Conhecer essa associação permite ao médico e ao paciente avaliar riscos e benefícios antes de iniciar tratamentos prolongados.
- Dica essencial: Nunca suspenda um medicamento por conta própria: a associação é estatística, não causal, e a decisão cabe ao profissional de saúde.
Tomar um comprimido para aliviar a bexiga hiperativa ou controlar uma crise alérgica parece inofensivo. Mas um estudo de grande escala acendeu um alerta importante: certos medicamentos anticolinérgicos, amplamente prescritos para essas condições, foram associados a um aumento significativo nos diagnósticos de demência em pacientes mais velhos. A descoberta não é motivo para pânico, mas exige atenção e conversa com o médico.
Como os anticolinérgicos bloqueiam a acetilcolina e afetam o cérebro a longo prazo
Os medicamentos anticolinérgicos agem bloqueando a ação da acetilcolina, um neurotransmissor essencial para a contração muscular, a produção de saliva e, principalmente, para a memória e o aprendizado. Quando uma pessoa toma um remédio para bexiga hiperativa como a oxibutinina, a substância relaxa o músculo da bexiga, mas também atravessa a barreira hematoencefálica e reduz a atividade colinérgica no cérebro.
O cérebro depende da acetilcolina para formar novas memórias e manter a atenção. Com o bloqueio prolongado desse neurotransmissor, as funções cognitivas podem ser prejudicadas de forma progressiva. O risco é maior em idosos, que já apresentam uma reserva cognitiva reduzida e são mais vulneráveis aos efeitos colaterais neurológicos desses fármacos.

Oxibutinina, paroxetina e anti-histamínicos: os medicamentos que o estudo associou a mais diagnósticos de demência
O estudo que acendeu o alerta foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, e incluiu uma análise robusta de prontuários médicos. Os fármacos com maior carga anticolinérgica foram os que apresentaram a associação mais forte com o declínio cognitivo. Entre eles, destacam-se medicamentos de uso comum em consultórios brasileiros.
- Oxibutinina e tolterodina: Usados para bexiga hiperativa e incontinência urinária, estão entre os anticolinérgicos mais prescritos. O estudo os associou a um risco até 30% maior de demência com uso prolongado.
- Anti-histimínicos de primeira geração: Medicamentos como a difenidramina e a hidroxizina, comuns em antialérgicos e indutores de sono de venda livre, têm forte ação anticolinérgica central.
- Antidepressivos tricíclicos e paroxetina: A amitriptilina, a nortriptilina e a paroxetina também foram identificadas como medicamentos de risco, especialmente em pacientes acima de 65 anos.
Como reduzir o risco sem abandonar o tratamento: conversa médica e alternativas com menor ação cerebral
A decisão de continuar ou trocar um medicamento anticolinérgico deve ser tomada em conjunto com o médico, pesando o benefício do tratamento contra o risco cognitivo. Em muitos casos, existem alternativas com menor penetração no sistema nervoso central que podem ser consideradas.
- Para bexiga hiperativa, pergunte ao médico sobre a mirabegrona, um medicamento que age por mecanismo diferente e não tem ação anticolinérgica significativa.
- Para alergias, prefira anti-histamínicos de segunda geração, como loratadina, desloratadina ou fexofenadina, que praticamente não cruzam a barreira hematoencefálica.
- Para depressão ou ansiedade, evite a paroxetina em idosos e discuta opções como sertralina ou escitalopram, que têm perfil anticolinérgico muito menor.
- Revise periodicamente com o médico ou geriatra a lista completa de medicamentos que você toma, incluindo os de venda livre e os fitoterápicos.

O estudo com 58.769 pacientes realmente prova que esses remédios causam demência?
Não. O estudo publicado no periódico JAMA Internal Medicine, em 2019, conduzido por pesquisadores da Universidade de Nottingham, encontrou uma associação observacional forte, mas não uma relação de causa e efeito. Os pacientes que usaram anticolinérgicos com alta carga por mais de um ano tiveram um risco cerca de 50% maior de desenvolver demência em comparação com aqueles que não usaram esses medicamentos. No entanto, os próprios autores alertam que outros fatores — como as condições de saúde que levaram à prescrição — podem ter contribuído para os resultados.
O que torna o estudo particularmente relevante é o tamanho da amostra (58.769 pacientes com demência e 225.574 controles) e o rigor metodológico. Os pesquisadores ajustaram os dados para idade, sexo, índice de massa corporal, tabagismo, consumo de álcool e outras condições médicas. Mesmo após esses ajustes, a associação permaneceu significativa. Isso não significa que o remédio “causa” demência, mas que o risco é real o suficiente para que médicos e pacientes discutam alternativas, especialmente em tratamentos prolongados.
A pesquisa da Universidade de Nottingham acompanhou quase 59 mil pacientes e encontrou uma associação significativa entre anticolinérgicos fortes e diagnósticos de demência.
O risco mais evidente apareceu em pacientes que usaram anticolinérgicos fortes por períodos superiores a um ano, com efeito cumulativo ao longo do tempo.
A associação é estatística, não prova causalidade. A suspensão abrupta de anticolinérgicos pode causar síndrome de rebote e piorar a condição tratada.
A cada quanto tempo revisar a lista de medicamentos com o médico para proteger o cérebro
Pacientes com mais de 60 anos que usam medicamentos anticolinérgicos de forma contínua devem revisar sua lista de fármacos com o médico ou geriatra pelo menos uma vez por ano. Se houver queixas de memória, confusão mental ou queda de atenção, essa revisão deve ser antecipada. O ideal é que o profissional avalie se o benefício do medicamento ainda supera o risco potencial e se existem alternativas com menor impacto cognitivo disponíveis no mercado brasileiro.
A descoberta não é uma sentença, mas um convite à atenção. Se você ou alguém da sua família usa medicamentos para bexiga, alergia ou antidepressivos há mais de um ano, leve essa informação ao seu médico. Pergunte sobre alternativas, revise a real necessidade do tratamento e mantenha-se informado. O cérebro agradece quando a gente cuida dele com a mesma seriedade com que trata os outros órgãos.
