Indústria das novelas se esforça para encontrar novos caminhos e fisgar o público

Idas e vindas do tempo, por exemplo, recurso utilizado com frequência em anos recentes, muitas vezes complicam a narração da história e confundem o telespectador

por Fernanda Guerra 22/11/2016 09:24

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Estevam Avellar/Globo/Divulgação
Para a próxima novela das 23h, Irandhir Santos irá dividir seu personagem com Jesuíta Barbosa. (foto: Estevam Avellar/Globo/Divulgação)

A era de seriados e de serviços de streaming pressiona a indústria de novelas, produto de maior sucesso da televisão brasileira, a encontrar novos caminhos para fisgar o público. A procura esbarra em alguns aspectos, como audiência, inovação temática e aparição de novos recursos tecnológicos. Principal realizadora de conteúdo do gênero, a Globo tem se desdobrado para fidelizar o telespectador a cada lançamento. No entanto, por mais que apareçam obras com formatos ousados, como foi o caso de A regra do jogo, a emissora vem repetindo um recurso constantemente. Das 10 últimas novelas das 21h, sete construíram a história a partir da mudança de fases.

A sequência de novelas com fase – formato constante na teledramaturgia brasileira – promete não parar. Os pernambucanos Irandhir Santos (Meu pedacinho de chãoVelho Chico) e Jesuíta Barbosa (JustiçaO rebu) foram escalados para viver o mesmo personagem em Jogo da memória, prevista para a faixa das 23h, da Globo. Escrita por Licia Manzo e com direção de José Luiz Villamarim, a obra terá 90 capítulos – a maior duração de folhetins já exibidos no horário – e deve estrear em abril de 2017. A produção narrará a história de três gerações de uma mesma família, dividida por décadas: 1940, 1960 e 2000.

A transição da época é abordada de diferentes maneiras. Na maioria, o tempo é o fio condutor das histórias, que abrangem desde amores impossíveis, passando por desencontros familiares, situações mal resolvidas e sentimentos de ódio e vingança. ''É uma forma de oxigenar o gênero, já que em geral fases distintas têm elencos quase totalmente diferentes também, e de desenvolver os conflitos das personagens num período maior de tempo'', analisa o pesquisador Fábio Costa, autor de Novelas: a obra aberta e seus problemas.

Apesar de constantes, é possível perceber vantagens e desvantagens nessa forma de narrar a história. Entre os pontos positivos, a mudança de fases permite uma maior imersão no enredo e oferece um frescor na trama, a partir de novidades de elenco, cenografia ou figurinos. A escalação de atores pode ser explorada de forma positiva, como a participação de atores bem conceituados e sem agenda disponível para uma novela inteira, ou negativa, em caso da falta de verossimilhança – da idade a parentescos.


A escalação de atores da primeira fase agradou o público e crítica especializada. Ousada em diferentes aspectos – da fotografia contemplativa à crítica social –, Velho Chico assumiu um risco: a mudança de época ocorreu quando a novela já estava avançada. O salto de 30 anos ocorreu a partir do capítulo 26. ''A audiência já estava afeiçoada a Rodrigo Santoro, Carol Castro, Rodrigo Lombardi, Renato Góes… As redes sociais registraram diversos comentários de telespectadores saudosos aos intérpretes iniciais'', exemplificou Costa. Há o risco de o público não se agradar com a primeira fase, e isso dificulta a identificação com a sequência da trama. Em família, por exemplo, teve os capítulos iniciais acelerados para que a história alcançasse os dias atuais, em razão da baixa audiência.

Em cinco capítulos, a primeira fase de A lei do amor, atual novela das 21h, narrou a história de amor impossível entre Helô (Isabelle Drummond/Cláudia Abreu) e Pedro (Chay Suede/Reynaldo Gianecchini). O recurso foi utilizado para contextualizar o romance. Separados na juventude, eles se reencontram 20 anos depois. Para além da trama, o problema enfrentado pela obra de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari é semelhante ao observado na novela Em família (2014): a inverossimilhança da passagem de tempo em alguns personagens.

Na obra atual, o ator Thiago Martins, de 28 anos, e José Mayer, de 67, compartilharam o mesmo Tião, só que em diferentes fases. Já Vera Holtz, de 63, interpretou Magnólia nos dois momentos. A idade foi definida com a caracterização de peruca e maquiagem, na tentativa de rejuvenescer a atriz em 20 anos. ''Isso realmente confunde quem questiona quantos anos se passaram entre cada uma das passagens-chave da trama'', pontua o pesquisador.

Erro de escalação

O conflito de idades foi um nítido problema de Em família, assinada por Manoel Carlos. Na mudança de fases, a atriz Ana Beatriz Nogueira, de 48 anos, interpretava a mãe de Gabriel Braga Nunes, de 44, enquanto Natália do Valle, de 63 anos, vivia a mãe de Júlia Lemmertz, de 53, e Vanessa Gerbelli, de 43, a tia de Júlia. O deslize rendeu inúmeras críticas por parte dos telespectadores. Na época, o elenco defendeu a escalação ao comparar com o teatro – as idades não prejudicam recepção e credibilidade. ''Isso é teatro. Play! Nós estamos brincando de ser alguém. Já fui mãe do Wagner Moura em JK (2006), do Selton Mello em Meu nome não é Johnny (2008)'', disse Júlia, em entrevista ao jornal O Globo, na época.

Agenda

Há atores que não participam de uma novela inteira por incompatibilidade de agenda, devido ao extenso período de gravações. Com exceção dos folhetins das 23h, as novelas brasileiras superam a marca de 100 capítulos. O ator Rodrigo Santoro, dedicado à carreira internacional, é um caso recente. Em 2016, ele interpretou Afrânio, posteriormente vivido por Antônio Fagundes, ao longo de 25 capítulos da primeira fase de Velho Chico, assinada por Benedito Ruy Barbosa. A experiência marcou o retorno do ator fluminense ao gênero após 12 anos. Isso só se tornou possível devido à brecha de gravações do seriado Westworld, exibido aos domingos, às 22h (horário do Recife), na HBO. Na mesma época, ele gravou o remake de Ben-hur.

Duas novelas em uma

Das tramas recentes, Além do tempo, de Elizabeth Jhin, foi a mais ousada na forma de explorar a mudança de fases. Investiu no ''combo'' de ''duas novelas em uma''. Sem alteração de elenco – os atores voltaram para viver diferentes personagens –, o folhetim foi dividido entre 150 anos. A transição da época ocorreu quando a trama estava bastante avançada, com narrativa e personagens consolidados. O capítulo divisor das duas fases foi até comparado a um final de uma novela, com ampla repercussão nas redes sociais e boa audiência. ''Com isso planejado desde o início pode-se pavimentar o caminho para que essa mudança desejada não seja traumática'', analisa Costa. Com 459 capítulos, a novela Os imigrantes (1981/1982), de Benedito Ruy Barbosa, só mudou a fase após um mês.

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