Aguinaldo Silva lança livro sobre sua passagem nas redações de jornal

Em 'Turno da noite - Memórias de um ex-repórter de polícia', autor de novela fala de como o trabalho de jornalista ajudou na criação de histórias para a TV

por Nahima Maciel 22/08/2016 08:34

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Guilherme Leporace/Agencia O Globo
(foto: Guilherme Leporace/Agencia O Globo)
Antes de ser um dos autores de novela mais conhecidos da televisão, Aguinaldo Silva foi escritor, redator, repórter de polícia e editor de jornal. Nas redações dos veículos Última Hora e O Globo ele aprendeu a ser rápido, disciplinado, focado e preciso. Também teve contato com histórias bizarras que mais tarde alimentariam boa parte da ficção produzida para a televisão brasileira. Cobrir polícia exige sangue-frio, coragem e habilidade, três qualidades que ajudaram o escritor, nascido em Recife há 73 anos, a se safar de situações perigosas e do bloqueio criativo. É sobre esse período como repórter dos maiores jornais da imprensa brasileira que Aguinaldo fala em Turno da noite – Memórias de um ex-repórter de polícia, recém-lançado pela Objetiva.

Turno da noite começa com uma introdução na qual o autor relembra a passagem pelas redações. Em seguida, vêm as reproduções das reportagens. São textos interessantes, mas é no relato sobre a própria experiência que está a parte mais divertida do livro. A experiência como repórter policial foi muito útil nas novelas. Aguinaldo garante nunca ter sofrido bloqueio criativo graças à disciplina necessária para dar conta do trabalho diário nas redações. “Você tem uma disciplina férrea porque recebe uma pauta por dia e tem que fazer, cumprir horário e tudo. Levei muito isso para o novelista. Às vezes, meus colegas novelistas dizem: ‘Estou deprimido, não sei se vou conseguir trabalhar hoje’. Não tenho isso”, garante. Abaixo, o autor fala sobre o livro, a televisão e o futuro das novelas.

 

Você gostava de ser repórter policial?
Eu gostava. Foi uma coisa inesperada para mim. Nunca pensei em ser repórter policial, foi uma ideia do Evandro Carlos de Andrade, que era um jornalista fantástico. Depois que comecei a fazer, gostei muito. Aquilo contribuiu muito para o meu crescimento como escritor, inclusive de novelas. Me deu uma experiência de vida que, em geral, os novelistas não têm.

E o que você viveu naquela época está nas novelas?
De uma maneira ou de outra, uso as histórias daquela época. O que uso realmente é uma coisa que o jornalismo me deu. No jornalismo, a gente precisa ser safo e rápido, você não tem tempo para muito firula, você tem uma disciplina férrea porque recebe uma pauta por dia e tem que cumpri-la. Levei muito isso para o novelista.

Como leva isso para as novelas?
Você não pode perder muito tempo com problemas alheios à novela. Mas não é só isso. Levo também para a novela um certo estilo, um certo olhar sobre a realidade que aplico às minhas histórias. Sempre digo que minhas novelas são grandes reportagens. Muito longas, mas são.

Você fala muito no livro sobre as mudanças na maneira da fazer jornalismo. Qual foi a maior mudança?
O que mais mudou é que o jornal ficou mais burocrático. Hoje em dia, o jornal é mais empresa. Mas o que mudou mesmo é o fato de que o jornal não é mais o veículo principal de informação para o leitor. O veículo principal é a internet e isso provoca uma crise grande no jornalismo. Quando saí do jornal, levei um choque porque só sabia o que tinha acontecido no dia seguinte, quando o jornal chegava na minha casa e eu ia ler. Como jornalista, já saía da redação sabendo tudo que ia ser publicado. Hoje, isso não acontece mais: quando as pessoas acordam e pegam o jornal, elas já leram todas as notícias na internet. O que ganhou relevância hoje, para mim, foram os colunistas, as pessoas que têm opinião, escrevem em colunas, em artigos, são as que vou procurar primeiro. Porque a notícia, já sei qual é.

Como você se informa hoje?
Entro na internet várias vezes por dia nos jornais on-line. Ainda me informo nos jornais, só que on-line. Sei que daqui a uma hora, o que li agora estará alterado pelas novidades em relação ao assunto. Mas tenho o hábito físico de ler o jornal. É a primeira coisa que faço quando acordo. Mas me preocupo mais em ler as colunas e os articulistas.

Você acha possível se informar pelas redes sociais?
Com alguma reserva, porque nas redes sociais você tem que filtrar muita coisa. Algumas pessoas leem as três primeiras linhas da notícia e já formulam opinião. E às vezes elas se enganam e entendem exatamente ao contrário do que leram. Tem que ter muito cuidado com as coisas que se propagam na internet e viram fatos, não são, necessariamente, verdadeiras.

Qual o impacto das redes sociais e da internet na novela e na televisão?
As redes sociais alteraram a relação do telespectador com a televisão e com a novela. Às vezes, as pessoas veem a novela em vários veículos que não são necessariamente a televisão que está na sala. Veem no telefone, no iPad. E também não veem no horário. Então aqueles índices de audiência não são mais tão exatos como eram antigamente. A audiência flui. Mudou muito. E está difícil se adaptar a isso para nós criadores.

O que você faz para tentar se adaptar?
Estou tentando me tornar usuário de todos esses veículos, com certa dificuldade, porque pertenço a uma geração que não aprendeu a lidar com isso. Por exemplo, teve o lançamento do livro no Rio e eu precisava de fornecer informações através do Snapchat. E aí não tinha como fazer isso, eu estava lá autografando o livro. Então, chamei duas atrizes que têm um acesso muito grande a esse tipo de mídia, que são a Adriana Birolli e a Josie Pessoa, e pedi para invadirem meu Snapchat e transmitir a noite de autógrafos. E foi uma coisa impressionante porque foram milhares de seguidores.

Você acha que a televisão e a novela como são hoje podem acabar?
Acho que sim. O futuro da ficção na televisão está nas séries, sem dúvida nenhuma. Estamos muito atrasados ainda. Estamos na fase do I love Lucy. Acho que a gente não aprendeu a lição de casa. Estamos tentando desesperadamente ganhar esse terreno que ficou pra trás, mas o futuro da televisão está nas séries, provavelmente nas webséries, que são bem mais ágeis e atingem um público mais amplo que o público dos celulares. É um momento de transformação do ato de levar a notícia às pessoas. É um momento muito complicado.

Você tem vontade de fazer série?
Tenho muita vontade, mas estou condenado às novelas. Desde que vi a primeira temporada dos Sopranos, em 1998, fiquei viciado em séries.

Mas você começou com uma série, não é?
Pois é, por incrível que pareça comecei com série. E aquelas séries que a TV Globo lançou em 1979, como Plantão de polícia, Malu mulher, Carga pesada, eram muito mais avançadas e contemporâneas que as que se fazem hoje no Brasil. A TV a cabo está tentando suprir essa lacuna, mas a TV convencional realmente ficou para trás. Não entendi muito bem por que, mas ficou.

A que séries você assiste hoje?
Olha, sou viciado em várias. Game of thrones é uma série na qual sou completamente viciado. Inclusive, por causa de Game of thrones resolvi, na minha próxima novela, voltar ao realismo mágico. Eu gosto muito de várias outras. Orange is the new black, adoro. Acabei de ver agora uma que é uma coprodução inglesa e francesa, Spotless, muito boa. House of cards é fantástica. Às vezes, vejo duas ou três ao mesmo tempo. Ou vejo na Netflix ou compro a caixa. Ainda assisto a DVD.

Você tem problema com spoiler?
Não, nunca tive. Inclusive, nas minhas novelas nunca me preocupei com isso. No auge das novelas, havia todas aquelas revistas especializadas em televisão que criavam desdobramentos para as novelas que não eram necessariamente verdadeiros. Eu me divertia muito com aquilo e não tenho problema nenhum com spoiler. O importante não é saber o que vai acontecer, mas você ver como vai acontecer.

Como vai ser a próxima novela? Realismo fantástico versus realidade?
Durante um período muito grande, fiz novelas urbanas e realistas. Saí daquela minha zona de conforto que era o realismo mágico e na qual eu sabia me mexer muito bem. Eu estava me repetindo. Mas agora está difícil. Quando a realidade supera a ficção, mas supera mesmo, dá banho na ficção, fica muito difícil. Confesso que não saberia como fazer reportagem policial hoje. Naquela época havia um mínimo de ética que não podia ser ultrapassada nem pelos bandidos. Hoje não existe mais isso.

Prefere novela das seis ou das nove?
Só fiz novela das nove. Já estreei no horário e nunca saí. A novela mais difícil é a das sete (19h). Não saberia fazer. O público é fluido, você nunca sabe, ele está mudando constantemente. É difícil satisfazer aquele público. Agora, por que faço novela só das nove? Porque minha mão pesa. Não conseguiria fazer a das sete por isso, minha mão pesa.

Como você gerencia o tempo para novela e literatura?
Isso é complicado porque a novela é um trabalho de longo prazo, você passa oito meses escrevendo e pelo menos seis meses criando a novela. E quando você acaba a novela, está totalmente exaurido, não tem como fazer nada. Além disso, a novela mata o autor de livros porque são dois gêneros completamente diferentes. Quando acaba a novela, você desaprendeu a escrever livros e tem que começar de novo até chegar no tom que o livro pede. É muito complicado gerir as duas coisas. Em 2020, acaba meu contrato com a Globo e estou pensando seriamente em deixar de escrever novelas e passar a escrever os livros que não escrevi por causa das novelas.

 

Turno da noite – Memórias
de um ex-repórter de polícia
De Aguinaldo Silva. Objetiva.
218 páginas. R$ 39,90

 

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