Você sabe a diferença entre análise e terapia? Veja quando procurar um psicólogo

Buscar ajuda profissional não deve ser uma decisão só em momentos de angústia ou depressão, mas para se conhecer e viver melhor

por Larissa Ricci 14/08/2017 07:00
Reprodução/Internet/brainly.pl
(foto: Reprodução/Internet/brainly.pl)

Diferentemente do que muitas pessoas pensam, buscar por um psicólogo não é uma missão difícil e nem mesmo uma medida apenas para casos extremos. Nos dias de hoje, os profissionais tentam disseminar cada vez mais a ideia de que quando o assunto é saúde mental, a prevenção deve ser um motivo de preocupação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que a depressão passou a ser a maior causa de incapacidade no mundo e que os casos aumentaram quase 20% na última década. Porém, muitos só vão ao consultório buscar por apoio quando a situação já se agravou. Ainda existe o estereótipo de que a terapia e a análise são soluções apenas para a “loucura”. Mas, quando procurar um profissional? Por onde começar? Qual linha de atuação buscar?

Roberto Chateaubriand Domingues, psicólogo vinculado à Rede de Atenção Secundária da Secretaria da Saúde de Belo Horizonte e ex-presidente do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais, responde a algumas dessas perguntas. Para começar, o especialista explica que, ao conhecer os seus limites, as pessoas tendem a se relacionar melhor em sociedade. “Cada pessoa apresenta um ‘tempo’ bastante particular e, por isso, não há como precisar quando é importante buscar por um profissional. Mas, no geral, as pessoas tendem a procurar um psicólogo em situações vistas por elas como limites, quando sentem que não conseguem sozinhas encontrar saídas para impasses colocados pela vida, o que gera sofrimento.”

Por essa razão imagina-se que a busca por ajuda profissional deve ocorrer quando existem indícios de depressão ou algum outro transtorno dado como psicopatológico, mas o psicólogo afirma que essa é uma visão que deve ser superada. “Podemos demandar da psicologia auxílio para viver melhor, não exatamente mais adequado ao mundo, mas a si mesmo, ainda que isso signifique tencionar as relações que estabelecemos com aqueles que nos rodeiam. Esse é um tipo de desafio que a psicologia pode ser utilizada para ser superado”, aponta.

Ainda existe o preconceito de que psicólogo é alguém com quem você apenas vai bater um papo e isso poderia ser feito com amigos ou familiares. Mas o especialista explica que o apoio profissional é fundamental. “Muitas vezes nos deparamos com situações da vida que nos causam sofrimento, nos colocam em situação de tristeza ou dor, mas com o apoio de nossa rede social somos capazes de superar . Em outros casos, nos enredamos em fatos e histórias que se vinculam a conteúdos.”

SIGNIFICADO

A professora de inglês Amanda Aleixo Teixeira da Rocha, de 23 anos, faz acompanhamento com especialista da área desde criança. Aos 6 anos, a família decidiu colocá-la na terapia como ajuda para enfrentar um momento complicado de doença da mãe, diagnosticada com câncer. “Meus pais decidiram que era melhor que eu tivesse acompanhamento psicológico durante o tratamento de minha mãe. Meu segundo contato com a terapia foi quando meus pais se divorciaram, já era adulta e ciente do que era uma terapia”, conta Amanda. Aos 23 anos, ela voltou aos consultórios com uma visão diferente e em busca de outra linha profissional: “A análise veio tomar grande significado na minha vida”.

Ela conta que procurou o apoio psicológico depois de terminar um relacionamento que a deixou bastante angustiada. “Passei a me perguntar sobre como lidar com quem me relaciono e, principalmente, a uma imensa vontade de ficar bem comigo. Sempre tive na cabeça que no momento em que não estivesse aguentando lidar com os problemas sozinha era necessário buscar esses profissionais.” No início do ano, Amanda resolveu experimentar a psicanálise.

“Sinto que desde que comecei análise mudei muito. Comecei a enxergar questões que deságuam diretamente na forma como lido comigo e com as pessoas com quem me relaciono, e uma vez ciente de ações que levavam a determinadas angústias, tento evitar a repetição. É bom ver que algumas ações que me causam felicidade começam a ter maior frequência”, afirma. “Apesar de sempre querer respostas e mudanças rápidas, a análise é um processo que necessita de trabalho. As coisas mudam gradualmente, mas mudam.” Amanda conheceu a análise por meio da indicação de uma amiga, estudante de psicologia: “Até então, não sabia bem a diferença entre terapia e análise”. E você? Sabe a diferença?

TERAPIA E ANÁLISE

A psicologia tem uma grande diversidade de linhas teóricas que podem auxiliar na construção de caminhos: existencial, humanista, psicodrama, sistêmica, psicanálise e tantas outras linhas de abordagem. Para entender melhor, Alessandra Bustamante, psicóloga judicial, explica a diferença entre terapia e análise: “A terapia visa à mudança de comportamentos a partir da razão. A psicanálise leva em consideração aquela citada ideia de que somos determinados por causas que não são acessíveis na consciência”.

Reprodução/Internet/Blog da Arquitetura
(foto: Reprodução/Internet/Blog da Arquitetura)

A psicanálise se guia pelas ideias de seu precursor, Sigmund Freud, e no nosso caso, pelos posteriores avanços do psicanalista francês Jacques Lacan. A especialista explica que a principal ideia de Freud é a do inconsciente. Nesse caso, o psicanalista alemão propôs que não somos guiados pela razão, mas há algo que nos determina que difere do eu, situa-se em outro campo. “Assim, o psicanalista pede que o paciente fale de forma livre e o vai conduzindo por meio de intervenções bem dirigidas para que ele possa chegar à sua verdade. Como somos determinados pelo que não sabemos, o psicanalista procura confrontar o paciente com essa verdade, ciente de que não a acessamos em seu todo”, afirma Alessandra.

Ela frisa que a pessoa deve procurar um profissional não só quando surge um problema de saúde mental. “Procure, por exemplo, quando se sente parada, observa que sua vida não avança, ou faz coisas prejudiciais para si mesma, sente que repete más escolhas, ou não consegue cumprir seus objetivos, embora tenha capacidade e seja possível, entre outras situações de mal-estar”, afirma.

A escolha da melhor linha teórica vai se dar a partir da formulação da demanda pela pessoa e de seu conforto diante da abordagem oferecida pelo profissional. “Não existe uma linha teórica melhor ou superior à outra, pois a resposta é sempre individual. Existem casos de fobias em que a teoria comportamental é absolutamente adequada para determinado sujeito e, do mesmo modo, totalmente contraindicada a outros que vão se sentir melhor a partir de outro tipo de abordagem terapêutica”, pontua Roberto Chateaubriand. Para Alessandra, é importante escolher por meio de indicação.

DIFICULDADE

Porém, mesmo com a abordagem já escolhida e o profissional indicado há aqueles que têm dificuldade de "se abrir" e acabam desistindo. Os argumentos mais comuns são: mas, o que eu vou dizer pra ele? Tenho dificuldades em me abrir. “Como em todas as relações intersubjetivas, em maior ou menor grau, sempre haverá dificuldades iniciais no estabelecimento da relação clínica que podem ser superadas”, afirma.

Em todos os casos, a habilidade e experiência profissional podem ser fundamentais para que essa “dificuldade” seja superada e o processo prossiga. Todavia, é inegável que algumas vezes o vínculo não se forma e essa “dificuldade” persiste e, mesmo se tratando de um excelente profissional não há como superá-la. “Isto não quer dizer que seja uma questão daquele sujeito, apenas que um novo profissional deve ser indicada”, afirma.

DEPRESSÃO CRESCE NO MUNDO

Os casos de depressão aumentaram quase 20% na última década, transformando-se na maior causa de incapacidade no mundo, alertou a Organização Mundial da Saúde (OMS) no início deste ano. O número de pessoas com depressão chegou em 2015 a 322 milhões, 18,4% a mais que em 2005, indica a organização. Portanto, os profissionais defendem a ideia de que quando o assunto é saúde mental, a prevenção deve ser um motivo de preocupação para prevenir que o número cresça. Roberto Chateaubriand explica que a principal questão é o reconhecimento de que depressão não é sinônimo de tristeza. “Trata-se de um quadro de sofrimento mental no qual a pessoa não encontra recursos psíquicos próprios, de imediato, para superá-la, sendo necessário, em muitos casos, da intervenção de psiquiatras para manejo adequado de medicamentos que podem auxiliar no processo clínico.” É importante ficar atento aos sintomas: quadro variável de apatia, perda ou diminuição de interesse e prazer pela vida, insônia, ansiedade, irritabilidade, angústia e prostração, podendo ter reflexos físicos como perda de peso e cansaço sem motivo aparente, sendo todos esses sintomas variáveis e que não se manifestam, necessariamente em conjunto ou da mesma forma. “É aconselhável que seu diagnóstico seja feito por profissionais da área de saúde mental.”

Linhas da psicanálise

» Freud - As descobertas da psicanálise à vida mental da pessoa inclui o inconsciente, a sexualidade, os sonhos e a nossa vida interna

» Lacan - Reformulou as bases da teoria freudiana, com a interação da filosofia e psicanálise

» Jung - Não se prende ao passado, nem trabalha com as transferências em relação ao outro

» Melaine Klein - A hipótese principal da terapia kleiniana é de que o psiquismo se origina, em primeiro lugar, da relação do bebê e sua mãe

Exemplos de linhas da psicoterapia

» Terapia cognitivo comportamental - Abordagem que se baseia na visão teórica de que os sentimentos e os comportamentos do indivíduo estão relacionados ao modo como ele estrutura o mundo por seus pensamentos e crenças.

» Terapia sistêmica - Compreende o indivíduo na relação com seus diversos sistemas (familiar, escola, trabalho, comunidade...) os quais são interdependentes um do outro.

» Gestalt terapia - Orienta o indivíduo para que ele perceba a responsabilidade sobre suas escolhas e alcance atitude mais autônoma e autossustentada

Obs: Roberto Chateaubriand explica que a psicologia enquanto ciência vem se desenvolvendo com rapidez e novas linhas teóricas são propostas e acolhidas pela comunidade científica. “Todavia, de um modo geral, vemos variações sutis dessas grandes matrizes teóricas que servem de base para as demais que surgem constantemente.”

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