Semente popular na Ásia é a nova aposta da ciência contra o tabagismo

Substância presente na noz de bétel reduz a fissura pela nicotina sem causar os efeitos colaterais comuns aos remédios atualmente prescritos, indica estudo norte-americano. Cientistas acreditam que o composto poderá ser usado em novos medicamentos

por Vilhena Soares 16/04/2017 12:07
Valdo Virgo/CB/D.A Press
Clique para ampliar (foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)

O tabagismo é um dos vícios mais populares no mundo: quase 1 bilhão de pessoas fumam diariamente, segundo o estudo Global Burden of Disease. Não à toa a busca por formas mais estratégicas de ajudar os dependentes move cientistas. Uma equipe norte-americana aposta em uma semente popular na Ásia: a noz de bétel. Segundo eles, há nela uma substância que bloqueia as células cerebrais ligadas à dependência da nicotina. Detalhes do trabalho foram apresentados no 253º Encontro Nacional da Sociedade Americana de Química (ACS, em inglês), nos Estados Unidos.

A noz de bétel, semente da planta palma de areca, é cultivada e utilizada em toda a Índia, partes da China e do sudeste da Ásia. É comercializada em uma folha de pimenteira, com uma mistura de especiarias, para ser mascada da mesma forma que um chiclete. A prática, uma tradição cultural nessas regiões, provoca sensação de euforia e alerta, o que também pode resultar em dependência. “A noz de bétel é considerada o quarto estimulante mais utilizado no mundo, depois da cafeína, do álcool e do tabaco”, explica, em comunicado, Roger Papke, um dos autores do estudo e pesquisador da Universidade da Flórida.

Inicialmente, os cientistas tinham a intenção de estudar a fundo a composição da noz para entender como se dá o vício nela. “Sem saber por que as pessoas se tornam dependentes, não havia como ajudá-las a superar esse problema. Conhecer melhor a planta pode nos fornecer uma nova maneira de tratar o vício”, justifica Papke. Durante o trabalho, observaram que a arecolina, um dos alcaloides psicoativos presentes na noz de bétel, estimula receptores de células cerebrais responsáveis pela dependência de nicotina, mas não afeta outros mecanismos ligados ao tabagismo.

A ação é diferente da provocada pela vareniclina — presente em remédios usados para combater o tabagismo —, que reduz o desejo de nicotina ao fazer conexão com receptores cerebrais da substância, mas pode provocar efeitos colaterais pelo fato de se ligar a outros receptores de nicotina não envolvidos com o vício. Entre os desconfortos, estão alterações no sono e no estômago, e vômitos.

Com base nos achados, os cientistas resolveram sintetizar uma série de compostos derivados da arecolina. Em testes, descobriram que muitos mantiveram o efeito de combate ao tabaco sem afetar os receptores de nicotina que não têm ligação com o vício, eliminando, assim, os efeitos indesejados da vareniclina. A equipe acredita que os derivados testados têm potencial para serem usados em tratamentos mais seguros. “As moléculas que estamos desenvolvendo são mais específicas. Como não visam outros receptores, devem ser mais eficazes”, diz Papke.

Molécula limpa

Para Helena Moura, psiquiatra especialista em dependência química e idealizadora do programa Viva Sem Cigarro, a pesquisa norte-americana é interessante, mas muito inicial. “É importante ressaltar que esse trabalho está numa fase em que não foram vistos os efeitos terapêuticos. Ele faz comparações com substâncias que são utilizadas, por ambas possuírem efeitos semelhantes. Mas ainda não podemos dizer o que a arecolina faz dentro do cérebro para que possa se tornar um medicamento”, ressalta.

Segundo a especialista, que não participou do estudo, a busca por medicamentos que não provoquem efeitos colaterais é algo frequente na área médica, apesar de difícil de ser concretizado. “Na farmacologia, usamos o termo de molécula limpa para aquela substância que tem um efeito certeiro ao alvo. Se isso não ocorre, pode haver efeitos colaterais. Mas isso é algo muito difícil de se conquistar. Mesmo no caso desse estudo, ainda assim, existe risco que os efeitos colaterais ocorram. É difícil ter garantia total”, ressalta.

Helena Moura destaca ainda que novos medicamentos contra o tabagismo são importantes, mas há que se considerar que superar o vício envolve outras preocupações e medidas. “Muitas pessoas que tentam parar de fumar acabam achando que só o remédio vai resolver o problema. Ele sozinho não dá conta do recado. Vai ajudar no desejo, na fissura pelo tabaco. Uma série de mudanças comportamentais também é necessária, como parar de tomar café e ingerir bebidas alcoólicas. Se medidas como essas não forem tomadas, se reduz pela metade as chances de o tratamento ser bem-sucedido”, alerta, destacando, em seguida, a importância também do apoio psicológico. “Muitas pessoas fumam porque possuem problemas emocionais, como depressão ou ansiedade. Por isso, é necessária a atenção ao emocional.

Aumentam mortes ligadas ao cigarro

O vício é diário para cerca de 1 bilhão de pessoas, principalmente homens. Segundo o relatório Global Burden of Disease, divulgado ontem na revista The Lancet, em 2015, um em cada quatro homens e uma em cada 20 mulheres fumavam todos os dias. O cenário é melhor que o de 1990 — de um em cada três homens e uma em cada 12 mulheres —, mas preocupa principalmente porque as mortes atribuíveis ao tabagismo têm aumentado. Ao todo, os investigadores consideraram hábitos tabágicos de 195 países e territórios entre 1990 e 2015.

No período, a prevalência global do tabagismo diminuiu em quase um terço, de 29,4% para 15,3%. Mas o crescimento da população provocou aumento no número total de fumantes diários, passando de 870,4 milhões para 933,1 milhões. Os óbitos atribuídos ao vício aumentaram 4,7% em 2015, se comparado a 2005, quando foi implementada a Convenção-Quadro da Organização Mundial da Saúde para o Controle do Tabaco, acordo em que vários países se comprometeram a aplicar políticas de combate ao vício. “Fumar continua a ser o segundo maior fator de risco para morte precoce e deficiência, e, para reduzir ainda mais o seu impacto, devemos intensificar o controle do tabaco”, ressaltou, em comunicado, Emmanuela Gakidou, pesquisadora do Instituto de Medidas de Saúde e Avaliação na Universidade de Washington (EUA) e uma das autoras do estudo.

O documento também lista as nações em que as pessoas mais perderam a vida em decorrência do vício. Em números absolutos, o Brasil faz parte da lista dos 10 países (veja quadro) que, em 2015, representavam quase dois terços dos fumantes no mundo (63,6%). Entre essas nações, a prevalência de tabagismo persiste alta, com exceção do Brasil, que, de acordo com o estudo, é líder no controle do tabagismo, mostrando uma das maiores reduções na prevalência do problema entre 1990 e 2015: de 28,9% para 12,6%, no caso dos homens, e de 18,6% para 8,2%, no caso das mulheres. Para os cientistas, o resultado positivo se deve ao fato de o Brasil ter implementado uma combinação de políticas de controle do cigarro, como restrições de publicidade, proibições de fumar em locais públicos e impostos sobre os produtos de tabaco.

A psiquiatra Helena Moura observa que os resultados brasileiros refletem um investimento na prevenção ao fumo, mas alerta que os cuidados devem continuar, especialmente os voltados para os mais jovens. “Isso é resultado de muitas campanhas informativas, mas a indústria sempre acha brechas para fugir desse controle. Por causa disso, o cuidado com os adolescentes precisa ser maior. Eles não viveram a época em que os danos do tabaco eram repetidos frequentemente. Hoje, temos muita publicidade voltada para esse público, com foco no narguilé e no cigarro eletrônico, por exemplo. As campanhas precisam ser readaptadas para os mais jovens”, defende.

Maiores perdas
Veja o ranking de países com o maior número de mortes por tabagismo em 2015*


1º: China - 1,8 milhão
2º: Índia - 743.000
3º: EUA - 472.000
4°: Rússia - 283.000
5º: Indonésia - 180.000
6º: Japão - 166.000
7º: Bangladesh - 153.000
8º: Brasil - 149.000
9º: Alemanha - 130.000
10°: Paquistão - 124.000

*Dados arredondados

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