Pessoas divorciadas, viúvas e solteiras apresentam maior risco de morte após ter um AVC

O derrame pode ser fatal nesse grupo, com um risco muito maior do que em pessoas que têm um casamento estável. Segundo pesquisadores americanos, o cuidado mútuo pode explicar o fenômeno

11/04/2017 15:18
Valdo Virgo/CB/D.A Press
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)

Segundo a Federação Mundial do Coração (WHF), cerca de 15 milhões de pessoas sofrem acidente vascular cerebral (AVC), conhecido também como derrame, a cada ano. Dessas, 5 milhões acabam com sequelas permanentes e 6 milhões morrem. Alguns dos fatores de risco podem ser eliminados ou monitorados, como o tabagismoe a pressão alta. Outros, contudo, não são controláveis, como a idade avançada e o histórico familiar. Agora,um estudo norte-americano aponta mais um possível influenciador: o casamento.

A pesquisa - publicada no Journal of the American Heart Association e liderada pelo professor de medicina Matthew Dupre, da Duke University, na Carolina do Norte - sugere que o risco de morte após um derrame pode ser até 71% maior para adultos que nunca se casaram, em comparação àqueles em casamentos estáveis. Para pacientes que passaram por um divórcio ou que ficaram viúvos, o risco de morrer devido a um derrame é 23% e 25% maior, respectivamente. O número de interrupções no estado civil também é fator importante, aumentando a vulnerabilidade. Aqueles que se divorciaram ou ficaram viúvos mais de uma vez têm 39% e 40% mais chances de morte após um derrame em relação aos adultos continuamente casados.

O estudo envolveu 2.351 pacientes que tiveram AVC entre 1992 e 2010. O histórico das relações foi medido a partir de perguntas detalhadas sobre as datas de início e fim do casamento presentes em questionários respondidos a cada dois anos. Os pesquisadores definiram o estado civil dos participantes como nunca casado, continuamente casado, casado novamente, divorciado ou viúvo. O grupo de controle foi os adultos em matrimônio estável.

Mais da metade dos participantes - 1.382 pessoas, 58% do total - morreu durante o período do estudo. Todas as causas de morte foram consideradas relacionadas ou não à doença. Além do estado civil, os pacientes que morreram eram, em geral, mais velhos, menos educados e com renda menor do que os sobreviventes. Eles também apresentaram maior probabilidade de não ter filhos, apresentar sintomas depressivos, fazer menos exercícios físicos e tomar remédios para hipertensão.

Os pesquisadores descobriram também que, em caso de divórcio ou morte, um novo casamento não diminuiu o risco de óbito. “Pode ser que o estresse agudo e crônico causado pela perda de um parceiro tenha um papel importante na mortalidade”, diz Matthew Dupre ao Estado de Minas. “Suspeitamos também que a instabilidade matrimonial pode ter consequências negativas na regularidade ao tomar medicamentos, procurar serviços de saúde e outros comportamentos essenciais à recuperação.”

SILENCIOSO

O derrame acontece quando há uma interrupção no fluxo de sangue no cérebro. Apesar do nome, a doença é mais comumente causada por um coágulo, que obstrui um vaso sanguíneo no órgão. Nesse caso, ocorre o chamado AVC isquêmico. Porém, em 20% dos casos, há rompimento de um vaso, causando uma hemorragia que destrói os tecidos ao redor do local. As duas variedades da doença são perigosas e podem causar perda de funções cerebrais e até levar à morte.

“O derrame mata cerca de 100 mil pessoas por ano no Brasil e fica em primeiro ou segundo lugar entre as causas de morte no país, dependendo do sexo”, ressalta Fausto Stauffer, diretor de pesquisas da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Segundo o médico, a prevenção da doença - que ocorre subitamente e sem aviso - é feita com o controle dos fatores de risco. “O principal é a hipertensão. O risco de um hipertenso sofrer um AVC é cinco vezes maior do que uma pessoa com pressão controlada”, afirma. “Também são fatores diabetes, sedentarismo, tabagismo e colesterol alto, que aumentam a chance de formação de placas de gordura no sangue.” Todas essas condições podem ser controladas, diferentemente de questões como o histórico da doença na família, a idade avançada e até o sexo— mulheres sofrem mais derrames do que os homens.

Segundo Matthew Dupre, o casamento entra na categoria de fatores não modificáveis. “Não é como dietas ou exercícios, mas é importante que as pessoas entendam como ele pode influenciar a recuperação após uma doença séria como o derrame”, reforça. “Em particular, os pacientes divorciados ou viúvos mais de uma vez devem considerar uma conversa com seu médico sobre maneiras de reduzir os riscos e tomar medidas para aumentar as chances de sobrevivência a longo prazo.”

Fausto Stauffer observa que não há resultados conclusivos sobre o efeito protetivo do casamento. “A pessoa casada acaba tendo uma preocupação maior com a saúde. Além disso, ela tende a ser mais feliz, o que comprovadamente traz benefícios cardiovasculares. Nós não temos ainda resultados especificamente sobre o casamento, mas há estudos bem fortes que mostram que pessoas felizes, sem depressão e menos isoladas são mais saudáveis e se recuperam mais rápido após uma doença.”

O estudo foi realizado com base em observações, e, de acordo com os investigadores, são necessárias pesquisas direcionadas para confirmar os resultados. “Precisamos de mais estudos para saber todas as implicações clínicas das descobertas atuais”, diz Matthew Dupre. “Até lá, esperamos que nossa pesquisa traga maior consciência sobre essas associações e ajude médicos a reconhecer e tratar melhor pacientes que podem estar sob maior risco de morrer após um derrame.”

CORAÇÃO E CÉREBRO

A solidão também pode aumentar o risco de derrames, segundo um estudo do Departamento de Ciências da Saúde da Universidade de Iorque, no Reino Unido, divulgado em abril passado, no Heart Journal. A pesquisa usou dados de 181 mil adultos, observados entre três e 21 anos. No período, foram registradas 4.628 ocorrências de complicações coronarianas (ataques cardíacos, angina e morte) e 3.002 de acidente vascular cerebral (AVC). A análise aprofundada mostrou que o isolamento social foi associado a um aumento de29% no risco de problemas cardíacos e de 32% no de AVC.

VÍDEOS RECOMENDADOS