Ambiente de trabalho sem divisórias comprometem produção

Pesquisa japonesa afirma que ambientes de trabalho com poucas ou nenhuma divisória, apesar de contribuírem para maior interação e colaboração entre os profissionais, interferem no desenvolvimento de atividades que exigem aprendizado e concentração

por Victor Correia* 27/12/2016 10:00
A tendência atual no design de escritórios é o modelo chamado de open space, que possui poucas ou nenhuma divisória entre os ambientes de trabalho. Segundo Inés Méndez, gerente de marketing da Gensler, empresa americana de design de interiores, “esse tipo de configuração do espaço aumenta a interação e a colaboração entre as equipes e fornece melhor distribuição do espaço e da iluminação natural em ambientes maiores”.

Apesar dos benefícios desse modelo, um novo estudo, divulgado durante o 5º Encontro Conjunto das Sociedades Acústicas da América e do Japão, sugere que as conversas no ambiente de trabalho podem diminuir a performance dos demais funcionários que estiverem por perto, mais do que outros barulhos típicos de um escritório, como o do ar-condicionado e o dos teclados. O encontro aconteceu em Honolulu, no Havaí, entre 28 de novembro e 2 de dezembro.

Os experimentos utilizaram o método paradigma oddball. Trata-se de um teste feito para medir a atenção seletiva e a habilidade de processar informações dos participantes. “No paradigma oddball, os voluntários devem contar eventos raros misturados a uma série de eventos repetitivos”, disse o líder da pesquisa, Takahiro Tamesue, professor associado da Universidade Yamaguchi, no Japão. Em seu laboratório, o professor estuda os efeitos fisio e psicológicos do som para criar ambientes acústicos de maior qualidade.

Em um dos testes, os participantes observaram figuras geométricas que apareciam rapidamente na tela de computador, enquanto ouviam ora um ruído parecido com estática, ora vozes humanas. A imagem mais rara no experimento era um quadrado vermelho, presente na tela 20% das vezes, enquanto a figura mais comum era um quadrado verde.

O exercício exigiu que os voluntários contassem quantas vezes o quadrado vermelho apareceu no computador, em um período de 10 minutos. Ao fim do teste, eles ainda avaliaram o nível de irritação causado pelos barulhos ouvidos durante a tarefa, em uma escala de sete pontos.

Durante os testes, as ondas cerebrais dos participantes foram medidas por meio de um eletroencefalograma, exame que mede a atividade cerebral por meio de eletrodos colocados no couro cabeludo. Os pesquisadores observaram especialmente duas partes do exame: os componentes N100 e P300 dos Potenciais de Eventos Relacionados (PERs). Os PERs são respostas do cérebro causadas por sensações, movimentos ou pensamentos específicos.

“Considera-se que o N100 representa a ativação de conjuntos de neurônios que envolvem a análise de novas informações sensoriais”, disse Tamesue. “Já o P300 reflete que um sinal esperado pelo cérebro aconteceu. Seu pico está relacionado às memórias seletiva e de trabalho.”

Queda na concentração
O estudo revelou que os sons que contêm significado, como músicas e conversas, causam mais irritação do que os demais barulhos presentes nos escritórios. Ou seja, conversas e músicas provocam queda maior na performance para desenvolver tarefas que envolvem memória ou exercícios matemáticos. Além disso, quando os participantes foram expostos a conversas, os exames cerebrais mostraram diminuição nos componentes N100 E P300, indicando que a atenção seletiva durante as tarefas foi influenciada pelo nível de significado contido no som.

“O som ambiente é uma causa notável de estresse no trabalho. Por isso, para nós é essencial ter ele em conta durante o processo de planejamento de qualquer espaço”, disse Méndez. Ela explica que os designers utilizam materiais isolantes, como espumas, para que barulhos do exterior não interfiram nas áreas de trabalho. “O ambiente acústico de um escritório deve ser o mais neutro possível para fornecer conforto aos funcionários. Isso significa que temos que evitar que o ruído se propague no espaço ou reflita nas superfícies, dificultando o foco e a colaboração entre os trabalhadores.”

Para Méndez, o open space precisa proporcionar diversas opções para seus usuários, como relacionamento, colaboração e foco. “Essa flexibilidade traz um desafio em controlar a propagação do ruído no espaço. Um espaço bem projetado, junto com a escolha certa de acabamentos, é a receita para a qualidade sonora do ambiente de trabalho.”

Os experimentos de Tamesue sugerem que, ao projetar ambientes onde serão realizadas tarefas que exijam aprendizado ou compreensão, como escritórios e escolas, deve-se considerar não somente o volume dos sons, mas também os seus tipos. “As conversas costumam atrapalhar as atividades em escritórios open space. Como é difícil tornar esse tipo de ambiente à prova de som, uma alternativa é mascarar as conversas com outro tipo de som, o que ajudaria na criação de um ambiente acústico confortável”, disse o professor.

*Estagiário sob supervisão de Carmen Souza

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