Nada de solidão e isolamento: pesquisa mostra que pessoas querem viver mais, mas não envelhecer

Em BH, clube oferece inúmeras atividades para quem quer redescobrir hobbies, atividades sociais e fazer novas amizades

por Sandra Kiefer 03/10/2016 16:00

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 Alexandre Guzanshe/EM/D.A PRESS
Viúva há oito anos, Maria Elizabeth Faria chegou a sentir dores físicas, mas era tudo emocional. Ela rompeu o casulo e se matriculou no clube, onde celebrou o Dia do Idoso com uma maquiagem (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A PRESS)
Prestes a completar 21 anos, o Clube da Maturidade, um espaço que oferece atividades para pessoas da terceira idade, localizado no Bairro Cidade Jardim, em Belo Horizonte, esbarra em um impasse inédito que surgiu nas rodas de conversa durante a programação do Dia Internacional do Idoso, em 1º de outubro, comemorado com bailes, lançamentos de livros e até com um dia da beleza, na semana passada. “Não vai ter jeito. Vamos ter de aumentar a idade mínima de entrada no grupo para acima de 50 anos. Quando o clube foi fundado, nosso limite era a partir dos 45, mas hoje ninguém quer se aceitar 'maduro' nessa idade”, diz a presidente executiva, Maria José Lages Ottoni, dividindo com as amigas uma cerveja e uma porção de pastéis. Ela lembra que os membros da diretoria já ultrapassaram a faixa dos 70 e que há uma dificuldade de se fazer a renovação dos cargos.

Uma exceção foi aberta recentemente com a adesão da aposentada Maria Elizabeth Faria, de 68, que se tornou uma das caçulas da turma. Como ela mesmo define, estava se sentindo muito só, passados oito anos da viuvez. Partiu de Maria Elizabeth romper o casulo e se inscrever no Clube da Maturidade.

“Estava sentindo umas dores e consultei um cardiologista, mas os exames não mostraram nada físico. Era coisa da minha cabeça. Fiz a consultoria da terceira idade do plano de saúde, que me indicou retomar uma atividade de que eu gostasse muito. Escolhi voltar a dançar”, conta Beth, que também se matriculou no pilates e passou a fazer caminhadas, agora na companhia de um 'senhor bacana' a quem foi apresentada no clube. “Queria apenas espairecer a mente, mas me tornei mais feliz”, completa.

A solidão é uma das maiores preocupações demonstradas pelas pessoas ao se chegar à velhice, segundo pesquisa que embasou a campanha “Envelhecer sem vergonha – Qualidade de vida não tem idade”, que fez parte de uma iniciativa global lançada pela Pfizer em 2012. Intitulado Get Old, o movimento reuniu especialistas e diversas organizações para compartilhar diferentes abordagens sobre o envelhecimento, incluindo mudanças no estilo de vida, com o objetivo de ajudar as pessoas em seu processo de amadurecimento.
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Maria José Lages Ottoni, que dirige o Clube da Maturidade, um espaço repleto de atividades para pessoas mais velhas (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A PRESS)

Nos estudos patrocinados pelo laboratório para 2015, na comparação do Brasil e outros países latino-americanos, descobriu-se que, por aqui, as pessoas querem viver mais, mas nem todas aceitam envelhecer. Um dos maiores medos demonstrados na pesquisa é ficar só no fim da vida, na comparação com os outros países latino-americanos pesquisados. Convidados a se imaginar na velhice, 57% dos entrevistados no país declararam ter esse receio, enquanto a média no grupo de países analisados foi de 35%.

“O brasileiro em especial é muito preconceituoso com o envelhecimento. Como se criou um forte estereótipo em torno da aparência, existe um enorme receio de não ser aceito porque envelheceu, porque perdeu a beleza. A pessoa não consegue internalizar o processo com naturalidade, entendendo que suas rugas contam uma história e que é preciso agradecer por estar vivo”, afirma a psiquiatra Rita Cecília Ferreira, de 62, responsável pelo Programa da Terceira Idade do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).
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Eva Queiroz recebeu massagem facial da esteticista. Depois de se aposentar como professora, descobriu-se uma escritora de mão cheia e acaba de lançar o sétimo livro (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A PRESS)

PREOCUPAÇÃO COM A SAÚDE Nos questionamentos que projetam as expectativas dos entrevistados para sua maturidade, novamente a preocupação do brasileiro com a saúde se destaca. Entre o total de entrevistados, 77% dos latino-americanos responderam que gostariam de estar perto da família nesse momento. Já entre os brasileiros, o principal desejo foi chegar à terceira idade com saúde, opção escolhida por 75% dos entrevistados. A proximidade com a família foi lembrada por 70% dos brasileiros, considerando que era possível escolher mais de uma alternativa.

Para Rita Cecília, que também coordena um módulo de psiquiatria geriátrica, aplicado inclusive entre profissionais de Belo Horizonte, a melhor idade é aquela em que a pessoa se sente bem. “Vejo meus pacientes que usufruem da gratuidade do idoso no transporte coletivo, mas se ofendem quando alguém se levanta para oferecer o lugar. Na Europa, a maioria das pessoas se orgulha de envelhecer. Na minha profissão, felizmente existe uma valorização do conhecimento. Por ser mais velha, tive mais condições de acumular mais pesquisas científicas e na prática, já vi muito mais pacientes do que alguém que está começando a atender”, acrescenta a psiquiatra, lembrando que os jovens têm raciocínio mais rápido e pouca experiência em lidar com as questões.

Autonomia e convívio social
Saúde, mente e emoções se entrelaçam especialmente na maturidade, no sentido de que idosos mais saudáveis são também mais autônomos e independentes. Tornam-se assim, consequentemente, também mais ativos, mais interessados no convívio social e na vida.

“Essa é uma fase de redescobertas. Tudo, até mesmo o namoro e a sexualidade, ganha novas perspectivas com a idade. Então, talvez a pessoa não tenha a mesma agilidade ou a mesma capacidade visual e auditiva de antes, mas ela também poderá aproveitar a vida, poderá encontrar novas e surpreendentes possibilidades”, lembra a psiquiatra da USP.

Foi exatamente o que aconteceu com a professora Eva Queiroz, que precisou se aposentar na lida da escola para se redescobrir como escritora. Já está no sétimo livro – A mala do Vô Nicolau, uma linda história de amor –, lançado na última quinta-feira no Clube da Maturidade, que apoia este tipo de iniciativa com o projeto Sócios que fizeram histórias. “Comecei a escrever por acaso, de tanto um irmão insistir para que eu contasse a história da nossa família, de 24 irmãos. Minha primeira obra foi Corina, 6.480 dias de espera, memórias e histórias da família Queiroz”, revela a autora, que calculou o tempo em que a mãe dela permaneceu grávida, esperando 24 bebês. Além de redigir livros artesanais, Eva colabora como bibliotecária do clube, é da pastoral da escuta da Igreja da Boa Viagem, membro da Academia Municipalista de Letras e faz as leituras de domingo nas missas da Igreja de São José. “Moro sozinha, mas não sinto solidão”, declara a mulher, do alto de seus 75 anos.

Clube da Maturidade
Atividades: aulas de idioma, canto, coral, seresta, pilates, ioga e biblioteca. Bailes às quartas-feiras e sábados, das 16h às 20h, com entrada a R$ 10 para não sócios. Mensalidades anuais a R$ 215.

Mais informações: (31) 3222-4977 e 3224-1420.

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