Em tempos de crise econômica, desemprego e violência manter a positividade é essencial

Como não deixar se abater em tempos complicados em todo o mundo? Acreditar em dias melhores é fundamental para afastar o derrotismo e a tristeza

28/08/2016 11:55

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Gladyston Rodrigues/EM/ DA Press
Aos pés da Serra do Curral, cartão-postal de BH, o gaúcho Paulo César Silva Jr. afirma abraçar a positividade diariamente (foto: Gladyston Rodrigues/EM/ DA Press)

Escrever, falar sobre esperança sem cair na pieguice e lugar-comum é arriscado e difícil. Muitos torcem o nariz e dizem: “Xiii, lá vem mais uma enxurrada de frases de autoajuda”. Há preconceito. No entanto, é com esse senso que 7 bilhões de pessoas sobrevivem a cada dia. E vão à luta. Os momentos são aflitivos no Brasil e no mundo, as adversidades se apresentam para a grande maioria, caos material, emocional, pessoal, familiar, econômico, político, civil, militar. O planeta está em ebulição. Como a humanidade sairá desse turbilhão? Como cultivar a esperança em meio à crise instalada em todos os níveis? Como manter o astral, o bom humor, o eixo, o respeito, os sonhos, as relações, a espiritualidade? Essas são as questões que o Bem Viver deseja propor hoje como reflexão.

O médico, psicanalista e psicoterapeuta Geraldo Caldeira reconhece que a situação anda mesmo difícil, caótica e o mundo não colabora em nada. “Mas para ter esperança, precisamos de uma relação amorosa com o mundo, ter amigos, parentes afetivos, família unida e projetos possíveis. Senão, será desesperador.” Ele alerta que o fundamental é ter “laços sociais e se manter próximo de pessoas positivas, que lhe oferecem conforto, carinho e aceitação do outro como ele é”. Caldeira compartilha do pensamento do médico e neurobiólogo chileno Humberto Maturana sobre a afirmação do amor, intimamente ligado à esperança. “Ele diz que o amor é a única emoção que possibilita a existência humana. O amor é a aceitação do outro como legítimo outro na convivência. Sozinho, ninguém é ninguém. Para manter a esperança, é fundamental a convivência, que chamamos de laços sociais. E que vão além da esperança e podemos incluir a fé, a coragem, a credibilidade, o carinho...”

É fato que as crises nos afetam. E não há como viver numa bolha. O psiquiatra enfatiza que não há como se isolar do mundo ou não se preocupar com a possibilidade, por exemplo, “de um magnata falastrão como Donald Trump assumir a presidência da maior potência mundial”. No entanto, “deve -se evitar ficar antenado a situações desastrosas e ruins, se preocupar se elas vão chegar até você. Evite ligar-se a tristezas e violências. Busque coisas positivas e esperançosas. Enquanto tiver opção de escolha, lide com o desastre somente se e quando ele chegar até você”, ensina.

Outra questão fundamental no caminho da esperança é “não lutar contra o impossível porque você vai se destruir. O impossível é para ser contornado. Veja os recursos, pode ser a voz de um amigo, dos pais, uma orientação pedagógica ou de um psicanalista. Busque caminhos e conselhos se achar que, sozinho, já não encontra saídas”, diz o médico, afirmando que, certeza mesmo, ele só tem uma: “Sem esperança, não tem jeito. Ela está anexada à vida desde o nascimento: esperança de crescer, de sucesso, de amor, de amigos... E para tê-la é necessário ser amado e ter o reconhecimento do outro, de pertencer a um grupo. E, claro, ela é antagônica ao pessimismo”.

O Bem Viver buscou ouvir outros personagens que vocês conhecerão nas páginas seguintes. Entre eles, Paulo César Silva Jr., gaúcho de Porto Alegre que adotou Belo Horizonte há oito anos por motivos profissionais e, ao lado da mulher Adriana, espera para janeiro a chegada do primeiro filho, uma menina, Isabella. Como não ter esperança, ele pergunta? “Sou muito positivo, levo a vida com alegria, rindo, brincando, conversando, porque, na realidade, ela é mesmo dura, mas temos de ser otimistas para o universo conspirar a nosso favor. Acredito nisso”, responde. Assim, a proposta de hoje é inspirar quem já tem esperança a reforçar a dose; para quem a perdeu, voltar a readquiri-la; e para quem pensa que nunca a teve, descobri-la. Boa sorte a todos.

Gladyston Rodrigues/EM/ DA Press
Gilda Paoliello, psiquiatra e professora do curso de pós-graduação do Ipemed (foto: Gladyston Rodrigues/EM/ DA Press)
A vida é feita de sobressaltos. Às vezes do bem, às vezes, não. A psiquiatra, psicanalista e professora do curso de pós-graduação em psiquiatria do Ipemed Gilda Paoliello confessa que não consegue esquecer “do olhar de Omran Daqneesh, o menino sírio de 5 anos, vítima de ataque aéreo, retratado na mídia na semana passada. Retirado dos escombros de sua residência, manteve-se impassível durante toda a operação de resgate. Colocado dentro de uma ambulância, esperou, solitário, a busca por sua família. Perplexidade? Apreensão? Sentadinho ereto, as mãozinhas sobre as pernas que mal ultrapassavam o assento da cadeira, encarava o futuro com dignidade e força.

Esperando. Infelizmente nada está mais presente em nosso cotidiano que a violência, em suas múltiplas apresentações: agressões, assassinatos, assaltos e, não podemos deixar de falar, as absurdas guerras que se sucedem. Estamos em um mundo globalizado, onde a distância não existe; onde reina a imprevisibilidade, a surpresa e, por isso, a angústia. O que ocorre na Síria ou na Cochinchina reflete no Brasil e no resto do mundo. As referências e diferenças culturais foram destroçadas e nada foi construído para ocupar esse lugar. As consequências estão aí, transformando a vida em pura sobrevivência. O mundo se encontra numa rota suicida do ponto de vista ambiental e econômico. Também as soluções que eram possíveis há 20 anos já não valem mais e não há ainda soluções novas. Têm que ser criadas. Como cultivar a esperança em meio à crise?”, indaga a médica.

A saída, segundo Gilda, é reinventar a política, a justiça, até a clínica. Principalmente, é necessário reinventar valores que possam ir além dos ditados pelo capitalismo. “O distante Butão nos oferece um modelo que propõe trocar o PIB, referência do progresso de um país, pela FIB, Felicidade Interna Bruta, que se pauta pelo princípio de que o objetivo principal de uma sociedade é a integração do desenvolvimento material com o psicológico, cultural e o espiritual, indo além do econômico. A proposta nos coloca o desafio de que é possível a construção de uma felicidade social. Interessante lembrar que o conceito foi criado pelo rei do Butão em 1972, em resposta às críticas que afirmavam que a economia do seu país crescia miseravelmente”, diz Gilda.

Para a psiquiatra, nos deparamos com um momento ímpar no Brasil, “onde encobrimentos até então constitutivos de nossa cultura, submetida a uma compulsão à mentira, estão sendo desvelados. O filósofo Sloterdijk nos ensina que 'na efetiva enunciação da verdade surge um momento agressivo. Todavia, o impulso ao desentranhamento é, em longo prazo, o mais forte'. Precisamos persistir nesse impulso”.

CRIAÇÃO Gilda Paoliello afirma que momentos de crise devem nos provocar a ultrapassarmos limites. “Se a crise é causa de sofrimento, é também causa de criação. Ninguém cria nada se estiver acomodado em leito esplêndido. Precisamos, também, cuidar de nosso índice de felicidade interna bruta. Se há uma crise de confiança no humano, que nos faz pensar com Sartre que 'o homem é uma paixão inútil', sou uma otimista incorrigível e prefiro pensar o homem como o espelho da vida e não da morte. Talvez por isso eu veja esperança no olhar de Omran. E esperança pede invenção. Nós, seres humanos, somos inacabados, incompletos, e, se a incompletude nos traz angústia, nos permite também buscar mudanças. Precisamos ir além de nós mesmos para construir a esperança nesses tempos sombrios”.

Cercados pela positividade

Arquivo pessoal/divulgação
O educador físico Haroldo Costa busca superar as dificuldades por meio do esporte, paixão que divide com a mulher, Andréia, e no dia a dia ensinando seus alunos a ter postura positiva frente a vida (foto: Arquivo pessoal/divulgação)

Acreditem ou não, esse papo de energia positiva faz a diferença, influencia de alguma forma, ainda que não percebam ou deem o braço a torcer. Estar ao lado de quem só reclama, “oh vida, oh céus, oh azar”, as chamadas pessoas tóxicas deixam o ambiente pesado e o desânimo pode ser contagioso. Por isso, para manter a esperança intacta fuja desses seres e de tudo que possa levá-lo a um cenário que provoque derrotismo. Paulo César Silva Jr., diretor da Word Study, franquia de intercâmbio, vê a vida dessa maneira. 

“Pessoas carregadas atraem pessimismo, já pessoas leves atraem o mesmo para seu ciclo energético. Em 2013, a empresa passou por turbulências, trabalhava demais, inclusive aos sábados até de madrugada. Continuo trabalhando muito, mas me dei ao luxo de diminuir o ritmo, reservei o sábado para mim e, ao me sentir melhor, passei isso para todos ao meu redor. Acredito nisso mais do que nunca”.

Paulo César, que dirige quatro empresas de três ramos, sendo uma em Brasília, ainda faz faculdade de direito e está à espera da chegada da primeira filha, em janeiro. “Qualquer pessoa estaria ansiosa, preocupada, estressada e seria natural. Com a esperança de que tudo vai dar certo, busco pensar no maior ensinamento da vida: faça uma coisa de cada vez e defina prioridades. Foque no essencial. Ou seja, é melhor fazer uma perfeita do que 10 mais ou menos. E assim sigo na minha vida pessoal e nas empresas. Na tela do meu celular está o jargão carpe diem: cada dia é um novo dia, novas barreiras e desafios, aproveite, viva o momento, siga em frente”, ensina.

EDUCAÇÃO E SERENIDADE A esperança também está no DNA do coordenador pedagógico de educação física e professor da rede Santa Maria, Haroldo Costa, um praticante de corrida, futebol, musculação e pedalada. “Esperança é acreditar que somos capazes de virar o jogo e minha profissão, de certa forma, exige isso. Sou professor da educação básica, lido com estudantes de 13 a 18 anos no dia a dia e digo que o mundo será sempre melhor, senão perde o sentido. Dou aula para 450 jovens que posso ajudar a serem seres humanos melhores por meio da educação. Essa é a chave, é a minha consciência. E eles acreditam nisso, por mais que seja chato estudar, que o ensino esteja defasado em relação às novas tecnologias. A esperança que move o mundo, de todos nós, é a edução, não só para produzir, mas para entender esse universo facetado em que vivemos.”

De maneira particular, Costa cultiva a esperança por meio do esporte. “Também é o que me move. Pratico diariamente. É minha terapia, lavagem cerebral, força para encarar a vida e um desafio. A determinação para correr a maior distância em menor tempo, para sair da cama num dia chuvoso...”.  Para o educador físico, esperança tem a ver com superação: “Em maio, encarei meu maior desafio, minha primeira maratona no Rio de Janeiro, 42,1 quilômetros. E o legal foi que toda a preparação foi ao lado da minha mulher, Andréia, que correu a meia maratona”, diz.

Na visão do educador físico, a esperança está também na educação financeira. “Um momento difícil, complicado para muitos com a crise econômica, pode nos levar a perceber que podemos ser felizes com menos, ao decidir adotar o consumo consciente, de reaproveitamento. Em casa, estou reformando nosso sofá pela segunda vez; não precisamos comprar um novo e tudo bem. É essencial termos esperança e buscar serenidade. Para encarar esse mundo louco, busco o equilíbrio nas ações e palavras, nem louco, nem alienado. Para mim, é importante a harmonia nas relações. Demorei a me casar, o que decidi há 10 anos. Namorei minha mulher por 17 anos, e ao decidirmos pelo casamento foi de forma madura, equilibrada, o que me trouxe uma relação sincera, honesta e a sabedoria que contribuiu para todas as minhas demais relações interpessoais”, revela.

Um chamado ao enfrentamento

“Não existem fórmulas, mas há momentos de questionamentos que são entendidos como crise pessoal, familiar, do país, mundial, em que aquilo que era antes não serve mais, e o que vem depois não se sabe o que é. A pessoa no meio disso tudo se sente como se estivesse num lago, não pode voltar para trás e tem medo de ir para frente. Fica paralisada. O sentimento é de ruptura. E a ideia é de desconforto, porque o que lhe era familiar não serve mais, seu mundo desestruturou. E, às vezes, não se tem controle. E a absorção desse impacto é diferente de pessoa para pessoa.” Essas são palavras de Maria Clara Jost, doutora em psicologia e psicóloga clínica da Tip-Clínica. Não é mesmo fácil lidar com a crise e regar a esperança quando o meio, seja ele interno ou planetário, está tão estável como uma montanha-russa.

No entanto, Maria Clara assegura que existe, sim, a reestruturação. “A crise o provoca, obriga a se reorganizar. Você pode escolher deprimir e sucumbir ou enfrentá-la e dar um salto qualitativo e se tornar uma pessoa melhor.” O que não dever fazer, avisa a psicóloga, é cair na armadilha, bem comum, de achar culpados: a vida, o mundo, o vizinho, o irmão, a empresa, o chefe, o colega de trabalho, os pais, o filho... “Somos nós. É necessário achar o que nos deixa insatisfeitos. A culpa não é do mundo ou do outro, é de você mesmo. Por isso, é preciso reorganizar e repensar a vida e os valores de si mesmo.”

Assim, cada um terá a oportunidade de “descobrir outras possibilidades e alternativas criativas para sobreviver, caminhos melhores. Depois do sofrimento, se dá um jeito. Diante da crise financeira, por exemplo, muitos aplicam soluções que não imaginavam ter e passam a viver melhor depois da desorganização. Enfrentam a crise e superam. Numa analogia com a Olimpíada, o atleta não fica com raiva do treinador que aumenta seu obstáculo no treino, ele sente como um elogio porque significa que ele pode mais do que está fazendo. O recado do técnico é que aposta e acredita que seu atleta pode mais e ele terá de descobrir uma performance melhor”.

Maria Clara Jost diz que o desafio é um chamado da vida e todos nós precisamos nos posicionar diante dele. “A vida nos faz perguntas com as situações que nos coloca e, à medida que respondemos, temos a chance de dar saltos qualitativos e nos tornar pessoas melhores. Assim, a pessoa se eleva e os outros que estão ao seu redor crescem também. Senão, ficará na zona de conforto e não será provocada.”

UM SENTIDO A doutora em psicologia cita um exemplo arrebatador. A história de vida do médico neuropsiquiatra, psicólogo e filósofo Viktor Frankl, judeu austríaco. “Ele sobreviveu a quatro campos de concentração. Existe crise maior? E respondeu ao mundo: 'Como é possível enfrentar sofrimentos inevitáveis?'. Ele disse que as pessoas descobriam um sentido para a vida, um ideal, uma causa, um amor, em vez de lamentar e culpar porque diante do sofrimento (ou desafio) inevitável, a diferença é como a pessoa se posiciona diante dele e para isso somos livres. O que faz toda a diferença.” Dizem que Frankl morreu aos 92 anos sem rancor, mágoa ou amargura.


Vá atrás do que é bom


A esperança pode ser cultivada e existem ferramentas para alimentá-la. Quem as ensina é o rabino Leonardo Alanati, que, depois de atuar na Federação Israelita do Estado de Minas Gerais, na Congregação Israelita Mineira e na Comunidade Shalom, de São Paulo, ministra palestras como coach pelo Brasil mostrando que é possível estimular as pessoas a superarem suas limitações e atingir seus sonhos nos relacionamentos, na carreira e na espiritualidade. 
“O noticiário não é a vida real, é exceção. O crime, o roubo, o assassinato, o abuso... Não se pode deixar levar por essa exceção. Cada um precisa ficar atento ao positivo, ao que lhe ocorre de bom. Estamos sendo condicionados a ver notícias ruins e temos de buscar o outro lado em todos os aspectos da vida.”

Para ele, já é hora de “treinar as pessoas a ir atrás do que ocorre de bom no mundo, com elas ou o que elas têm de bom, como a saúde, a família, os filhos, os amigos, e a valorizá-los. Esses elementos são importantes. Eles são uma bênção”. Alanati afirma que essa percepção tem de estar nas “pequenas coisas diárias, como o encontro com o amigo e uma gargalhada despretensiosa. Ver o positivo e dar mais ênfase para criar o bem-estar. Se nasceu em condições desfavoráveis, convoque ajuda. Se puder isolar um fator que predispõe a longevidade é o relacionamento social, assim se vive mais e melhor. Não se isole. Aliás, o judaísmo é uma religião da cultura da comunidade”, pontua.

Fundador do Núcleo do Conhecimento Judaico em Belo Horizonte, no qual leciona atualmente, o rabino ensina que a base judaica carrega uma forte mensagem de esperança e ele transmite essa palavra para todos. “O bom judeu passou tragédias terríveis na sua história, escravidão, êxodo, e é um povo que sempre conseguiu se recuperar. É um exemplo de valorização da esperança. A Bíblia como livro da esperança, a parte mais hebraica, projeta em inúmeras passagens mensagens de esperança de como reerguer e reconstruir.”

otimismo Sobre esperança e otimismo, Leonardo Alanati explica: “O otimismo é passivo, é um sentimento de 'vamos melhor no futuro'. Já a esperança é uma atitude de 'todos juntos vamos conseguir sair dessa para uma melhor'. É ativo. O importante é que as pessoas entendam que somos agentes da nossa vida. Quem tem esperança é um ser proativo e responsável pela sua felicidade. Não coloque a culpa no outro. Há pessoas que passam por horrores e ressurgem e há pessoas que nascem abençoadas e estão deprimidas. Você é o agente. Ainda que parte do pessimismo, comprovadamente, seja genético, é possível trabalhar técnicas para superá-lo seja por forças próprias ou pedindo ajuda, mas sempre agindo. Assim, transformará o mundo para melhor. O meu, o seu e o dos demais”, conclui.

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