População LGBT ganha visibilidade, mas violência também é maior

Respeito à diversidade também vem conseguindo mais espaço na sociedade

por Carolina Cotta 24/07/2016 08:30

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Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
Laura Zanotti, primeira mulher trans a protagonizar um filme do governo do estado, O amor transforma preconceitos (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Sentia-me menina, minha vivência era de menina, tinha atitudes de menina de forma natural. Só percebi que não me reconheciam assim quando comecei a ter contato com mais crianças.” As memórias de Laura Zanotti não são muito diferentes das de outras mulheres trans. Sua realidade, talvez. Aos 31 anos, desempregada, depois de quase uma década atuando como supervisora em uma empresa de gestão de pessoas, é ela a personagem do filme O amor transforma preconceitos, do governo do estado de Minas Gerais, com quase 1 milhão de visualizações em pouco mais de uma semana.


A aceitação da família, o emponderamento como mulher trans em uma sociedade que não reconhece a diversidade fazem de Laura uma vencedora. Assim como ela, milhares de outras mulheres que nasceram com o sexo biológico diferente daquele com o qual se reconhecem queriam uma vida na qual pudessem se relacionar, trabalhar e seguir dignamente. Nem todas têm o destino de Laura, que sim, também já enfrentou muito preconceito, mas conseguiu ser respeitada pela família e no ambiente profissional, o que nem sempre é um processo fácil.


A ideia de que as mulheres trans e as travestis tenham a prostituição e as drogas como destino não é uma regra, embora muitas delas, por serem colocadas à margem da sociedade, vivam essa realidade. Especialista em cirurgia de redesignação sexual, popularmente conhecida como cirurgia de mudança de sexo, José Cesário da Silva Almada Lima, professor e coordenador do Serviço de Cirurgia Plástica do Hospital Universitário Ciências Médicas (HUCM-MG), já fez 56 cirurgias do tipo. “Apenas duas pacientes eram profissionais do sexo. A maioria é casada”, desmistifica.


Mas o preconceito e a violência são uma realidade. Segundo a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), a homofobia pode ser definida como o medo, a aversão ou o ódio irracional aos homossexuais, e, por extensão, a todos os que manifestem orientação sexual ou identidade de gênero diferentes dos padrões heteronormativos. O conceito ganhou o domínio público, no ativismo, na academia e também na mídia, ainda que seja pouco preciso para descrever o largo espectro de fenômenos aos quais se refere. É nesse contexto que o termo LGBTfobia vem sendo priorizado.


Alguns estudiosos argumentam que há uma grande dificuldade em se perceber a homofobia como fenômeno relacionado a questões e relações de gênero, já que o termo, na maioria das vezes, se refere apenas a casos de discriminação contra homossexuais masculinos. Já LGBTfobia contempla a discriminação, intolerância e violência contra lésbicas, gays, bisexuais, transexuais e travestis. E essa vem crescendo à medida que essas pessoas ganham mais visibilidade. Trata-se de um problema social e político dos mais graves, mas que varia de intensidade e frequência, de sociedade para sociedade.

RISCOS Segundo o banco de dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), atualizados diariamente no site Quem a homotransfobia matou hoje, só em 2015 foram assassinadas 318 pessoas do grupo LGBT, o que configura média de um crime de ódio a cada 27 horas. Desses, 52% são gays, 37% travestis, 16% lésbicas e 10% bissexuais. A LGBTfobia mata, inclusive, pessoas não LGBT. Afinal, 7% das vítimas foram heterossexuais confundidos com gays e 1% eram amantes de travestis. O problema é que esses dados são subestimados, mas são mais reais que os do governo, pelo menos.


Os dados oficiais não são fiéis ao que ocorre no Brasil. De acordo com o último Relatório de Violência Homofóbica no Brasil, referente a 2013, foram registrados 26 homicídios motivados por homofobia e transfobia naquele ano, pela Secretaria de Direitos Humanos, ligada à Presidência da República. No mesmo ano, o GGB contabilizou 312 mortes por essa razão. Proporcionalmente, as travestis e transexuais são as mais vitimizadas: o risco de uma “trans” ser assassinada é 14 vezes maior que o de um gay. Se compararmos com os Estados Unidos, onde 21 trans foram assassinadas, contra as 119 travestis brasileiras, a chance de morte no Brasil é nove vezes maior.


Para que Laura siga em paz, o respeito à diversidade precisa ganhar espaço nas escolas, nas igrejas, no ambiente profissional, na sociedade como um todo. Só a educação e uma mudança de cultura permitirão que brasileiros discriminados pelo simples fato de não se adequarem ao comportamento da maioria, sejam respeitados. A luta contra a LGBTfobia tem ganhado novos personagens, mas muito ainda precisa mudar. Hoje, o Bem Viver mostra a história de pessoas que estão vencendo o preconceito. Que essas histórias inspirem tantas outras.



Amor que acolhe
A tolerância da sociedade começa pela aceitação das famílias com seus filhos e filhas homossexuais ou transexuais. Mais conscientização transformou em malvista a figura do opressor

Jair Amaral/EM/D.A Press
Lucca Najar, homem trans, acaba de começar sua transição (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Tudo ainda é muito novo para Lucca Najar, de 25 anos, estudante de cinema e audiovisual. Dias atrás, ele ainda namorava Bruna. Meses atrás, ele ainda não se apresentava como um homem trans, embora o término não tenha tido qualquer impacto no seu recente processo de transição. “Pelo contrário, ela me ajudou demais”, deixa claro. Assumir sua identidade de gênero não foi um processo fácil, mas poderia ser mais difícil se ele não tivesse tido o apoio da família, da namorada, da faculdade onde estuda e trabalha como técnico no laboratório de cinema.

“Não me sentia bem comigo mesmo e comecei a pesquisar sobre a transexualidade. Bem novo, lembro-me de ter certeza de ser um menino. Até uns 10 anos de idade, isso era claro para mim. Quando entrei na adolescência e meu corpo foi se transformando, me vi obrigado a me readequar à sociedade. Vivi uma infância e uma adolescência frustrado comigo mesmo”, lembra o garoto. Foi na faculdade que ele diz ter se conhecido melhor e mesmo entendido que existia outra identidade de gênero. “Apesar de me sentir um menino desde cedo, a consciência da minha identidade de gênero foi tardia”, conta.

A mãe de Lucca sempre o deixou se vestir como queria. “Lembro-me de irmos às lojas com minha irmã mais velha e a vendedora perguntar: ‘Não vai olhar nada pra ele?’ As pessoas me viam como um menino. Mas na escola eu não usava o banheiro. Tinha vergonha de entrar. Também lembro de ficar sempre no final das filas, quando dividiam entre menino e menina. Pensava que, no lugar do “bagunceiro”, ninguém ia me ver. Observava meu pai fazendo xixi em pé e não entendia por que não conseguia”, lembra. Mais recentemente, Lucca gostava de usar calça larga, que revelassem a cueca. Ao mesmo tempo, usava o cabelo grande.

Foi depois de conhecer outros meninos trans, que passaram recentemente pela transição, que ficou mais claro para Lucca que era o que ele também queria. “Em maio deste ano entrei em crise de identidade, mais ou menos quando começaram as discussões sobre as campanhas publicitárias sobre roupa sem gênero. Sempre tive problema para comprar roupa, porque usava as da sessão masculina e tinha que experimentar na sessão feminina. Comecei a fazer terapia e assumi meu nome social e pretendo trocá-lo no registro. Ainda não comecei a tomar hormônios, mas quero fazê-lo. Assim como a cirurgia para a retirada das mamas. Tudo tem seu tempo”, revela.

RELACIONAMENTO A namorada, agora ex, também deu todo apoio possível. A estudante de direito Bruna Pimenta, de 21, conheceu Lucca nas redes sociais, quando ele ainda não se posicionava como um homem trans. “Conheci uma mulher lésbica, como eu, mas que gostava de se vestir com roupas masculinas, embora usasse cabelo grande. Namoramos mais de um ano, mas tivemos muitos conflitos no início. O Lucca não se entendia, então não tinha referências. Fui a primeira a saber que ele queria fazer a transição e o vejo totalmente diferente do que o conheci. Ele está mais feliz com ele”, conta Bruna, que nunca tinha se relacionado com um homem trans até então.

Quando Lucca lhe contou sobre a transição não foi uma surpresa tão grande para ela. “Já imaginava que isso podia passar pela cabeça dele. Sempre vi nele uma cabeça bem masculina. Eu o percebia cheio de conflitos internos, confuso, como se algo estivesse errado. Ele me mandou um e-mail contando e eu disse que não iria contra isso, que iria apoiá-lo. De repente passei a namorar um menino, mas meu sentimento não mudou. O que prevalece é a pessoa”, conta Bruna, que, antes de conhecê-lo, não entendia muito o termo trans, tendo se informado melhor depois que vivenciou o processo ao lado de Lucca.

Mas como é ser lésbica e namorar um homem trans? Primeiro, é preciso ter clareza de que orientação sexual é diferente de identidade de gênero e sexo biológico (veja box). Uma coisa é como a pessoa nasce, outra é como ela se reconhece e outra coisa é por quem ela tem atração. Bruna, por exemplo, é uma mulher homossexual, ou seja, se reconhece como mulher e gosta de mulheres. Lucca nasceu com vagina, se reconhece como homem e sente atração por mulheres. É, portanto, um homem trans heterossexual.

“Conheço meninas que terminaram seus relacionamentos porque as namoradas se assumiram homens trans. Sou lésbica e sinto atração por mulheres, mas mesmo que o Lucca optasse por uma cirurgia, isso não ia mudar meu sentimento”, explica Bruna, segundo a qual o término entre os dois nada tem a ver com a transição. Em outros tempos, passar pela situação pela qual passou seria mais complicado que hoje. “As portas já se abrem mais, mas não tanto quanto deveriam. Sinto a sociedade mais maleável, já não reprimem tanto quanto antes. Hoje, o homofóbico, o opressor é malvisto.

Aceitação familiar

A transição de Lucca, claro, tornou-se também uma questão para Bruna. Afinal, ela tinha apresentado a namorada para a família e depois teve que apresentá-lo novamente, já como namorado. Mas sua família também foi compreensível. “Minha avó ficou um pouco confusa. Ela já o conhecia como minha namorada, quando o levei novamente na casa dela e disse que agora ele era o Lucca, meu namorado, ela não sabia se falava ele ou ela. Na mesma noite, me ligou e pediu desculpas pelas confusões. Disse que o chamaria da forma que eu falasse para ela que era certo e pediu que o levasse lá mais vezes”, conta.

Apesar do apoio dos mais próximos, Lucca já passou por situações constrangedoras, desde que começou a transição. A mais recente foi na academia. Um aluno reclamou na gerência que uma menina estava usando o banheiro masculino e que aquilo poderia ser perigoso pra ela. O gerente foi atrás de Lucca e ele se posicionou. “Disse a ele que sou um homem trans e que usaria o banheiro masculino sim. Houve uma tentativa de intimidação, mas também percebo a consciência das pessoas mudando”, conta. Em casa também. Apesar de os pais o apoiarem, ele sente que o pai, às vezes, ainda fica confuso em tratá-lo como ele. “Não tive problema de não aceitação”, diz.

Arquivo Pessoal
João e a mãe Celina, que acolheu com respeito e carinho o filho homossexual (foto: Arquivo Pessoal)
A questão dos homossexuais não é menos problemática. Ainda existem pais que colocam seus filhos gays e filhas lésbicas para fora de casa, cortam relações, não respeitam suas orientações sexuais. Mas crescem os relatos de famílias que acolhem seus filhos, independentemente de 'por quem sentem atração'. O cineasta João Ricardo Barroso Batista, de 23 anos, passou por isso. “De uma família grande, de quatro irmãos, filho de professora e pai militar, passei muito tempo da minha vida presenciando discursos homofóbicos e machistas por parte do meu pai, mas o tempo foi passando, meu pai estudando e esses seus discursos foram mudando. Hoje, parece outra pessoa”, conta.

CONVERSA Já a mãe sempre teve a abertura para escutar os filhos, mas, mesmo assim, João tinha medo de contar que era gay. “Quando estava com uns 21 anos, tremendo de nervoso, chamei meus pais para conversar e contar. A reação deles foi surpreendente, foi uma aceitação instantânea, com muito amor e abraço. Saí aliviado daquele quarto, sabendo que, a partir de então, seria quem sempre fui”, conta João, segundo o qual a aceitação da família foi tranquila, “exceto de uma parte mais conservadora, que preferiu se distanciar de mim. Lidei da forma mais natural possível. Contanto que me respeitem, estamos bem”, acredita.

Mas ele ainda precisa combater falas homofóbicas que surgem no seu núcleo familiar, embora se sinta privilegiado por ter tido a aceitação da família. A mãe, Celina, conta que todos na família, inclusive ela, tinham uma desconfiança. “Nada me causou uma sensação de estranheza, minha única preocupação quando ele me contou foi de que ele poderia sofrer muito pelo preconceito social ou até mesmo algum tipo de violência. Nada mudou em relação a sentimento de amor e carinho, nem mesmo do seu pai. Disse que ele era um homem de bem e isso é o que importa para nós”, comenta.

ENTENDA A DIFERENÇA
Sexo é uma referência às características biológicas do corpo de uma pessoa e pode ser feminino, masculino ou intersexo, quando a pessoa tem característica dos dois.
Identidade de gênero é como a pessoa se vê. Ela pode se enxergar mulher, homem ou neutra, quando não se identifica com nenhum dos gêneros. Há também aquelas que se veem como uma combinação entre feminino e masculino.
Orientação sexual está relacionada à atração. Há quem se sinta atraída pelo sexo oposto (heterossexuais), aquelas em que o interesse é por alguém do mesmo sexo (homossexuais) e os bissexuais, que sentem atração pelos dois sexos.

A parte de cada um
A luta contra a lgbtfobia deve passar pelas instituições. Governo, igreja, escolas e a mídia são essenciais para combater o preconceito, a discriminação e a violência que ainda existem

Tem bodas de ouro no interior e Jussara, que fugiu de casa ainda criança para se assumir como uma mulher trans, volta à casa dos pais, já com sua família constituída, para celebrar a data com a família. Com essa história, o filme O amor transforma preconceitos, assinado pela 2004 Comunicação, já tem quase 1 milhão de visualizações só nas redes sociais. Parte da campanha “Livres & Iguais”, da ONU Brasil, o filme retrata o preconceito sofrido por uma transexual dentro de casa, num movimento da Secretaria de Estado de Direitos Humanos, Participação e Cidadania (SEDPAC) para enfrentar a LGBTfobia.

Divulgação/2004 Comunicação
O ator mirim Paulo Moura, um dos personagens do filme contra a LGBTfobia (foto: Divulgação/2004 Comunicação)
Segundo Douglas Miranda, coordenador especial de políticas de diversidade sexual da secretaria, a ideia é mostrar que a população LGBT existe em qualquer lugar, não só em guetos. “Daí um filme que se passa no ambiente rural, no interior do estado. Mostramos a história de uma criança humilde, que sequer entendia o que era ser uma mulher trans e que foge de casa, para voltar, com a família que constituiu, para as bodas dos pais. Mais de 60% dos municípios mineiros têm até 30 mil habitantes. O interior também precisa de políticas LGBT, infelizmente concentradas nas regiões metropolitanas, onde o preconceito é mais diluído”, defende Douglas.

É a primeira vez que uma pessoa transexual protagoniza um filme no governo de Minas Gerais e, segundo Carlos Camargos Mendonça, professor e pesquisador do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais, é de extrema importância que seja produzido esse tipo de mensagem. Coordenador do núcleo de estudos em estéticas do performático e experiência comunicacional, Carlos se interessa pela forma como a lgbtfobia é representada na mídia.

Segundo o pesquisador, a publicidade atua sobre as lógicas de regulação do mercado e se ela abre mais espaço é porque percebe que há um mercado favorável. “A publicidade, assim, não inaugura nada, mas reflete sobre algo amadurecido na sociedade”, explica. O exemplo são campanhas recentes de anunciantes como Avon, Boticário, Tam, Unimed e várias outras que perceberam a importância do mercado LGBT e têm representado essa população em suas campanhas. Na história da publicidade, no começo dos anos 1990, já havia algum movimento nesse sentido, que ganhou incremento nos anos 2000 e, nos últimos quatro anos, ficou mais intenso.

“Essa questão está mais presente em uma série de discussões na sociedade, com presença nas novelas. Estamos falando de relações midiáticas tramadas em si e, desse jeito, se produz o discurso midiático nas novelas, nas conversas, na forma como esses corpos aparecem”, explica o especialista. A população LGBT, portanto, há algum tempo vem sendo retratada na mídia, mas só mais recentemente se mostra uma troca de afetos entre eles, como ocorreu nas novelas Amor e revolução, do SBT, e em Amor à vida, na Globo. Na semana passada, em Liberdade, liberdade, foi exibida a primeira cena de sexo entre dois homens.

A presença de personagens gays, em si, na opinião de Carlos, não significa um avanço, pois isso depende da forma como são retratados. “Se a cena apresenta o corpo gay ou lésbico caricaturado, temos um grande problema, porque ele aparece no aspecto risível.” O avanço da mídia nos últimos anos, portanto, veio ao representar a diversidade e a manifestação afetiva desses corpos, que exercitam seu desejo. “Isso é fundamental, porque não adianta poder ser homo e não poder praticar essa orientação também na mídia”, explica. As novelas e as campanhas publicitárias, portanto, conseguiram avançar, mas a questão segue problemática na cobertura jornalística.

Segundo Carlos, a produção discursiva na cobertura de crimes de ódio ainda é problemática. “O corpo sofre, então, duas violências. O ato de violência em si, que chega aos jornais, e a violência da forma como é retratado. Nesse lugar, então, ainda não há avanços.” Muito disso ocorre porque as apurações são feitas baseadas nos boletins de ocorrência, onde só aparece o nome civil. Uma mulher trans assassinada, portanto, será identificada como um homem gay. Por isso é tão grande o índice de homens gays atacados quando, na realidade, esse número poderia ser dividido entre homens gays e mulheres trans”, explica.

Só no início deste ano, os boletins de ocorrência de Minas Gerais passaram a contemplar o nome social, mas também campos sobre identidade de gênero e orientação sexual. Segundo Douglas Miranda, os policiais também precisam preencher agora o campo de causa presumida, para ajudar a mapear o que é realmente crime ligado à LGBTfobia. Enquanto o relatório do Grupo Gay da Bahia relata 26 mortes em Minas, em 2015, por esse tipo de crime, só este ano, na Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte, já foram registrados três assassinatos de transexuais.

O Disque 100, Disque Direitos Humanos, recebeu 1.983 denúncias de violação de direito de pessoas LGBT, somente em 2015. “Isso vai desde o não reconhecimento do nome social das pessoas transexuais, a expulsões de bares e espancamentos na rua. É clara, portanto, a subnotificação. A esperança de conter a LGBTfobia está atrelada à aprovação Projeto de Lei da Câmara (PLC) 122/2006, que propõe a criminalização da homofobia e torna crime a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, equiparando essa situação à discriminação de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, sexo e gênero, ficando o autor do crime sujeito a pena, reclusão e multa.

A conscientização da população LGBT, o apoio de seus familiares, a visibilidade correta na mídia, os projetos de escolas e universidades e a sensibilização da sociedade também farão a diferença. Enquanto isso não ocorrer, continuará sobrando aos transexuais a penumbra e a ideia de que essas pessoas estão sempre ligadas à prostituição e ao tráfico, e nunca como uma pessoa que leva uma vida comum. “O preconceito empurra as pessoas para a margem e o corpo trans sofre muito. Por isso é muito importante que existam filmes como o do governo do estado”, defende Carlos.

DISCUSSÕES Conteúdo similar também tem sido produzido dentro de universidades que lidam com a questão mais de perto. Um exemplo é o projeto Una-se contra a LGBTfobia, programa de extensão da faculdade de mesmo nome, que visa oferecer uma formação cidadã para os futuros profissionais que forma. Segundo o coordenador do projeto, o professor Roberto Reis, é papel da escola fornecer a formação técnica, voltada para o mercado, mas também uma formação cidadã, que pense na sociedade plural em que vivemos. Além de campanhas e discussões sobre o tema, o projeto, com cinco anos, já implantou o nome social em todos os documentos da universidade.

As discussões promovidas também provocam o processo criativo de alguns alunos. O curta Ingrid, que aborda as vivências de uma atriz transexual, foi indicado ao Festival de Gramado e já participou de diversos festivais no Brasil. No 6º Rio Festival de Gênero e Sexualidade no Cinema, ganhou o prêmio de melhor Transcinema, pelo júri popular. “Buscamos dar voz à Ingrid. Como estratégia, demos a ela um gravador de áudio para que pudesse gravar relatos sobre os processos pelos quais passou: a transformação do corpo, os sentimentos de inadequação, autoestima e experiência vividos. Ela fala de si, mas também fala de vivências de centenas de mulheres trans no país”, conta o diretor Maick Hannder.

 

Derrubando barreiras

Laura Zanotti não teve dúvidas quando viu a oportunidade de protagonizar um filme sobre o universo trans. Mesmo sem ser atriz, viu ali a oportunidade de dar mais visibilidade aos travestis e transexuais. Com 31 anos, moradora de Belo Horizonte desde 2006, a mulher trans, respeitada pela família e no ambiente profissional, quis promover a discussão e, quem sabe, ver outras pessoas trans terem uma perspectiva melhor de vida. Como a maioria das mulheres trans, Laura só começou a problematizar sua identidade de gênero quando percebeu que outras crianças como ela tinham comportamento diferente.

Minha família nunca me reprimiu. Vivi isso na escola e foi um grande impacto. Não tinha conhecimento do que era. Não entendia porque havia algo errado com o fato de ser delicada e ter trejeitos de menina. Na minha cabeça, eu era uma menina”, conta. Aos 15 anos, Laura começou a ter contato com o universo gay. Como se interessava por meninos, achou que era homossexual e assim viveu até os 18 anos, quando percebeu que também não se identificava. Só quanto conheceu pessoas transexuais e travestis descobriu o que realmente se passava com ela.

Há dois anos, Laura fez um implante de silicone, mas não fez a cirurgia de redesignação sexual, um procedimento caro e pouco acessível no Sistema Único de Saúde. “Mas consigo me reconhecer mulher no meu corpo. Se a cirurgia fosse mais acessível, talvez fizesse.” Ela também não mudou o nome de registro, mas está se preparando para começar o processo. No mais, já venceu muita coisa até aqui, como o fato de ter se assumido no ambiente de trabalho, aos poucos, onde tinha um cargo de supervisora. Para começar no trabalho, entretanto, ela teve que se descaracterizar e assumir um visual masculino com o qual não se identificava.

Foi para chamar atenção sobre essa realidade que ela topou fazer o filme. Para Paulo Moura, o ator de 10 anos que vive o menino que se descobre trans, as questões eram diferentes. O pai do garoto, o funcionário público Vicente de Paulo Rogério Filho, de 45, conta que conversou muito com o filho antes de dizerem sim ou não ao papel. Expliquei que, talvez, ele tivesse que passar batom, esmalte, para representar uma situação. Ele me disse que não tinha problema, que o ator faz qualquer papel”, lembra Vicente, que cria Paulo e outra filha sozinho, fazendo papel de pai e mãe.

A preocupação de Vicente era com um possível bullying na escola. “No início, a família teve um pouco de resistência, estávamos receosos que ele sofresse. Por isso, deixei muito claro os prós e contras. Seria bom para a carreira, mas poderia ser ruim pelo preconceito que poderia sofrer”, explica. No final, Vicente acha que o filme foi importante inclusive para desmistificar algumas questões de sua própria casa. “Já somos uma família diferente. Eu, o pai, cria os filhos sozinhos. Faço o papel de pai e de mãe. Muitas vezes ouço as pessoas falando que eu não precisava passar por isso, que a mãe que deveria criá-los. Precisamos mudar o pensamento da sociedade”, explica.

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