Técnica reduz células modificadas para tratar doenças metabólicas

O método também diminui o risco de efeitos adversos, como o surgimento de cânceres

por Isabela de Oliveira 22/06/2016 15:00

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Pesquisadores da Oregon Health & Science University, nos Estados Unidos, desenvolveram uma técnica que pode vencer um dos maiores gargalos da terapia genética: a geração de células geneticamente corrigidas que sejam eficientes para reparar doenças e lesões, mas sem a necessidade de injeção de grande quantidade delas nos pacientes. O novo método, testado inicialmente no fígado, não impõe risco de efeitos adversos, como cânceres, e pode ser adaptado para tratar problemas em outros órgãos, por exemplo, a pele e o intestino.

Até então, as tentativas de modificar e transplantar células geneticamente corrigidas, tendo como vetor um vírus ou uma bactéria, exigem milhares de exemplares dessas estruturas especiais, sendo que muitas não sobrevivem no corpo do paciente. “Por serem vivas, elas nem sempre se comportam como esperamos. Os primeiros testes com geneterapia apresentaram resposta imune ao vetor que leva as células aos órgãos ou às próprias células, trazendo complicações trágicas. Isso limita a aplicação clínica da geneterapia”, explica Sean Nygaard, principal autor do estudo, divulgado na última edição da revista Science Translational Medicine.

Para solucionar o problema, os cientistas criaram um método de seleção (Leia Duas perguntas para) que dispensa quantidades cavalares de células ao permitir que elas proliferem dentro do corpo do paciente. “Não só fomos capazes de alcançar a expressão terapêutica de transgenes (as células modificadas) com doses mais baixas de vetores, porque transplantamos menos células, como esses vetores não promoveram a ativação de outros genes que não fossem o que queríamos”, diz o pesquisador, frisando que essa ativação inadequada pode causar câncer, entre outros problemas.

Repopulação
No primeiro experimento, os cientistas transplantaram para o fígado de ratos células que expressam o fator 9, uma proteína ausente na hemofilia B e responsável pela coagulação. Com esse gene terapêutico, os vetores virais transportaram uma molécula artificial de RNA que tem a forma de um grampo de cabelo pequeno, o shRNA. Sua principal função é anular a atividade de uma enzima específica no fígado, permitindo que as células especiais sejam mais resistentes à droga cehpoba, que é tóxica e prejudica o funcionamento celular do órgão. O uso do medicamento foi escolhido por ter um efeito parecido ao da hemofilia B.

Além de terem sido as únicas sobreviventes no fígado, as células transplantadas aumentaram mil vezes em quantidade, repopulando completamente o órgão com células saudáveis e funcionais. “Estamos muito animados por termos verificado que nossa técnica de terapia genética e também nossos vetores podem desencadear uma expressão robusta de transgenes apenas com doses moderadas”, diz Nygaard.

Ardi Barzel, do Departamento de Pediatria e Genética da Escola de Medicina de Stanford (EUA), considera o método promissor. “Eu acho que ele pavimenta o caminho para tratamentos de muitos problemas metabólicos, como doença de armazenamento de glicogênio e de depósito lisossômico, desordens do ciclo de ureia e muitas outras”, considera o especialista. “Ele também permitiria a expressão de genes que podem ser importantes para nova modulações de anticorpos.”


Markus Grompe, Oregon Health & Science University e autor sênior do estudo

O que é o princípio de seleção que o senhor se refere no artigo?

Em algumas condições, certas células saudáveis têm vantagem sobre as doentes. Nessas condições, crianças com doenças genéticas, por exemplo, podem ter suas deficiências corrigidas espontaneamente. O mesmo princípio é usado para a geneterapia no sangue, mas o paciente recebe quimioterapia e radiação para que as células corrigidas pela terapia sejam numericamente dominantes em relação às doentes. Então, se o médico simplesmente injetar células-tronco de medula óssea em um paciente que necessita de transplante para leucemia, por exemplo, essas células não vão oferecer benefícios terapêuticos. Isso só ocorre quando o paciente é condicionado com os tratamentos. Esse princípio de seleção de células saudáveis ainda não tinha sido aplicado em outros tecidos, como os do fígado. Nosso grande avanço foi ter feito isso com a droga que desenvolvemos com o transgene resistente.

A estratégia poderá ser aplicada também em humanos?

Ela tem potencial para ser usada em humanos porque sabemos que, na doença humana genética que estamos imitando com a droga cehpoba (a hemofilia B), há, devido à falha genética, uma seleção muito potente de hepatócitos. Além dessa doença, os médicos poderão aplicar a ideia usando outras drogas e genes, encontrando novas formas de explorar o princípio. Embora eu não possa dizer agora que nossa metodologia vai evoluir para um protocolo clínico, estou confiante que o princípio de condicionamento do fígado tem um grande potencial.

Em excesso

A primeira é caracterizada pela deficiência hereditária de uma enzima que cuida da síntese do glicogênio, a principal reserva energética humana. Mais comum em criança, tem entre os sintomas o aumento progressivo do fígado e a diminuição do tônus muscular. A doença de depósito lisossômico envolve cerca de 40 distúrbios que prejudicam a função dos lisossomos, ligados à renovação celular. Os sintomas variam conforme a estrutura prejudicada, de comprometimento da capacidade de transpirar a pneumonia crônica.

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