Coma: quantidade de glicose consumida pelo cérebro pode auxiliar médicos a avaliarem chance de recuperação

Ao medir a quantidade de açúcar consumida pelo cérebro lesionado, médicos poderão indicar as chances de um paciente retomar a consciência em um ano, indica grupo internacional de cientistas

por Correio Braziliense 14/06/2016 15:00

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CB / D.A Press
(foto: CB / D.A Press)
Um dos maiores desafios para médicos que lidam com pacientes que sofreram graves traumatismos cranianos é diagnosticar e prever a recuperação da consciência. Mesmo quando os danos foram severos e, aparentemente, não há qualquer tipo de resposta a estímulos, algumas dessas pessoas se mantêm alertas em algum nível. Agora, pesquisadores das universidades de Copenhague, na Dinamarca, e de Yale, nos Estados Unidos, e de Liège, na Bélgica, afirmam, no jornal Current Biology, terem descoberto evidências de que é possível fazer um prognóstico rápido e preciso dessa condição. De acordo com eles, a quantidade de glicose consumida pelo cérebro prediz, diretamente, o nível atual de atenção e a probabilidade de recuperação da consciência de uma pessoa dentro de um ano.

“Em quase todos os casos, o volume energético total do cérebro previu, diretamente, o nível atual de consciência ou sua recuperação subsequente”, contou Ron Kupers, pesquisador de Copenhague e Yale. “Em resumo, nossa descoberta indica que há uma quantidade mínima de energia necessária para permitir que a consciência emerja após um dano cerebral”, disse. Na pesquisa, a equipe liderada por Kupers e Johan Stender pretendia desenvolver um marcador diagnóstico mais confiável para verificar os níveis de consciência do momento presente e do futuro a fim de complementar a rotina de exames clínicos em vítimas de lesões cerebrais.

Glicose radioativa

Para isso, quantificou e mapeou o metabolismo da glicose no cérebro de 131 pacientes, sendo que todos sofreram perda total ou parcial da consciência. Os cientistas mediram o metabolismo do açúcar usando o PET-FDG, uma técnica de imagem na qual a glicose marcada com um traço de molécula radioativa é injetada na corrente sanguínea. Dessa forma, é possível capturar e mapear o consumo de glicose em qualquer órgão de interesse — que, nesse caso, era o cérebro.

Os resultados mostraram que os níveis individuais de resposta comportamental dos pacientes estavam fortemente associados ao consumo geral de energia pelo cérebro. De fato, pacientes com metabolismo de glicose abaixo de 42% da atividade cortical normal pareciam completamente inscientes e não se recuperaram dentro de um ano, período em que foram acompanhados pelos cientistas. Por outro lado, todos aqueles com atividade metabólica no cérebro acima desse parâmetro mostraram sinais de alerta nos primeiros exames ou se recuperaram 12 meses depois.

“A descoberta de uma fronteira metabólica clara entre o estado de consciência e o de inconsciência pode implicar que o cérebro passa por um estágio de mudança fundamental em certo nível de consumo energético”, disse Stender. De acordo com o pesquisador, o metabolismo do açúcar funciona como uma ignição, que “liga” a atividade cerebral a certo nível. “Nós não conseguimos testar essa hipótese diretamente, mas nosso estudo forneceu uma direção muito interessante para pesquisas futuras”, complementou.

“Por ora, a mensagem que temos é que a consciência é um processo que demanda imensamente a energia, envolvendo o cérebro como um todo”, completou Ron Kupers. “Esse traço fisiológico fundamental pode ajudar os médicos a determinarem o potencial de recuperação de consciência dos pacientes que sofreram qualquer tipo de lesão cerebral.” Cautelosos, os pesquisadores observaram que é importante verificar a descoberta em um número maior de pacientes. Também afirmaram que esperam explorar, agora, como o metabolismo cerebral muda ao longo do tempo em pessoas que tiveram traumatismo.

Novo controle da anestesia geral
Um novo mecanismo para verificar a resposta do corpo à cirurgia poderá levar a um controle melhor da anestesia nas salas de operação, a menos dor no momento de recuperação da consciência e a resultados mais positivos de cirurgias. De acordo com um estudo publicado na edição on-line da revista Anesthesiology, da Sociedade Americana de Anestesistas, a medida, chamada índice de nível de nocicepção (dor), permitiu aos médicos avaliar com mais precisão as respostas de estímulos dolorosos em pacientes que receberam anestesia geral.

“Atualmente, não há um método padronizado e objetivo para monitorar a efetividade das drogas de alívio da dor administradas durante a cirurgia”, disse Ruth Edry, principal autora do estudo e anestesista do Centro Médico Rambam, em Haifa, Israel. “Não monitorar efetivamente as respostas corporais aos estímulos de dor pode levar à administração de quantidades elevadas de medicação, o que resulta em dor severa do paciente após o reganho de consciência. Ao mesmo tempo, um excesso de medicamento pode causar outros efeitos colaterais, como náusea e vômito ou, ainda, complicações respiratórias.”

Sob anestesia geral, os pacientes ficam inconscientes, mas o corpo continua a mostrar respostas a reflexos, incluindo alterações nos batimentos cardíacos e na pressão sanguínea, derramamento de lágrima e formação de suor. Esses reflexos indesejados podem, em alguns casos, ser perigosos, e cabe ao médico ajustar a quantidade da sedação e dos analgésicos quando eles ocorrem. O índice proposto, que usa uma combinação de algoritmos para processar múltiplas reações hormonais e neurológicas, fornece medidas mais acuradas das respostas do corpo durante a cirurgia, comparado ao monitoramento tradicional, baseado em fatores como mudanças nos batimentos e na pressão.

Reflexos monitorados

No estudo, foram examinados 58 pacientes anestesiados. O acompanhamento de rotina foi suplementado por um equipamento de monitoramento de dor que gera o índice de nocicepção. Esse último verificou os reflexos em diversos estágios, incluindo a intubação e a incisão na pele, além de fases da operação que não provocam dor. Comparado ao método tradicional, o índice discriminou melhor o reflexo causado por estímulos realmente dolorosos daqueles que, embora não dolorosos, também desencadeiam reações automáticas do corpo.

O índice também quantificou com maior acurácia a resposta corporal a estimulações progressivamente dolorosas, com alta sensitividade e especificidade, mostrando um decréscimo quando o medicamento analgésico era administrado. “Nossos resultados demostraram a superioridade de combinar medidas fisiológica múltiplas sobre um parâmetro único de avaliação da resposta do corpo à dor durante uma cirurgia”, disse Edry. “O artigo apresenta um índice efetivo para acompanhar a resposta do corpo em pacientes anestesiados. Uma vez incorporado à prática clínica, poderemos conduzir estudos de larga escala para verificar melhor a influência desse monitor no resultado das cirurgias.”

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