Glaucoma e catarata: tudo o que você precisa saber sobre as duas doenças mais graves dos olhos

Apesar de a catarata ser a primeira causa de cegueira no mundo, ela é reversível e, após a cirurgia, o paciente volta a enxergar. Já o glaucoma é mais grave, menos conhecido e a cegueira é irreversível

por Valéria Mendes 26/05/2016 10:00

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Catarata e glaucoma são as duas principais causas de cegueira no mundo. Ambas são assintomáticas e quanto mais cedo o diagnóstico, melhor o resultado visual (foto: SXC.hu)
O diagnóstico tardio e a falta de informação sobre o glaucoma ainda são os principais desafios do Brasil para conter o avanço da cegueira causada pela doença. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o glaucoma é a primeira causa de cegueira irreversível no mundo - por ano, são registrados 2,4 milhões de novos casos. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG) estima que um milhão de brasileiros e brasileiras sofrem com o problema e 70% deles sequer sabem que têm a doença. “O aumento da expectativa de vida da população é um fator que contribui para o aumento do número de casos, desempenhando um papel importante na sua prevalência e incidência. Muito tem sido feito, mas a despeito de todos os esforços empreendidos, o glaucoma continua cegando milhões de pacientes em todo mundo. Portanto, muito há que se fazer”, alerta o presidente da SBG, Marcelo Palis Ventura.

Secretário-geral da SBG e oftalmologista do Centro Oftalmológico e do Instituto de Olhos Pampulha, ambos em BH, Emilio Suzuki cita uma pesquisa realizada pelo Ibope em 2013 que ilustra a desinformação sobre o glaucoma no país. O levantamento encomendado pela própria SBG entrevistou mais de 2 mil pessoas em várias cidades do Brasil e mostrou que as pessoas não sabiam que o glaucoma era uma doença dos olhos e acreditavam que a enfermidade tinha cura. Por ser uma doença assintomática na fase inicial, essa falta de informação é um perigo enorme para a população. É sério porque o primeiro sintoma já é perda da visão periférica e quando o paciente chega ao consultório com essa queixa já não é mais possível reverter o quadro, apenas frear a doença. Pesquisas indicam que cerca de 80% das pessoas que têm a doença só procuram o oftalmologista após sentirem essas alterações.

Coordenador do Departamento de Glaucoma do Hospital de Olhos Rui Marinho, o oftalmologista Marcos Vianello cita ainda outro dado alarmante em relação ao cuidado do brasileiro com a saúde dos olhos. “Pesquisa da SBG mostra que 40% dos brasileiros nunca foram ao oftalmologista e 20% foi apenas uma vez. Os outros 40% visitam com certa regularidade o oftalmologista”, afirma. O especialista alerta que exames em óticas e exames feitos no Detran não podem ser considerados exames de vista e pede para que toda a população exija em uma consulta com o oftalmologista, a medida da pressão ocular e o exame de fundo de olho. “O paciente deve cobrar do médico esses procedimentos”, afirma.

Arquivo Pessoal
"O diagnóstico precoce é a parte fundamental do manejo do glaucoma como um todo. Quando mais cedo o paciente chegar ao médico, menos danos ele terá na visão" - Emilio Suzuki (foto: Arquivo Pessoal )
Por ser uma doença silenciosa, o glaucoma não apresenta sintomas e a pessoa não consegue perceber que sua capacidade visual está sendo reduzida. Até que o paciente note alguma dificuldade de enxergar, já pode ter ocorrido uma perda de 60% a 80% das fibras nervosas do nervo óptico. Apesar de não ter cura, o glaucoma tem tratamento simples e eficaz que, em mais de 80% dos casos, consiste no uso diário de colírio que tem por objetivo impedir a evolução da doença. “O diagnóstico precoce é a parte fundamental do manejo do glaucoma como um todo. Quando mais cedo o paciente chegar ao médico, menos danos ele terá na visão”, afirma Emilio Suzuki.

O especialista explica que o primeiro sinal da doença é a pressão ocular aumentada, apesar de existirem casos de glaucoma com pressão ocular baixa. “O nervo óptico é uma estrutura muito delicada responsável por fazer a ligação do olho com o cérebro. À medida que a pressão vai aumentando ela vai corroendo o nervo óptico. Diferentemente de outros nervos, que provocam dor ao serem lesionados, as alterações no nervo óptico não provocam nenhum incômodo. Por isso, o glaucoma é assintomático. Além disso, no nosso dia a dia valorizamos muito a visão central. Como é a visão lateral que se perde primeiro em casos de glaucoma, pode ser que o paciente sequer perceba essa alteração no campo visual mesmo em fases avançadas da doença”, esclarece. Segundo Marcos Vianello, quando a pessoa perde a visão periférica ela não pode mais dirigir e, ao atravessar uma rua, por exemplo, corre um risco maior de ser atropelada. Além disso, começa a enxergar menos em ambientes com menos luz.

O oftalmologista alerta que a sensação de enxergar bem não significa olho saudável e recomenda a ida ao oftalmologista uma vez ao ano a partir dos 2 anos de idade. “O glaucoma tem alguns tipos principais como o congênito, ou seja, a criança já nasce com a doença e os principais sintomas nesse caso são fotofobia, lacrimejamento excessivo e a parte escura do olho com aparência esbranquiçada. O tratamento deve ser imediato. Outro tipo é o glaucoma juvenil que atinge a população entre 5 e 15 anos. O mais comum é o glaucoma adulto que está relacionado à pressão intraocular alta, mas acomete também adultos com pressão intraocular normal. O glaucoma de ângulo fechado pode acontecer de um dia para o outro. O paciente sente uma dor intensa e embaçamento da visão instantâneo. É preciso tratar nos primeiro dias para que a lesão não seja irreversível”, explica Vianello.

Segundo Emílio Suzuki, é o exame de fundo de olho que mostra a estrutura do nervo óptico. Outro exame utilizado para diagnosticar a doença é o de campo visual. “É um teste que avalia a visão periférica lateral. Jogam-se pequenos estímulos na lateral para ver se o paciente consegue percebê-los”, explica o secretário-geral da SBG. Em consonância com o tratamento, pacientes diagnosticados com glaucoma devem fazer esses dois exames entre uma e duas vezes ao ano.

A boa notícia em relação ao tratamento de glaucoma é que o uso diário de um único colírio já pode interromper a evolução da doença e a rede pública já distribui muitos dos colírios utilizados no tratamento, antes considerados de alto custo. Obviamente, como em toda doença crônica, o sucesso do tratamento exige que o paciente siga à risca a recomendação do médico.

André Ori / Divulgação
"Toda a população deve exigir do oftalmologista a medida da pressão ocular e o exame de fundo de olho. O paciente deve cobrar do médico esses procedimentos" - Marcos Vianello (foto: André Ori / Divulgação )


Catarata: cegueira reversível
Estima-se que mais da metade dos idosos no mundo tem catarata. No Brasil, 120 mil pessoas recebem o diagnóstico da doença anualmente. O primeiro sintoma é o embaçamento da visão até à cegueira. A OMS afirma que a enfermidade é responsável por 51% dos casos de cegueira no mundo, o que representa cerca de 20 milhões de pessoas. Ao contrário do glaucoma, a cegueira é reversível.

O colírio que reverte a catarata foi testado apenas em animais e ainda é uma realidade distante para o tratamento da doença. Marcos Vianello explica que a cirurgia que reverte a cegueira é rápida e confortável para o paciente, embora tecnicamente seja difícil. “Para um bom resultado é preciso um bom cirurgião, bons exames pré-operatórios, boa aparelhagem cirúrgica e um bom acompanhamento pós-operatório. Em mãos pouco habilidosas e em condições adversas, o risco é grande. Por isso, ainda vemos um série de tragédias no Brasil com mutirões que são realizados sem que todos os critérios de segurança estejam contemplados”, alerta.

Existem dois tipos de cirurgia para a catarata, a convencional, que é a mais utilizada no país, e a laser. “O que impede que mais cirurgias a laser sejam realizadas é o custo financeiro. É uma técnica mais segura, mas que ainda não é oferecida pelo Sus e os planos de saúde também não cobrem o procedimento”, explica Marcos Vianello. Segundo ele, em Belo Horizonte, apenas quatro hospitais oferecem essa modalidade de cirurgia para catarata. “A convencional é o tipo de cirurgia oftalmológica mais realizada no mundo. E na maioria dos casos, o resultado é ótimo. Hoje em dia, a cirurgia de catarata possibilita corrigir erros refrativos como vista cansada, miopia, astigmatismo e o paciente fica independente dos óculos mesmo na terceira idade”, diz.

Dia Nacional de Combate ao Glaucoma

A lei federal 10.456, de 2002, instituiu o dia 26 de maio como o Dia Nacional de Combate ao Glaucoma. Nesta data, acontecerão diversas atividades pelo país com o objetivo principal de informar e conscientizar a população sobre a importância do diagnóstico precoce para se evitar a cegueira por glaucoma. Nesse dia, a Sociedade Brasileira de Glaucoma vai iluminar o Cristo Redentor de verde.

Exames de graça em BH
Em Belo Horizonte, o Dia Nacional de Combate ao Glaucoma será celebrado na Praça da Liberdade. Das 9h às 16h, serão oferecidos exames de aferição da pressão intraocular e exames de fundo de olho usados para detectar glaucoma e catarata em estágios iniciais. Todos os exames serão realizados em uma estrutura de consultórios, criados dentro de uma carreta que ficará estacionada em frente ao Museu das Minas e do Metal. A primeira ‘Blitz da Saúde Ocular de BH’ é uma realização do Hospital de Olhos Rui Marinho.

Catarata e glaucoma são as duas principais causas de cegueira no mundo. Ambas são assintomáticas e quanto mais cedo o diagnóstico, melhor o resultado visual. Além disso, o tratamento para as duas enfermidades são eficazes.


Glaucoma

O que é
A principal característica do glaucoma é o aumento da pressão intraocular que provoca lesões no nervo ótico. Silenciosa, ela evolui sem que o paciente sinta qualquer desconforto. O primeiro sintoma já é o comprometimento da visão periférica. A doença evolui progressivamente diminuindo o campo visual até o paciente ficar cego. Por isso, o diagnóstico precoce é fundamental para que o comprometimento visual seja o mínimo possível. O glaucoma é considerado uma doença crônica. Ou seja, não é reversível.

Fatores de risco
Pessoas da raça negra, quem tem mais de 40 anos, quem tem parente de primeiro grau com glaucoma, pessoas com alto grau de miopia (acima de 6 graus), usuários crônicos de corticoides e pacientes que passaram por cirurgia de correção de grau. Todas essas pessoas devem fazer uma visita anual ao oftalmologista.

Tratamento
Em 80% dos casos, o tratamento é feito com o uso diário de colírio para abaixar a pressão intraocular. O objetivo é estacionar ou diminuir a velocidade de progressão da doença já que o glaucoma não é reversível. A opção cirúrgica pode ser necessária nos casos em que nenhum colírio funcione. Como toda doença crônica, é necessária a adesão do paciente ao tratamento.

Catarata

O que é
A catarata é uma lesão ocular que atinge o cristalino tornando-o opaco. O cristalino fica localizado atrás da íris e sua transparência permite que os raios de luz o atravessem e alcancem a retina para formar a imagem. Quando ele se torna opaco, a visão fica comprometida. A doença evolui de forma lenta e costuma afetar primeiro um dos olhos. A cegueira causada pela catarata é reversível.

Fatores de risco

Não há como evitar a predisposição genética e nem o envelhecimento do cristalino. Algumas medidas preventivas, no entanto, podem ser tomadas para reduzir alguns fatores de risco para o desenvolvimento da doença: não fumar, proteger-se contra a radiação ultravioleta (principalmente UVB), controle do diabetes e evitar o uso de corticoides.

Tratamento
O tratamento para a catarata é cirúrgico e, após o procedimento, o paciente volta a enxergar. Simples e rápida, a cirurgia é feita com anestesia local e consiste em substituir o cristalino por uma lente artificial que recupera a visão perdida. Essa lente pode ser de vários tipos e corrige diferentes problemas na visão. Assim, depois da cirurgia, o paciente eliminaria também os óculos sejam eles para perto ou longe.

Principais causas de cegueira no mundo
1º lugar: Catarata
2º lugar: Glaucoma
3º lugar: Degeneração macular relacionada à idade
4º lugar: Retinoplastia diabética

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