Entenda por que as pessoas se tornam mais cautelosas com o passar dos anos

A tendência, contudo, depende também de condições sociais favoráveis. Em países mais pobres ou violentos, jovens e idosos apresentam comportamentos de risco semelhantes

por Vilhena Soares 02/03/2016 14:30

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CB/D.A Press
Com a idade, as pessoas deixam de tomar decisões arriscadas (foto: CB/D.A Press)
“O maior risco é não se arriscar.” A frase foi dita por um jovem e audacioso Mark Zuckeberg, o fundador da rede social mais popular do planeta. Mas, daqui a três ou quatro décadas, o empresário, hoje com 31 anos, continuará dando conselhos desse tipo? Provavelmente, não, aponta a ciência. Se tudo correr bem para o norte-americano, por volta de 2050, ele reunirá as duas condições que, segundo um recente estudo, torna as pessoas mais cautelosas: ele será idoso e não viverá sob condições de vulnerabilidade social.

Publicada na revista Psychological Science, a pesquisa — feita por especialistas do Instituto Max Planck, na Alemanha, e da Universidade da Basileia, na Suíça — conseguiu mostrar que a idade, apesar de ser um fator relevante para que as pessoas passem a evitar decisões arriscadas, não é o único fator da equação. De acordo com os autores, o ambiente social no qual uma pessoa cresce também faz toda a diferença.

A conclusão é baseada em uma revisão de estudos sobre o tema. A partir dessas análises anteriores, os pesquisadores conseguiram colher dados sobre a propensão a assumir riscos — físicos, sociais, jurídicos e financeiros — de pessoas entre 15 e 99 anos de 77 países. Ao todo, os cientistas puderam comparar 147.118 respostas dos indivíduos. Eles notaram, então, que, em países como Alemanha, Rússia e Estados Unidos, à medida que envelhecem, as pessoas se tornam mais e mais cautelosas. Também nessas nações, homens costumam ser mais audaciosos que mulheres.

No entanto, ao olhar para os dados de países como Nigéria, Mali e Paquistão, os autores notaram um padrão diferente. A tendência a assumir riscos, nesses lugares, permanece equilibrada tanto entre gêneros quanto entre indivíduos de diferentes idades.

Desenvolvimento
Os pesquisadores acreditam que a diferença de desenvolvimento econômico entre os países é um fator de peso na determinação da mudança de comportamento. Eles compararam a propensão a assumir riscos com os padrões atuais de vida nos países, focando dificuldades como pobreza econômica e social, taxa de homicídios, renda per capita e desigualdade econômica.

“Fomos capazes de mostrar que, em países com grande pobreza e condições de vida difíceis, a propensão para assumir riscos continua a ser elevada, mesmo na velhice. Uma razão pode ser que os cidadãos dos lugares em que os recursos são escassos têm de competir uns com os outros mais intensamente do que nos países mais ricos”, explica ao Correio Rui Mata, um dos autores do estudo e professor do Centro de Ciências Cognitivas na Universidade da Basileia.

“Nós inferimos isso porque, entre os indivíduos de países mais pobres (por exemplo, com PIB inferior) e mais perigosos (por exemplo, com taxas de homicídio mais altas), a propensão a assumir riscos mostrou diferenças mínimas nos dados de jovens e idosos”, completa o pesquisador, interessado no estudo de semelhanças globais e especificidades locais no comportamento humano.

Cérebro
Para Helena Moura, psiquiatra e colaboradora do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a pesquisa internacional mostra dados novos e interessantes quanto ao comportamento de tomada de decisões. “A ideia de comportamento de risco é algo difícil de analisar na prática, mas o acompanhamento desses autores mostra dados que ajudam a entender esse tema. Eles mostram que, assim como muitos suspeitavam, as condições adversas, como o ambiente em que as pessoas vivem, podem influenciar a forma como elas se arriscam”, diz.

A psiquiatra, que não participou do estudo, acrescenta que a diferença comportamental quanto à idade do indivíduo é algo que já havia sido observado na área psiquiátrica. “Uma questão que já sabemos é que, no amadurecimento do cérebro, a última parte a se desenvolver é a responsável pela tomada de decisões. E isso ocorre porque o jovem precisa se arriscar mais, ele está começando e precisa ter coragem de experimentar coisas novas na vida. Só mais velho ele precisa se resguardar”, destaca.

Helena Moura, contudo, diz que nem toda coragem típica dos jovens é benéfica: “Sempre dou o exemplo do Bart e da Lisa Simpson, dois tipos distintos de coragem. Uma pode ser benéfica e outra pode fazer mal. Uma audácia mais destrutiva, como, por exemplo, o uso de drogas na adolescência, pode prejudicar a pessoa no futuro”, ilustra.

A especialista acrescenta que gostaria de ver o trabalho aprofundado. “Seria importante identificar mais variáveis, acompanhar participantes durante a vida e mostrar se fatores como o nível de educação, o estado civil e o trabalho podem pesar nessa mudança comportamental.” Investigações do tipo estão nos planos dos autores. “Essas ainda são descobertas correlacionais, mas que nos sugerem que diferenças de idade em tomadas de risco podem ter mais fatores relacionados, como a área financeira. Queremos entender os eventos de vida específicos (a experiência da pobreza, o casamento, as interações sociais etc.) que alteram a propensão das pessoas a enfrentarem riscos”, adianta Rui Mata.

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