Bengala sensorial ajuda na locomoção de cegos

Projeto de alunos da UNA tem sensores que detectam obstáculos e avisam o deficiente visual por meio de apito e vibração na manete. Conceito busca oferecer modelo de baixo custo

por Bruno Freitas 03/02/2016 11:30

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Túlio Santos/EM/D.A Press
Juliano Almeida faz a demonstração de como usar a bengala criada em BH (foto: Túlio Santos/EM/D.A Press)
Vida de deficiente visual exige audição, tato e sentidos apurados. E por que não uma boa injeção de tecnologia? Pensando assim, alunos do Centro Universitário UNA, de Belo Horizonte, elaboraram proposta diferente da já existente para dar aquela ajuda aos cegos no dia a dia: uma bengala sensorial. Indispensável para quem não enxerga ou tem dificuldades em ver, o bom e velho acessório recebeu nova roupagem que detecta o ambiente por meio de sensores que emitem sinais transformados em vibração, proporcionando mais autonomia e segurança. Uma manete vibratória e um apito sonoro atuam então como sentidos complementares ao portador da deficiência visual.

A ideia, contudo, não é totalmente nova. Outros projetos universitários já foram desenvolvidos e há bengalas importadas com recursos semelhantes à venda. Mas a sugerida pelos mineiros se diferencia pela facilidade e baixo custo de produção – R$ 300, ante os valores de R$ 10 mil a R$ 20 mil para modelos produzidos fora do Brasil. O preço tende a diminuir com uma possível certificação e fabricação em escala industrial. Há ainda ideias de novas variações da bengala sensorial, com recursos como GPS, conexão com aplicativos como o SIU Mobile (informações sobre ônibus) da empresa que gerencia o transporte público e o trânsito da capital mineira, a BHTrans, e áudio.

O projeto foi desenvolvido por seis alunos na conclusão do primeiro ano do curso de manutenção e automação industrial da UNA Unidade Barreiro, sob coordenação do professor Matheus Gravito. O começo do projeto, conta um dos envolvidos, o estudante Wender Cardoso, de 24 anos, veio à cabeça quando ele viu uma idosa deficiente visual ser vítima de um buraco de rua no Centro de BH. Quando passava por uma calçada irregular, a senhora se desequilibrou, caiu e se machucou, despertando a atenção do estudante. “Na hora, bateu a ideia, mas não colocamos em prática. Em meados do ano passado, o professor Gravito nos passou uma demanda de um projeto voltado à comunidade, quando pensamos então em desenvolver a bengala para cegos”, conta Wender.

Desde o início, foi mantida a proposta de desenvolver algo que fosse de baixo custo. Para isso, a bengala sensorial usa componentes reaproveitados. O tubo de alumínio que serve de base veio de cortinas residenciais; as roldanas, de carrinhos de indústria; e os sensores, de sensores de marcha a ré usados em automóveis. Para completar, o sensor de vibração aplicado na manete é o mesmo de joysticks de videogames. Uma chave de liga e desliga industrial é responsável por acionar o dispositivo. Ao todo, foram gastos cerca de quatro meses de desenvolvimento, contando com o apoio de uma empresa de montagem industrial, que cedeu espaço e equipamentos.

Túlio Santos/EM/D.A Press
O coordenador do curso superior de tecnologia em automação e manutenção industrial, Cleiton Miranda, e os alunos Wender Cardoso, Juliano César Almeida e Luiz Guilherme Costa da Silva (foto: Túlio Santos/EM/D.A Press)

Um dos principais desafios encontrados foi a escolha do tipo de bateria e dos sensores, para evitar interferência. “Alguns sensores se mostraram bastante sensíveis ao alumínio, apitando de forma ininterrupta quando se aproximavam. Fizemos um circuito na caixa da bengala para que essa bateria pudesse ser recarregada em tomada residencial”, explica o estudante Luiz Guilherme Costa, de 26. O grupo não chegou a medir o consumo da bateria, mas, como se trata de uma bateria de longa duração, Luiz estima que a bengala possa ser usada ao longo de 12 horas, com um tempo de recarga estimado em três horas.

Durante a fase de desenvolvimento, a bengala chegou a ser testada com deficientes visuais e a avaliação foi positiva. “Tivemos algumas críticas construtivas e vamos trabalhar nelas. Um casal de deficientes visuais testou a bengala e achou bastante interessante. Agora é trabalhar no projeto para poder melhorá-lo”, diz Luiz. “Ficamos satisfeitos por unir o conhecimento adquirido no curso com a tecnologia para contribuir para a qualidade de vida dos deficientes visuais”, conclui Wender.

Para o coordenador do curso, Cleiton Geraldo Mendes Miranda, o projeto vem ao encontro da necessidade de resolução de problemas de acessibilidade. “Os alunos começaram o projeto com o desenvolvimento do protótipo. Temos parcerias e a nossa ideia é apresentá-lo a empresas para buscar viabilizá-lo. Na próxima etapa, vamos ver se colocamos os alunos do projeto em cursos de extensão para aprimorar. Nossa intenção é dar visibilidade para que empresas interessadas no projeto possam fazer parcerias conosco e a gente consiga atender ao público final.”

Aplicação real
Após a apresentação do projeto à banca avaliadora, os universitários esperam agora fechar parceria para uma possível certificação e aplicação industrial. Mas eles não pararão por aí. Para os próximos meses, preveem fazer aperfeiçoamentos e testes com novos recursos. “Até existem outras bengalas sensoriais à venda no Brasil, mas são todas importadas. O investimento do protótipo foi baixo (em torno de R$ 300). Nossa visão é fazer um produto que seja acessível a todas as pessoas”, salienta Luiz Guilherme Costa. O próximo passo será desenvolver novas variações da bengala, com itens como GPS e conexão com aplicativos como o SIU Mobile da BHTrans. Além disso, o modelo inicial deve dispensar o apito, considerado incômodo.

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