Médicos são cada vez mais acometidos pelo esgotamento psicológico crônico

Estudo indica que o problema afeta 10% dos anestesiologistas do Distrito Federal

por Isabela de Oliveira 23/12/2015 15:00

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Juliana Leitão/DP/D.A Press
Médicos são justamente os mais omissos com a recomendação de que a saúde deve vir em primeiro lugar (foto: Juliana Leitão/DP/D.A Press)
Ninguém dúvida que, para os médicos, a saúde é um assunto de primeira grandeza. Os cuidados de alguns deles com a própria mente e o próprio corpo, porém, revelam uma contradição afinada. Estudos brasileiros e internacionais indicam que esses profissionais são justamente os mais omissos com a recomendação de que a saúde deve vir em primeiro lugar, e não o trabalho.

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Entre as consequências desse descompasso, está um esgotamento crônico que provoca perturbação psicológica, dores de cabeça, distúrbios gastrointestinais e do sono, tensão muscular, hipertensão e fadiga crônica. Trata-se da síndrome de burnout, que, segundo pesquisa divulgada neste mês na Mayo Clinic Proceedings, aumentou 10% entre os médicos norte-americanos na última década.

“O problema de esgotamento resulta da configuração do sistema de saúde e as organizações têm uma responsabilidade partilhada na abordagem do problema. É preciso melhorar a eficiência do ambiente, reduzir a carga de trabalho e fornecer maior controle sobre o trabalho aos profissionais”, defendem os autores do estudo. O aumento da síndrome ocorreu em quase todas as especialidades médicas, mas não houve, no período estudado, aumento na quantidade de horas trabalhadas, nem de casos de depressão.

No Distrito Federal, um estudo feito com anestesiologista indica o mesmo problema. A pesquisa feita na Universidade de Brasília (UnB) e publicada no Jornal Brasileiro de Anestesiologia mostra que a prevalência de burnout entre anestesiologistas é de 10,4%, ocorrendo principalmente em homens (64,2%), com idade entre 30 e 50 anos (64,2%) e mais de 10 anos de experiência (64,2%).

A maioria deles trabalha à noite (71,4%) e tem hábitos sedentários (57,1%), apesar de exercícios serem medidas de proteção contra doenças cardiovasculares, depressão e demência. Dos135 anestesiologistas entrevistados, 78,5% alegaram não possuir tempo disponível para desenvolver qualquer outra atividade que não envolvesse a medicina. Um problema grande, considera Antonio Carlos Matteoni de Athayde, presidente do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR).

“O médico precisa de hobbies, que o ajudará a aceitar que a curva profissional vai declinar um dia. A atividade física é regra que obedeço pelo menos cinco vezes na semana”, conta. Athayde relembra que, mesmo fora do consultório, é abordado por pessoas que buscam orientações. “E isso faz com que o médico não consiga se desligar do trabalho. Às vezes, estou correndo e algumas pessoas me param para perguntar coisas sobre medicina. O médico se tornou uma figura pública, em que a vida profissional mescla com a profissional. É difícil as pessoas separarem uma da outra, assim como também é difícil para o médico fazer isso”, analisa o radiologista.

Presidente do Sindicato dos Médicos do Distrito Federal (SindMédico), Gutemberg Fialho atribui o problema às condições de trabalho do sistema de saúde, em particular o público. “Vemos isso no país inteiro, e aqui na capital exemplos próximos são instituições de referência, como o Hospital de Base, em que os pacientes não encontram medicação, nem condições para realizar exames, como uma tomografia”, diz Fialho, que é obstetra e ginecologista. “Às vezes, o paciente necessita do exame para uma cirurgia, mas, como não tem, acaba morrendo na mão do médico. É uma tragédia que gera culpa, ansiedade, depressão e burnout a longo prazo”.

No Distrito Federal, mais de 95% dos anestesiologistas trabalham exclusivamente na área, especialmente no sistema público. Entre os fatores que podem influenciar o esgotamento emocional, estão a pressão constante para cumprir horários, o deslocamento entre hospitais e a proximidade ao sofrimento e à morte. Os autores da pesquisa citam também o estresse físico, como a poluição sonora das salas cirúrgicas e a exposição a gases anestésicos, a radiação, a frio ou a calor excessivos; o uso de cadeiras desconfortáveis e até mesmo a limitação de espaço.

Suicídio
Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, acrescenta que a estafa mental contribui para o suicídio entre os médicos. Ele cita um estudo publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria, em abril deste ano, feito por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo. “Foi detectado que os médicos suicidavam duas vezes mais que a população em geral; e as médicas, duas vezes mais que os homens da profissão. Isso é resultado da grande pressão por performance, do excesso de emprego e dos salários incompatíveis com as exigências da sociedade”, explica Silva.

Para ele, é preciso educar os pacientes sobre esses aspectos, de forma que eles cobrem menos do profissional que está na linha de frente e mais dos sistemas de saúde. “Na faculdade, não somos ensinados a lidar com tudo isso, recebemos um ensino empírico e técnico. Não existe manual para lidar com paciente e família difíceis, mas existe a exigência de que a gente não erre nunca, apesar de sermos humanos. Isso é um peso com que muito profissional tem dificuldade de lidar”, justifica.

O psiquiatra ressalta que é a própria sociedade que rotula os médicos como deuses, um título frequentemente incorporado pelos profissionais. “Mas não podemos aceitar, temos que conhecer nossos limites e nos conscientizarmos de que somos técnicos. As pessoas têm que saber que nossos filhos ficam doentes, que nós adoecemos, que atrasamos contas, somos privados de sono e que, por causa da soma disso tudo, nem sempre conseguimos lidar com o humor de cada paciente, que são pelo menos 20 por dia: são 20 personalidades diferentes, com problemas diferentes e é humanamente impossível se comportar conforme o gosto de cada um”, defende.

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