Técnica de estímulo cerebral usada para controlar 'fissura' de viciados se mostra promissora

Dependentes químicos submetidos ao tratamento apresentaram menor vontade de usar cocaína do que os que seguiram a terapia tradicional, com remédios. Estudo italiano abre as portas para tratamentos mais eficazes contra o vício

por Vilhena Soares 17/12/2015 15:00

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Um das maiores batalhas de dependentes químicos durante o tratamento de desintoxicação é controlar a vontade de voltar a consumir as drogas. Preocupados com isso, pesquisadores italianos saíram em busca de uma intervenção que pudesse diminuir a fissura por entorpecentes. Com o uso de pulsos magnéticos, eles provocaram a região cerebral ligada ao desejo pelas substâncias tóxicas. A técnica, chamada de estimulação magnética transcraniana repetitiva (EMTr), obteve sucesso, com resultados positivos maiores até do que os das terapias usuais, baseadas na ingestão de medicamentos. Detalhes do estudo foram publicados na revista European Neuropsychopharmacology. Segundo os autores, a técnica poderá ajudar no desenvolvimento de intervenções mais eficazes.

O estudo surgiu com base em uma pesquisa de outro grupo de cientistas mostrando como o córtex pré-frontal estava ligado à busca compulsiva por cocaína. Estudiosos da Itália resolveram, então, buscar uma alternativa que pudesse modificar a ação dessa área cerebral em dependentes em cocaína. “A EMTr estimula uma região do cérebro que está envolvida no controle inibitório de comportamentos compulsivos, como o uso de cocaína. Estimulando essa área, os impulsos magnéticos estão ajudando o cérebro a controlar essa compulsão. Portanto, a terapia ajuda o paciente a se abster da droga”, detalhou ao Correio Lorenzo Leggio, um dos autores do estudo e pesquisador do Instituto Nacional de Abuso do Álcool e Alcoolismo, na Itália.

O teste com a técnica foi feito com 32 pacientes que buscaram ajuda em hospitais do país para se livrar do vício em cocaína. Metade deles recebeu os pulsos magnéticos e a outra parcela, medicamentos tradicionais. Após quase quatro semanas (veja infográfico), houve diminuição maior da fissura pela droga nos voluntários submetidos a sessões de EMTr do que os tratados com remédios. Também chamou a atenção dos estudiosos o número menor de desistentes no grupo de participantes submetidos aos pulsos magnéticos.

Se os resultados positivos se repetirem nos próximos experimentos, acreditam os autores, a técnica poderá ser incorporada a tratamentos de desintoxicação. “É importante ressaltar que, no momento, não existem medicamentos aprovados para transtorno do uso de cocaína, portanto, a EMTr poderia representar o primeiro tratamento biológico nesse sentido”, destaca Leggio. “Nossa etapa seguinte será realizar um ensaio maior, em que a EMTr será comparada a um placebo, de modo duplo-cego (sem que os pesquisadores e os voluntários saibam o que é ingerido durante os testes). Esse ensaio também precisará ter um seguimento mais longo”, completa.

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Otimismo
Vanessa Teixeira Muller, neurologista e diretora médica da VTM Neurodiagnóstico, no Rio de Janeiro, destaca que o estudo italiano mostra dados importantes e bastante otimistas relacionados aos pulsos magnéticos. O que mais chamou a atenção da especialista foi a comparação da EMTr com os medicamentos geralmente prescritos. “Isso é um grande ganho, pois a técnica pode trazer mais efetividade com menos efeitos colaterais. A questão da segurança é essencial quando buscamos novos tratamentos médicos”, justifica.

Muller destaca ainda que o uso dos impulsos se baseia em uma teoria conhecida na área neurológica. Ela explica que a região do córtex pré-frontal dorso lateral, principalmente o esquerdo, é importante nas tomadas de decisão, pois nos permite mudar de comportamento de acordo com a necessidade. “Outros trabalhos apontam que o efeito da droga se dá nessa região. Quando a pessoa tem a fissura, ela possui um impulso incontrolável pra consumir aquilo”, diz.

A especialista explica que os pulsos e a intensidade usados nos dependentes químicos dependem de uma avaliação individualizada. Geralmente, no caso da cocaína, aplica-se com baixa frequência. “No caso da depressão, por exemplo, você precisa aumentar a atividade nessa mesma região. São diferentes protocolos com padrões distintos”, compara Muller.



Fim do estigma
“É um estudo muito interessante, apesar de ser piloto e não seguir padrões de acompanhamento mais rígidos, como o perfil de cada dependente químico tratado. Ainda assim, mostra dados importantes. Uma das maiores vantagens, com certeza, é poupar o organismo dos efeitos colaterais. Estudos nessa área, além de trazerem novos tratamentos mais eficientes, ajudam a mudar o estigma da doença, reforçando que a dependência não é um problema de caráter e está ligada a bases neurológicas. Essa ideia errada pode dificultar a vida das pessoas que buscam ajuda para se livrar do vício.”

Helena Moura, psiquiatra especialista em dependência química e colaboradora do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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