A rainha morta

por Zulmira Furbino 14/12/2015 14:23

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Era uma vez uma princesa jovem, que não pôde escolher o seu noivo. E era uma vez um príncipe que, por questões de poder e política, embora contrariado, submeteu-se e aceitou a prometida, filha de descendentes de monarcas do reino vizinho, ciente de seus deveres como futuro rei.

O casamento dos infantes foi o mais belo e rico daqueles tempos, preparado com muito luxo e circunstância. As coisas começaram como de praxe, até que Colo de Garça, a dama de companhia da infanta, entrou na história.

Ocorre que o coração tem razões que a própria razão desconhece, o que levou o príncipe e a dama de companhia a se apaixonarem mutuamente. Começa aí uma tórrida, e não muito discreta, história de amor.

Para tentar impedir aquela paixão que se derramava pelos corredores do palácio, usando de astúcia, a princesa, grávida pela primeira vez, deu o bebê para Colo de Garça batizar, na esperança de que o laço criado vencesse a afeição proibida.

Mal sabia ela que a ética do amor é bordada com muita delicadeza e complexidade, de maneira que foi em vão que a princesa escolheu como madrinha do filho a amante do marido.

Nos corredores palacianos, o casal, adúltero e apaixonado, não fazia questão de se esconder.

O rei, pai do príncipe, incomodado com a situação – não por questões morais, mas pelas ameaças que a união traria à independência de seu reino –, ordenou que Colo de Garça fosse afastada dali.

A distância, porém, não impediu que o casal se inflamasse ainda mais trocando incendiárias cartas de amor.

Foi aí que se levantou a mão do destino, levando a infanta a engravidar de novo e a morrer no parto. Pronto. O caminho estava livre para os amantes apixonados.

O príncipe não perdeu tempo. Trouxe sua eleita de volta e a instalou num palácio que podia ser avistado da enorme janela do seu quarto.

A vida ia correndo assim, docemente, entre sussurros e suspiros, quando Colo de Garça teve o primeiro filho com o infante e depois outro e outro e mais outro.

Só que o rei – ora, o rei, ele mandava em tudo, menos no coração do filho! – não estava gostando nada daquela história. Temia que seu reino fosse ameaçado pelos inimigos ligados à mãe dos netinhos bastardos.

Enquanto isso, o povo – ora, o povo, que não manda em nada, mas pode influenciar bastante – via aquele escândalo com olhos arregalados e, padecendo com a peste negra, acreditava que o mal era sinal da ira divina contra os aquela situação vexaminosa.

Com essa carta na manga, o rei decidiu seguir a orientação de três conselheiros que sugeriram que ele mandasse matar Colo de Garça e, indiferente aos sentimentos do filho, enviou o trio para a macabra missão de degolar a moça, meta que foi cumprida com o rigor e a precisão dos sabres.

Enlouquecido de amor, o príncipe levantou seu exército contra o do pai. Anos depois selaram a paz e o monarca faleceu. Então, o príncipe, que havia jurado vingança contra os assassinos da amada, assumiu o poder.

Sua primeira providência foi  mandar matar os asseclas que roubaram a vida de seu amor. Depois, jurou que havia se casado com Colo de Garça em segredo e coroou a rainha morta com todas as honras, transferindo seu corpo para outra cidade.

Conta-se que, naquele dia, a rainha póstuma viajou num imenso cortejo do qual participou todo o clero e a corte. Com círios acesos nas mãos, mais de 100 mil homens saudaram a eleita pelo caminho.

E também que Pedro, como se chamava o novo monarca, pôs o corpo da rainha morta (que se chamava Inês de Castro) no trono, adornando sua cabeça com uma coroa de ouro cravejada de esmeraldas, diamantes e pedras da lua, e que depois  teria obrigado seus súditos a beijar sua mão.

“Agora Inês é morta!”, chorava o rei, que mandou fazer um mausoléu para que o corpo da amada pudesse descansar num famoso mosteiro de arquitetura gótica.

Quando ele morreu, seu próprio corpo foi posto em outro mausoléu, na mesma capela, bem em frente ao de Colo de Garça, para que, no dia do Juízo Final, os dois finalmente possam levantar e se abraçar.

E assim termina a linda e triste história de amor de Pedro e Inês de Castro.

Quem quiser que conte outra.

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