Câncer ainda carrega estigma mesmo com tratamentos cada vez mais eficazes

No dia nacional de combate à doença, Inca divulga estimativa para 2016-2017. Visto como mortal, mal tem alta chance de cura quando detectado no início

por Carolina Cotta 27/11/2015 10:20

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JAIR AMARAL/EM/D.A PRESS
Ana Carolina Queiroga, administradora (foto: JAIR AMARAL/EM/D.A PRESS)
O Dia Nacional de Combate ao Câncer celebrado nesta sexta-feira (27/11) foi criado para mobilizar a população quanto aos aspectos educativos e sociais no controle da doença. Isso inclui um novo olhar sobre a ideia disseminada na sociedade de uma patologia simplesmente mortal. As drogas-alvo e a imunoterapia representaram uma nova e eficiente abordagem do câncer, ampliando a sobrevida e a qualidade de vida mesmo de pacientes em estágio avançado da doença. Mesmo assim, persiste a correlação entre receber o diagnóstico de câncer e a sentença de morte.

Nem o aumento de casos e o fato de sempre conhecermos algum paciente com câncer foram capazes de mudar o estigma sobre a doença. Só no Brasil, foram previstos 576 mil novos casos para 2015. Hoje, o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca) divulgará as estimativas para o biênio 2016-2017 (clique e veja). Os números só crescem. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença registra, anualmente, e em todo o mundo, 14 milhões de novos casos e 8 milhões de mortes. Uma análise da entidade aponta que o número de novos casos de câncer deve aumentar 70% nas próximas duas décadas, passando para 22 milhões.

O câncer ainda tem alto índice de mortalidade, principalmente por causa do diagnóstico tardio, quando a doença já se encontra em estágio avançado. Esse fato, contudo, não justifica a continuidade desse estigma. Segundo a oncologista Carolina Rutkowski, da Oncomed, é importante explicar aos pacientes que o câncer, hoje, é uma doença crônica que se trata por muito tempo, sendo possível viver longamente. “Diabetes, hipertensão e insuficiência cardíaca são doenças crônicas incuráveis, mas ninguém se assusta tanto como quando tem câncer. É o caso de um câncer de próstata indolente em um senhor de 85 anos. Certamente, não é isso que vai matá-lo, mas um diagnóstico de diabetes não reuniria todos os filhos no consultório”, diz.

Os efeitos colaterais do tratamento, o fato de o cabelo cair e o paciente poder ser reconhecido na rua reforçam o estigma. Segundo a psicóloga Francine Rosa Portela, especialista em psicologia oncológica, essa ideia é uma construção do senso comum. “Muitas vezes, a palavra câncer é usada como sinônimo de um mal da sociedade. A doença ainda é vista como algo ruim, assim como foi a tuberculose no passado. Os impactos do tratamento, visíveis fisicamente, também colaboram com essa visão”, afirma a coordenadora do Serviço de Cuidados Paliativos do Hospital Alberto Cavalcanti/Fhemig.

APOIO
Para Francine, a visibilidade de campanhas como o Outubro Rosa, nas quais as mulheres assumem a doença e lutam pela possibilidade de alertar sobre a prevenção do câncer de mama, tem ajudado a tornar o tema mais próximo do nosso cotidiano, assim como o exemplo de pessoas públicas que divulgaram ter o diagnóstico, falaram sobre as dificuldades de enfrentamento da doença e o tratamento, caso da apresentadora de TV Ana Maria Braga e do ator Reynaldo Gianecchini. “Isso tem um impacto extremamente positivo, contribuindo na mudança para a imagem de que ter câncer é estar fadado à morte para: é possível ter câncer, realizar o tratamento, ter qualidade de vida e prosseguir” comenta.

O apoio emocional e psicológico aos pacientes por profissionais de saúde especializados e uma equipe interdisciplinar é essencial para auxiliá-los no enfrentamento dessa doença crônica, ajudando a assimilar as etapas do tratamento e dando apoio para a qualidade de vida, não permitindo que a rotina se reduza à ideia de “tenho uma doença: o câncer”. O apoio dos familiares, amigos e pessoas queridas é essencial, potencializando positivamente a adaptação a esse momento da vida.

Son Salvador / EM / D.A Press
Os cinco tipos mais comuns de câncer são pulmão, próstata, colorretal, estômago e fígado (foto: Son Salvador / EM / D.A Press)


PERFIL MUNDIAL
Entre os homens, os cinco tipos mais comuns de câncer são pulmão, próstata, colorretal, estômago e fígado. Entre as mulheres, os principais são mama, colorretal, pulmão, cérvix e estômago. De acordo com a OMS, um terço das mortes por câncer é resultado de cinco riscos comportamentais e alimentares: alto índice de massa corporal, baixo consumo de frutas e verduras, falta de atividade física, uso de tabaco e consumo de álcool. O tabaco aparece como principal fator de risco, respondendo por cerca de 30% das mortes pela doença e por 70% das mortes por câncer de pulmão em todo o mundo.

Avanços no tratamento

A forma como as pessoas reagem ao câncer tem mudado. Persiste o estigma, mas ele já foi maior no passado. Mesmo assim, ainda existem pessoas que sequer pronunciam o nome da doença, que pensam que ela precise ser escondida ou, pior, são desinformadas ao ponto de achar que é contagioso. Pouco tempo atrás, não havia muito o que fazer diante de um diagnóstico de câncer. “Era descobrir e esperar a evolução”, conta a oncologista Carolina Rutkowski. Segundo ela, há cânceres com elevadas taxas de cura. Caso do de mama, que tem 90% de chances, se descoberto em fase inicial. “Isso é mais do que muitas doenças com as quais ninguém se assusta”, diz. Em termos de tratamento, houve grande mudança com a chegada de drogas que dão possibilidade de maior sobrevida e mais qualidade de vida a pacientes com a doença avançada.

“As drogas-alvo mudaram paradigmas na oncologia. A imunoterapia também é um novo caminho. Antes, o câncer era abordado com quimioterapia, com medicações que agem na célula que replica muito, mas com muitos efeitos adversos”, explica.

Com a terapia-alvo, é possível identificar mutações ou receptores nos tumores e a droga passa a agir apenas sobre eles. “É um tratamento mais específico, eficaz e com menos efeitos colaterais.” A imunoterapia age de outra forma. “Tudo que é estranho ao organismo gera uma resposta imunológica, e o corpo combate. A célula cancerígena gera artefatos para inibir o corpo de combatê-la, inibindo o sistema imunológico, e assim consegue se multiplicar. A imunoterapia reativa esse sistema imunológico desativado, permitindo ao corpo voltar a combater a neoplasia”, explica a oncologista.

ONCOGENÉTICA

Outra esperança vem da oncogenética, que permite identificar indivíduos com risco de ter a doença. Para o oncologista Renato Nogueira Costa, diretor do Instituto Felício Rocho de Oncologia, esses devem merecer maior atenção médica e aderir mais intensamente a programas de prevenção. “Dessa forma, poderão não apenas evitar a doença, mas promover sua cura em tempo hábil, antes que ela dê metástases.” Para ele, a biologia molecular (campo de estudo das interações bioquímicas celulares envolvidas na duplicação do material genético e na síntese proteica) permite a detecção de um câncer muito antes que qualquer método sofisticado de imagem o faça.

“Ela é capaz de classificar o câncer em diversos subtipos e direcionar o tratamento. Precisamos estar cientes de que câncer é uma palavra que engloba centenas de doenças. E não se pode tratar doenças diferentes da mesma forma”, defende.



Confiante na cura
Aos 40 anos, a administradora Ana Carolina Queiroga está cheia de planos para quando terminar seu tratamento contra o câncer de mama, iniciado em 2011. Antes de tirar o tumor, ela congelou embriões para realizar o sonho de ser mãe, o que será possível depois de 2017, quando acaba o tratamento medicamentoso. Ana descobriu que tinha câncer um mês antes de completar 35 anos. E sim, teve muito medo. “Senti o nódulo durante o autoexame. Só de tocá-lo pensei que não era coisa boa e chorei.” Da suspeita ao diagnóstico, ela viveu momentos de muita ansiedade. “Fazia os exames na companhia do meu marido e chorava muito. Tive muito medo de ouvir que era câncer e quando confirmaram, achei que ia morrer, que meus sonhos de ter família e crescer profissionalmente terminavam ali. Parece sim uma sentença de morte. Temos medo de morrer, do sofrimento, de ficar debilitados”, diz. Mas a convivência com outros pacientes e as novas etapas do tratamento mudam o sentimento. “Quando aceitamos a doença é que percebemos que não vamos morrer dela, necessariamente. O diagnóstico é momento de medo. Depois vem a revolta e a depressão. Quando entendemos que não há muito o que fazer e aceitamos, as coisas fluem melhor. Se temos a doença, devemos nos perguntar: faço o tratamento de cabeça erguida ou vou ficar me lamuriando?”

Ana Carolina Queiroga, administradora

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