Surto de microcefalia no Brasil pede alerta máximo contra mosquito

País tem 739 casos de microcefalia notificados. E como malformação pode estar ligada ao vírus zika, transmitido pelo Aedes aegypti, vetor da dengue, controle do inseto é urgente

por Gustavo Perucci 25/11/2015 09:52

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Novo boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde (MS) mostra que foram notificados 739 casos de microcefalia no país, quase o dobro dos 399 anunciados semana passada. Durante a apresentação do Levantamento Rápido de Índices para Aedes aegypti (LIRAa), ontem, o ministro Marcelo Castro reforçou que o governo concentrará suas ações no combate ao mosquito, que transmite, além da dengue, o chikungunya e o vírus zika, principal suspeito para a explosão de casos da malformação craniana em fetos. O LIRAa apontou que 199 municípios no país estão em situação de risco para surto de dengue, chikungunya e zika. Isso significa que mais de 4% das casas visitadas nestas cidades têm larvas do inseto.

Pernambuco segue com o maior número de casos de microcefalia (487), seguido por Paraíba (96), Sergipe (54), Rio Grande do Norte (47), Piauí (27), Alagoas (10), Ceará (9) e Bahia (8). Goiás registrou seu primeiro caso de microcefalia, o primeiro fora da Região Nordeste, o que deixa autoridades sanitárias em alerta. O aumento dos casos da malformação craniana dos fetos é significativo, e 2015 já supera em quase cinco vezes a média nacional de 2010 a 2014 (156,2).

A descoberta semana passada da presença do genoma do vírus zika no líquido amniótico de duas gestantes da Paraíba pelo Laboratório de Flavivírus do Instituto Oswaldo Cruz, reforçou ainda mais a suspeita da relação entre o vírus e a malformação. Se for comprovada, a situação é preocupante. E os dados do LIRAa só reforçam o cenário de atenção máxima ao mosquito Aedes. Até 14 de novembro, foram registrados 1,5 milhão de casos de dengue no país, um aumento de 176% em relação ao mesmo período do ano passado. O número de óbitos é recorde, e já chegou a 811, 79% a mais que os 453 de 2014.

Em relação ao zika vírus, até ontem, 18 estados tiveram confirmação laboratorial: Roraima, Pará, Amapá, Rondônia, Tocantins, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, Mato Grosso e Paraná. Também foram registrados 17.146 casos suspeitos de febre chikungunya, com 6.726 confirmações. Em 2014, foram notificados 3.657 casos suspeitos da doença.

O primeiro surto do zika foi na Ilha Yap, na Micronésia, em 2007. Mais recentemente, em 2013, número alto de casos ocorreu na Polinésia Francesa, a cerca de 6 mil quilômetros da Austrália. Mesmo sem mortes, 10 mil pessoas foram infectadas, sendo que 70 tiveram complicações neurológicas. Compreender melhor o zika vírus é primordial neste momento.

Arte: EM / D.A Press
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GRUPO ESTRATÉGICO
Unindo esforços contra o mosquito Aedes aegypti e buscando dar mais agilidade às investigações, o MS acionou, na última semana, o Grupo Estratégico Interministerial de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional e Internacional, que reúne 19 órgãos e entidades. O mecanismo é usado em casos de emergências em saúde pública que necessitem do emprego urgente de medidas de prevenção, controle e contenção de riscos, danos e agravos. Segundo o ministério,para o período de maior circulação da dengue no país, de janeiro a maio, serão distribuídos insumos estratégicos, como larvicidas, inseticidas e kits para diagnóstico. Os investimentos para combate à dengue estão dentro do Piso Fixo de Vigilância e Promoção da Saúde, que, em 2015, será de R$ 1,25 bilhão.

"Combate é ineficiente"
Como o combate ao Aedes aegypti é, há décadas, ineficiente no país, um novo vírus que leve a complicações de malformação craniana em fetos assusta. Segundo o biólogo, professor e pesquisador do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB/UFMG), Álvaro Eiras, a possibilidade do zika vírus se disseminar por todo país é real e merece atenção do governo federal. Especialista no comportamento do Aedes aegypti, Eiras aponta que os esforços públicos devem focar na diminuição da população de mosquitos, pois, segundo ele, dificilmente vamos conseguir eliminar o mal por completo.

“Como o mosquito é extremamente adaptável ao ambiente urbano, veio para ficar. Não acredito, baseado na minha experiência de mais de 20 anos, que vamos nos livrar dele. Não existe tecnologia, nem as que estão sendo avaliadas agora, para erradicar o mosquito. Então, vamos ter que conviver com ele. O que podemos fazer é controlá-lo para diminuir a transmissão de doenças. Se deixar uma população alta de mosquitos, vamos ter epidemias de grandes proporções. Se essa população for reduzida, a doença ainda vai existir, mas com menos casos de infecção”, explica.

Segundo o pesquisador, além da dengue, chikungunya, zika e febre amarela, o Aedes é vetor de outros 23 vírus. “Estamos aguardando os próximos chegarem ao Brasil.” E, mesmo que o mosquito seja capaz de se locomover pegando carona em carros, ônibus e aviões, é o ser humano o principal fator para a disseminação de infecções. “O vírus não se espalha por causa do mosquito. São pessoas que levam a doença de um lugar para o outro. Não temos como controlar, pois o mosquito está em todo lugar. Quando ocorre uma epidemia da dengue, não significa que a população de mosquitos seja grande. Poucos deles podem transmitir a doença para muitas pessoas”, alerta.

REFERÊNCIA MUNDIAL
Eiras é um dos pesquisadores que desenvolveram uma armadilha para o Aedes aegypti adulto, além de um sistema de monitoramento desses insetos em cidades. “O trabalho desenvolvido na UFMG é referência mundial. É o único lugar no mundo que consegue monitorar um município todo. A tecnologia é eficiente e reduz a transmissão da doença, pois você localiza onde está o mosquito e não bate de casa em casa. Em Minas, projeto financiado pela Secretaria Estadual da Saúde em que usamos a tecnologia em 21 cidades, reduziu em cerca de 27 mil casos de dengue. O estado investiu cerca de R$ 4 milhões, e economizou R$ 18 milhões. O custo é baixo: R$ 1 por habitante/por ano. Não é varinha mágica, mas está comprovada sua eficácia.” Sobre as campanhas de conscientização de combate ao Aedes, Eiras diz que são uma forma do governo jogar a responsabilidade para a população. “Há 18 anos temos epidemia de dengue e continuamos a usar os mesmos recursos. Temos de mudar de estratégia.”

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