De peito aberto contra as críticas, mineiras contestam post que viralizou na web

Especialista reforça vantagem de amamentar

por Sandra Kiefer Valéria Mendes 05/11/2015 08:26

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Ramon Lisboa / EM / D.A Press
Gabrielle Faria, com o filho Hugo, de quase 3 anos, e Cleidi Souza, com Bento, de 5 meses, deram o peito para os filhos na Praça da Liberdade (foto: Ramon Lisboa / EM / D.A Press)
Amamentar um filho não é coisa de “pobre fazendo pobrice”. Foi assim que mães, ativistas e médicos reagiram nesta terça-feira (03/11) a mensagem publicada por uma mulher de Campinas (SP) criticando uma anônima por dar leite à filha em público. O post polêmico se tornou viral na internet e foi compartilhado milhares de vezes, na maior parte dos casos em repúdio ao conteúdo – ao comentar a foto de uma mãe que amamentava enquanto pedalava, a autora foi acusada de enumerar uma série de mitos relacionados ao assunto justamente no dia em que brasileiras comemoravam a assinatura pela presidente Dilma Rousseff do decreto que regulamenta a Lei nº 11.265. A norma protege o aleitamento materno.

Leia também: #PobreFazendoPobrice: mães reagem a post sobre amamentação que viralizou na web

“Essa moça só pode estar querendo aparecer”, criticou a empresária Gabrielle Faria, representante do movimento A hora do mamaço, ato que reuniu diversas mulheres nesta condição em Belo Horizonte, em outubro passado. Para reafirmar a posição a favor da amamentação, ela e a psicanalista Cleidi Souza, de 34 anos, levaram ontem à Praça da Liberdade os filhos Hugo, de 2 anos e 8 meses, e Bento, de 5 meses. “Valeu a pena vir até aqui e amamentar em público o meu filho para desmentir esses argumentos”, disse Cleidi.

Reprodução Facebook
Clique na imagem para ampliá-la (foto: Reprodução Facebook)


“Amo amamentar. Além de criar vínculo maior com meu filho, estou cuidando da saúde dele. Com quase três anos, Hugo nunca teve uma gripe nem tomou antibiótico”, defende Gabrielle, que também amamentou até os 3 anos a filha mais velha, Ísis, hoje com 8. “Acredito que haja desinformação por parte de algumas mães e até mesmo de médicos. Muitas desistem ao ouvir dizer que o bebê não está ganhando peso, tem o leite fraco ou o bico do peito invertido. Nada disso é impedimento para amamentar”, completa ela, que também está apoiando o Projeto de Lei 1.510/15 garantindo o direito ao aleitamento em qualquer lugar da capital, de autoria do vereador Gilson Reis. Já aprovado nas comissões, o texto está pronto para ir a plenário na Câmara Municipal.

Desinformação
Para especialistas, a publicação que viralizou na internet contribui para a desinformação a respeito do aleitamento materno. Roberto Gomes Chaves, pediatra e membro do Comitê de Aleitamento Materno da Sociedade Mineira de Pediatria, classifica o comentário feito no post como “infeliz”. “Qualquer pessoa com acesso a redes sociais pode escrever o que pensa sobre qualquer assunto, mas não é que o que defende a comunidade científica do mundo inteiro. Já não é fácil amamentar. O hábito precisa ser aprendido com apoio profissional, da família e do patrão, para a hora em que a mulher voltar a trabalhar”. Com mestrado e doutorado sobre o tema, o pediatra afirma que o texto reforça a mentalidade de que os seios se tornaram órgãos exclusivamente sexuais e que ninguém pode ver em público: “Não se pode esquecer que os seios surgiram primeiramente com a finalidade de alimentar uma criança.”

Estudos mostram que a publicação feita pela moradora de Campinas contém outros problemas. A autora sustenta que fórmulas infantis se equivalem, em termos nutricionais, ao leite humano, mas desconsidera um dos atributos mais importantes do alimento produzido pelas mães: os fatores imunológicos presentes no alimento, com benefícios comprovados para o desenvolvimento da criança.

O leite materno contém células de defesa e fatores anti-infecciosos, a quantidade adequada de vitaminas, sais minerais, proteínas, água e gordura. Além disso, a amamentação também beneficia a saúde da mulher e é um fator de proteção contra o câncer de mama. Especialistas alertam ainda que, no Brasil, a média de tempo de aleitamento materno é baixa: 54 dias, contra uma recomendação da Organização Mundial de Saúde de seis meses, no mínimo.

Ramon Lisboa / EM / D.A Press
(foto: Ramon Lisboa / EM / D.A Press)

Mitos na internet
O pediatra Roberto Gomes Chaves, do Comitê de Aleitamento Materno da Sociedade Mineira de Pediatria, contesta informações sobre amamentação contidas em publicação que viralizou em rede social

Amamentação é dispensável depois de seis meses
“Não existe nenhum embasamento científico para afirmar isso. Ao contrário, à luz dos conhecimentos científicos atuais, a amamentação traz benefícios de ordem nutricional, imunológica , metabólica, cognitiva, odontológica, emocional e até econômica para as famílias. O que às vezes gera confusão é que a Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza que a amamentação deve ser exclusiva até os seis meses e complementada com outros alimentos para além dos 2 anos.”

O Nan (em pó) é igual ao leite materno
“Não é igual ao leite materno e nunca vai ser porque as diversas fórmulas infantis, como por exemplo o Nan mencionado no post, não possuem anticorpos, hormônios, fatores antiinflamatórios e fatores de estimulação de crescimento de várias células, inclusive de neurônios. Além disso, contém prebióticos e probióticos que fazem com que a flora intestinal do bebê cresça de forma mais saudável, reduzindo as cólicas.”

Criança criada com Nan dorme melhor e não tem dor de barriga
“A fórmula não facilita o sono da criança. Tenho vários pacientes que mamam no peito e dormem a noite toda a partir de 3 a 4 meses de idade. Por outro lado, há crianças que com seis meses ou mais que acordam durante a madrugada para tomar mamadeira. A questão do sono está mais relacionada com o comportamento ensinado pelos pais. Em relação a gerar menos dor de barriga, ao contrário do post, as crianças que mamam no peito têm menos risco de cólica.”

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