Efeitos da malária ameaçam gravidez

Fetos de grávidas com a doença têm o desenvolvimento neurológico comprometido, podendo sofrer, a longo prazo, problemas cognitivos e comportamentais

por Paloma Oliveto 05/10/2015 14:39

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Reprodução Internet
Mosquito da malária: infecção também pode levar ao parto prematuro (foto: Reprodução Internet)
Brasília – De todas as complicações decorrentes da infecção pelo protozoário Plasmodium, a mais grave é a malária cerebral, que deixa sequelas cognitivas e comportamentais, como alterações na memória, distúrbios de atenção e transtorno da ansiedade. Agora, pesquisadores canadenses constataram que os danos ao sistema nervoso não atingem apenas pessoas diretamente picadas pelo mosquito Anopheles, que transmite a doença. Em um estudo com ratos, eles descobriram que o feto de grávidas infectadas sofre as consequências, apresentando anomalias no desenvolvimento.

Kevin Kain, especialista em medicina tropical e principal autor do artigo, publicado na revista Plos Pathogens, lembra que mais da metade das gestantes do mundo está em risco de contrair malária. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), por ano, de 250 milhões a 500 milhões de pessoas são infectadas, das quais 1,5 milhão a 2 milhões morrem. No Brasil, o número de casos vem caindo e, de acordo com o Ministério da Saúde, houve 11.190 notificações da doença neste ano até agora, e 23.485 em 2014. A enfermidade é transmitida pela fêmea do mosquito Anopheles e tem como principais sintomas febre alta, calafrios, tremores, sudorese, dor de cabeça, náusea, vômito, cansaço e falta de apetite.

Já se sabe que a malária tem consequênciasgraves para a saúde da gestante e do feto, como aumento de risco de anemia materna, parto prematuro e peso baixo ao nascer. “Essa é uma doença potencialmente letal e particularmente perigosa durante a gestação, tanto para a mãe quanto para a criança que vai nascer”, diz Rose McGready, epidemiologista da Universidade de Oxford que pesquisa os riscos da doença na gravidez. “O impacto da exposição uterina à malária sobre o neurodesenvolvimento é desconhecido”, diz Kevin Kain, diretor do Departamento de Medicina Tropical e do Viajante da Universidade de Toronto.

Quando uma mulher grávida é infectada, explica o médico, alguns tipos de células do parasita acumulam-se na placenta. Acredita-se que, em resposta a essa invasão, o órgão materno desencadeie reações imunológicas para combatê-la, produzindo proteínas que vão lutar contra o micro-organismo. Esse sistema é chamado complemento. Um excesso de produção dos “soldados” do organismo, porém, principalmente de uma substância chamada anafilatoxina C5A, tem sido associado a prognósticos ruins de pacientes com alguns tipos de infecção. Pessoas com sépsis, por exemplo, costumam apresentar níveis altos da proteína.

Vasos anormais Recentemente, trabalhos científicos evidenciaram que o sistema complemento tem implicações sobre o processo de desenvolvimento neurológico. Baseado nesses conhecimentos, a equipe de Kain decidiu testar, em laboratório, se a infecção por malária durante a gestação leva a uma produção exagerada de C5A e, consequentemente, atinge o cérebro do feto.

Primeiro, os cientistas infectaram roedoras gestantes com o Plasmodium. Os testes foram iniciados antes que os filhotes nascessem. Usando uma tecnologia de imagem semelhante à da tomografia computadorizada, os pesquisadores verificaram um crescimento anormal de alguns tipos de vasos sanguíneos que se formavam no cérebro dos fetos.

Depois que os animais nasceram, aqueles com peso normal foram selecionados para participar de testes cognitivos e comportamentais. A bateria de exames revelou que tinham dificuldades de aprender tarefas associadas à memória e ao reconhecimento espacial e apresentavam características depressivas. Esses efeitos prolongaram-se até a vida adulta. Ao examinar o tecido cerebral dos ratos descendentes da mãe infectada por malária, também se observou danos nas estruturas relacionadas à produção de importantes substâncias químicas naturais, como serotonina.

“A infecção por malária parece acionar alguns padrões imunes, como do sistema complementar, o que altera o desenvolvimento cerebral normal do feto. Isso resulta em problemas de memória e transtornos afetivos, como a depressão. Esses efeitos persistiram, em nosso estudo, até a idade adulta”, resume Kain. “Mas uma coisa interessante é que a pesquisa sugere novos marcadores para gestações de alto risco e novas oportunidades de tratamento porque, bloqueando a resposta imune, o desenvolvimento da cria voltou ao normal.”

Remédios
O especialista explica que existem drogas aprovadas pelo FDA (órgão de vigilância sanitária dos EUA) que bloqueiam a produção de C5A. Esses medicamentos foram testados em outras cobaias gestantes também infectadas pela malária. O resultado foi animador: os cérebros dos fetos desenvolveram-se normalmente e, ao nascerem, os animais não apresentaram déficits cognitivos, nem comportamentais.

“As estratégias terapêuticas baseadas no bloqueio da C5A disponíveis atualmente, embora aparentemente sejam seguras para gestantes humanas, ainda são caras”, observa o médico. “Contudo, há algumas abordagens novas e menos caras e que podem ter o mesmo efeito benéfico”, adianta.

Atualmente, a equipe de Kain realiza testes em mulheres grávidas no Malauí. “Nossos próximos passos são completar o estudo por lá e confirmar nossas descobertas em gestantes que estão em alto risco para a malária. Depois disso, queremos terminar nossas pesquisas para chegarmos a tratamentos mais baratos, além de seguros”, conta.

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