Ninguém conhece ninguém

por Zulmira Furbino 05/10/2015 17:37

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Uma querida amiga instrumentadora cirúrgica me contou que abandonou a profissão porque não conseguia mais conviver com a frieza de coração, segundo ela, rotineira nas salas de cirurgia. Um caso em particular fez com que ela decidisse tentar outro caminho na vida.

Naquela vez, uma paciente internada estava sofrendo uma parada cardiorrespiratória, de modo que o médico responsável teve de usar o desfribilador, equipamento eletrônico que pode reverter um quadro de parada cardíaca, trazendo o coração de volta ao ritmo normal.

A tentativa durou pouco tempo, mas como a paciente não estava respondendo, ele a abandonou e saiu para avisar à família que ela havia morrido. Outro médico presente na sala discordou da decisão, deixou isso claro e, enquanto o colega saía da sala de cirurgia, passou a tentar trazer a moça de volta à vida.

Retornando à sala de cirurgia, o médico “responsável” teve uma surpresa: a paciente tinha sobrevivido graças à insistência do colega, mas o coração ainda não havia estabilizado. Ao se deparar com a situação, ele não teve dúvidas. Orientou os profissionais presentes na sala que parassem de tentar estabilizar o quadro da paciente. Afinal, para a família, ela já havia morrido. O segundo médico fingiu que não ouviu, concentrou-se no que tinha a fazer e a moça sobreviveu.

O caso me veio à cabeça quando assisti a um vídeo gravado por moradores do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, que foi jogado nas redes sociais. As cenas, gravadas do alto da janela de um barraco, mostram três policiais matando um jovem de 17 anos e alterando a cena do crime, ao virar o corpo, colocar uma arma na mão da vítima e simular um tiroteio.

Os dois episódios têm mais em comum do que se pode imaginar porque são reveladores da violência corriqueira (e às vezes dissimulada) com a qual somos obrigados a conviver. Num centro de terapia intensiva ou nos becos de uma favela, os mais fracos levam a pior, a não ser que alguém seja corajoso o suficiente para defendê-los.

Uma vez me disseram que não é o dinheiro que “revela” o que alguém é de verdade, mas o poder. O raciocínio tem a sua lógica: com ele nas mãos, o respeito alheio fica garantido e já não é necessário correr em busca de aprovação.

Vestido com essa ultracapa, o ser humano se autoriza a ser precisamente o que é, sem filtros, Photoshop ou felicidade sob medida, feita de fotos sorridentes que inundam as redes sociais.

O poder, e a sensação de poder, são, de fato, reveladores, e isso independe de nível de instrução, cultura, beleza, fama ou dinheiro. Sentindo-se inatingível, o ser humano deixa ver, de fora, exatamente o que leva dentro.

Ninguém conhece ninguém. Isso pode ser lindo. Ou horrível.

Está aí o superpop papa Francisco, só para ficar num exemplo bacana, atual e surpreendente. Seu posicionamento a favor dos menos favorecidos, das minorias, da diversidade e do entendimento é arrebatador (tomara que não nos decepcione). E também os corajosos moradores do Morro da Providência, que, mesmo desesperados e correndo perigo, gravaram o crime e o descortinaram para o mundo.

O outro lado reúne tudo o que pode ser representado por um médico que pisou no juramento de Hipócrates – “Eu, solenemente, juro consagrar minha vida a serviço da humanidade (…). Praticarei a minha profissão com consciência e dignidade (...)” – e acha normal deixar uma paciente morrer porque não tem palavras para explicar à família a razão pela qual anunciou a sua morte antes de fazer tudo o que deveria para salvá-la.

Ou quatro policiais que, no Morro da Providência, matam um menor de idade, simulam um tiroteio, fraudam a cena do crime e tentam incriminar a vítima “de boas”, como se fosse a coisa mais banal do mundo.

Não acredito em “céu”. Mas o inferno, seguramente, é só uma morte a mais.

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