A vida vai e vem

por Zulmira Furbino 12/08/2015 15:29

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Numa cidade dos arredores da capital há uma rua de calçada de paralelepípedos que é toda arborizada. A casa estava lá, atrás do muro pintado de branco e do portão de azul. Chego 15 minutos antes da hora marcada com o pai de santo. Uma leve taquicardia me acompanha.

A casa começa numa varanda de amurada baixa e chão de vermelhão encerado, com um vaso de espadas-de-São-Jorge – que dá gosto de ver – do lado direito, logo ao lado da porta. Vou até lá levada pelos conselhos de uma amiga, para tentar descobrir os rumos da minha vida profissional.

Estamos nos idos de 2002 e sinto-me mais ou menos pelo fio da navalha.

Quando entro na sala de atendimento, ele já está lá. Vestido de branco, com um turbante discreto na cabeça, sentado diante de uma mesinha coberta com uma toalha de renda também branca, em cima da qual há uma peneira de palha e bambu. Conversa um pouco comigo, balança as contas do jogo e arremessa as conchas na peneira.

São várias as tentativas, todas infrutíferas. O jogo está fechado. Saio dali com um medo danado de que minha vida fique realmente “trancada” por sete anos.

Sete anos, sete longos anos, não são pouca coisa. Não é preciso ser um gênio da matemática para apertar o “on” de uma calculadora e verificar que são 2.555 dias, 61.320 horas, 3.679.200 minutos e 13.245.120.000 segundos.

Definitivamente, não tenho tempo para esperar.

Mais de uma década depois daquele dia, penso que, de fato, a vida pode ser dividida em ciclos, como disse o pai de santo, a seu modo. Há teorias que falam em setênios, outras em rodadas de 29 em 29 anos e os que julgam que tudo é uma questão de fluxo.

(Concordo com tudo quando entro numa fase meio mística.)

No meu caso, até os sete fui raspa do tacho. Dos sete aos 14, ganhei vida nova e irmãos novos, seis no total. Dos 14 ao 21, mordi o mundo e mudei de rumo. Dos 21 aos 28, rendi frutos e me amarrei. Dos 28 aos 35, rendi mais frutos e me desamarrei. Entre 35 e 42, foi a hora de reconstruir. Dos 42 aos 49, de consolidar.

Levando em conta essa saga, calculo que acabo de adentrar a fase dos bônus. Espero que ela dure sete anos vezes sete.

Sei que haverá, dentro da temporada que ainda me cabe, muitos recomeços e finais nem sempre felizes. Só espero estar atenta e aberta para novos caminhos quando novos caminhos se abrirem – e para acolher em mim a nova pessoa que serei.

O fato de uma pessoa colecionar muitos “eus” ao longo de uma vida não significa que ela sofra de transtorno de personalidade. Digo isso com a chancela de João Guimarães Rosa. “O senhor mire e veja: o mais importante e bonito no mundo é que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam (…)”.

Estar vivo sem ter sido terminado é a chave para a liberdade. Se a vida ou nossas expectativas mudam, é um direito nosso mudar com elas.
No livro O fio da navalha (1946), o escritor francês W. Somerset Maugham conta a história de um ex-combatente de guerra (Larry Darnell) que volta para casa em estado de choque e não se reconhece mais naquilo que (re) encontra. Então, ele sai pelo mundo em busca do fio de meada que lhe devolva o sentido da vida.

Vinda de outras lutas, de tempos em tempos também me desconheço ao olhar para a casa que fica dentro – e as que moram fora de mim. Nessas ocasiões, como Larry, saio em busca do meu fio de meada. É o que me resta e, ao mesmo tempo, é tudo o que preciso.

Foi assim quando entrei na faculdade e depois, quanto tive um filho. Mais tarde, ao ingressar em outra faculdade, e depois, ao ter minha filha caçula. Foi assim quando fiz um concurso que mudou minha vida e ao abandonar esse emprego seguro por objetivos pessoais.
O mesmo ocorreu quando percebi que aqueles objetivos naufragaram e que era preciso tocar o barco sozinha, apesar da tempestade.

E é sempre assim.

A experiência na ruazinha cheia de árvores do início desta crônica, que havia afundado meu misticismo, nunca mais se repetiu. A não ser pelo fato de que, dia desses, baixei num astrólogo e saí de lá cheia de esperanças.

Como disse Guimarães Rosa (sempre ele): “A vida vai, mas vem vindo...”.

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