Ter uma horta pode ser a chave para aumentar o gosto de crianças por verduras

A participação de crianças no plantio de frutas e verduras aumenta em quatro vezes as chances de elas consumirem esses alimentos, aponta pesquisa norte-americana. Iniciativas do tipo podem ser feitas em casa ou em ambientes mais coletivos

por Correio Braziliense 15/06/2015 15:00

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Carlos Moura/CB/D.A Press
Edina estimula os netos Letícia e Rafael a participarem da horta cultivada em casa: refeições sem agrotóxico (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)
Um pequeno canteiro com ervas para fazer chás repousa embaixo de enormes samambaias. Cenário corriqueiro na casa das vovós. Na de Edina Caixeta de Araújo, 83 anos, porém, além da erva-cidreira e da hortelã, há verduras que abastecem a casa de saúde e reforçam os pratos dos netinhos. “A gente compra as do supermercado e não sabe com que água foram irrigadas. Também há muito agrotóxico. Por isso, o que tenho na horta não compro”, explica a dona de casa.

Letícia Amaral, 11, e Rafael Amaral, 1, moram com a avó e aprenderam com ela a gostar de verduras fresquinhas, tiradas na hora do pé. “ Eu sou de Patos de Minas e lá minha família sempre morou em chácara. Então, eu aprendi com meus pais a cultivar. Quando morei em apartamento, foi muito difícil para mim, falei para o meu marido que tínhamos que mudar para uma casa para eu ter o meu canteiro, porque gosto mesmo é de mexer com coisa viva, de cavucar a terra”, conta a moradora do Guará.

Na pequena faixa de terra, Edina cultiva couve, almeirão, quiabo, tomate, cebolinha, manjericão, poejo, salsinha, amor-perfeito… Com tanta variedade para escolher, Letícia vai formando seu gosto e elegendo os prediletos: “Gosto de alface, manga, abacaxi e espinafre. Não gosto de tomate. Gosto de galinha com quiabo, mas não de quiabo com carne. Também gosto de alface e couve”, enumera. Já Rafael parece que nasceu para ajudar na horta. “Ele vive brincando por aqui, coloca a mão na terra, pega as minhocas. Come tudo o que damos para ele. As crianças não gostam muito de jiló, mas nem eu gosto”, conta o avô dos meninos, Azeiro Araújo, 85.

Letícia e Rafael cresceram com uma horta ao alcance das mãos. Um novo estudo da Cornell Food and Brand Lab mostra que jovens como eles são quatro vezes mais propensos a inserirem diferentes verduras nas refeições. Publicada no jornal médico Acta Paediatrica, a pesquisa foi feita em Nova York e mediu as escolhas dos alimentos depois que uma escola incorporou verduras na merenda escolar da lanchonete. Os pesquisadores mediram as seleções e o desperdício de um total de 370 alunos matriculados no ensino médio ao longo de três dias.

Quando a gôndola de salada continha produtos cultivados pelos alunos, o percentual dos que selecionaram esses alimentos nas refeições aumentou de 2% para 10%. Em média, os alunos comeram dois terços da salada colocada no prato. O consumo geral de salada de todos os alunos aumentou de cinco a 12 porções por dia depois da inclusão de opções mais saudáveis no cardápio. “Percebemos uma grande promessa com essa investigação. O primeiro obstáculo em aumentar o consumo de vegetais é simplesmente levar as crianças a colocá-los no prato”, concluiu Drew Hanks, pesquisador da Universidade Estadual de Ohio e coautor do estudo.

Claudio Reis / Esp. CB / D.A Press
Mairon e Sophia plantam ingredientes da merenda: reeducação alimentar (foto: Claudio Reis / Esp. CB / D.A Press)


Lição de saúde

No Jardim de Infância da 304 Norte, em Brasília, os benefícios de ter uma horta foram percebidos antes do estudo norte-americano. Desde 2003, a escola pública tem um projeto de reeducação alimentar. Os professores e os alunos plantam as verduras, que mais tarde serão preparadas pelas merendeiras e consumidas ali mesmo pelos seus produtores.

“O objetivo macro é que a criança aprenda a se alimentar melhor. Elas se interessam mais pelas verduras, pois não querem somente ver o que plantaram. Quando você fala que o alimento é o mesmo que eles plantaram, querem experimentar também”, relata a professora Sonia Andrade. Há 12 anos na escola, ele viu o projeto nascer e conta que são comuns os casos de crianças que chegam sem o hábito de comer frutas e verduras e passam a adotá-lo depois que começam a vivenciar o plantio e a colheita.

O gosto pelos alimentos saudáveis está espalhado pelas salas de aula. Perguntado sobre o que gosta de comer, Mairon, 5, grita: “Eu amo todas as verduras, adoro brócolis e, neste ano, plantei cenoura”, empolga-se. Sophia, também com 5 anos, conta que, além de comer, se diverte na horta. “Eu plantei alface. Vieram os passarinhos e comeram. Aí, nós fizemos um espantalho para eles não bicarem. Então, nós comemos a alface no pão com tomate.”

E o entusiasmo em cuidar dos alimentos se reflete em casa, reforça a professora Sonia. “Eles cobram lá o que a escola incentiva. Antigamente, as crianças traziam muita guloseima e muito doce. Isso foi mudando. Os pais agora mandam sucos e frutas, os salgados são assados e não fritos”, conta. A iniciativa é tão bem-sucedida que, junho de 2011, recebeu a visita de Yoo Soon Teak, mulher do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon.

Tamanho família

Não adianta ajustar somente a lancheira dos filhos. Especialistas reforçam que a preocupação com as escolhas saudáveis deve valer também para as refeições dentro de casa. Segundo a engenheira agrônoma e gastrônoma Alessandra Brant, 41 anos, há a possibilidade ainda de usar o novo hábito como uma forma de integração da família. O cuidado é não impor as escolhas. “Você não pode forçar, tem que instigar a criança a gostar e a ter curiosidade. É por meio do tato, do paladar e do manusear que se faz eles se interessarem por verduras”, ensina.

Carlos Moura / CB / D.A Press
Alessandra e os filhos, Ana Julia e Rodrigo, cuidam de uma horta na 114 sul e colhem frutas pela cidade (foto: Carlos Moura / CB / D.A Press)
Com os filhos Ana Julia Lobato,13, e Rodrigo Lobato, 14, Alessandra percorre a cidade colhendo a diversidade frutífera que as árvores de Brasília oferecem e visitando hortas, como a da 114 Sul, onde há plantados vinagreira, salsinha, tomate e pimenta. Rodrigo recebeu da mãe uma educação alimentar exemplar desde pequeno. “Na escola, meus colegas estranhavam porque eu levava suco, frutas e pães caseiros. Mas eles deveriam estranhar os salgadinhos e outros produtos industrializados, que nem sabem do que são feitos”, diz. Julia complementa: “Sempre preferimos as nossas comidas de casa. O que é comprado nos mercados não tem o mesmo gosto bom dos alimentos frescos”.

Professora do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília (UnB), Raquel Braz ressalta que os benefícios de uma alimentação orgânica vão além do sabor diferenciado: “Os agrotóxicos penetram no solo e passam para o vegetal. Ao serem consumidos, sobrecarregam nosso fígado. Se uma criança começa a ingerir vegetais com uma grande quantidade desses produtos, há um excesso de atividade, podendo causar falência dos rins”.

Para quem nem tem condições de fazer uma horta em casa, Alessandra sugere levar os filhos às feiras. “Funcionará como fazer uma colheita. Procurar a origem dos alimentos é importante. Ao ter o contato com o produtor, você mostra a eles o que não tem agrotóxico, como foi produzido e os faz perceber o carinho de como aquilo foi produzido. O produto chega à sua sacola com o significado da boa alimentação, de uma escolha pela saúde”.


Evitando o câncer

“Acrescentar verduras e frutas na alimentação infantil é um modo não só de obter vitaminas e outros nutrientes, mas também de prevenir um problema cada vez mais comum entre os pequenos: a prisão de ventre. Quando as fezes ficam muito tempo em contato com o intestino, o corpo passa a acumular toxinas. Entre elas, agrotóxico no tecido gorduroso, no fígado e nos rins. Em médio e longo prazo, essa prevalência pode potencializar o aparecimento de câncer. Infelizmente, ainda existem produtores que usam agrotóxicos proibidos e que nós temos certeza de que causam doenças.”


Raquel Braz, professora do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília


Impacto escolar

Consumir fast-food pode levar crianças e adolescentes a um pior desempenho escolar, dizem pesquisadores da Universidade de Ohio, nos Estados Unidos. O estudo, publicado na revista Clinical Pediactrics, mediu o consumo de lanches em redes famosas no mundo por 11.740 crianças norte-americanas de 10 anos. Três anos após a medição, quando elas estavam na 8ª série do ensino fundamental, os pesquisadores avaliaram o resultado de testes acadêmicos feitos por elas. A pontuação média das que consumiam fast-food diariamente era de 79 em ciência, enquanto as que não se alimentavam desse tipo de comida tinham notas 83. Na pesquisa, foi registrado ainda que 52% das participantes disseram ter comido algum tipo de fast-food entre uma e três vezes na semana anterior, e 10% haviam ingerido esse tipo de alimento de quatro a seis vezes. Para outros 10%, esse consumo era diário.

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